Amordaça-se a cultura para oprimir o povo!

 

(imagem by: guide du Pays Basque)


Não é novidade para ninguém que a CULTURA enquanto movimento artístico, mas também enquanto repositório cultural de um povo, enquanto estrutura contadora de histórias e da história, é, foi, e será sempre uma afronta a governos totalitaristas, fascistas, e de qualquer dos estremos políticos, porque nesta matéria, nem a esquerda nem a direita ficam bem na fotografia.

Uma das formas de atacar a cultura, é os governos cortarem verbas, sobe todas as formas, quer verbas diretas assentes em acordos, quer as verbas por concurso, reduzindo quer o montante, quer o número de concursos abertos, junta-se a isto o fator “cunha” ou Lobby que obviamente vai favorecer os grupos amigos do regime em vigor.

Sou um perfeito leigo na matéria de concursos, sejam de que espécie for, mas recordo com tristeza que durante a capital europeia da cultura houve financiamentos que claramente vistos de fora cheiravam mais a esturro que arroz deixado ao lume sem água. Financiamentos de milhares de euros para peças de um adereço único, que não era mais que uma mesa, ou obras que correram à velocidade da luz para abrir as portas de um qualquer espaço para apresentar um show mais que repetido a “ilustres” convidados. Fui, sou e serei um acérrimo critico sobres os moldes como os dinheiros foram gerenciados para um evento maior como foi a Capital Europeia da Cultura – Porto2001.

 

Perdemos uma oportunidade de ouro, para não dizer, diamante, de levar a cultura, o despertar dos sentidos ao povo, ao povo que não foi INTENCIONALMENTE educado a ler, a ver teatro, a observar pintura ou escultura, um povo que foi INTENCIONALMENTE empurrado para aquilo que eu chamaria de “ópio do povo” ao estilo marxista dos nossos tempos, que é o futebol, como evento desportivo de massas. Quantas famílias não conhece cada um de nós, em que se despende mais por um bilhete de futebol que alguma vez se despenderá para algo mais essencial, mesmo que para os seus filhos.

 

Chegados aqui voltemos ao tema, que é a opressão da cultura por governos que querem um povo silenciado, cordeiro do programa político, individuo adestrado para reverenciar o seu prato vazio.

Para milhentos de nós, a repressão da cultura reside na cena macabra da queimada de livros pelo regime nazi. Talvez por proximidade geográfica, mas não certamente antropológica, porque enquanto entre 1933-1945 a Alemanha nazi queimava livros, entre 1924-1953 Estaline impôs como estilo artístico a seguir o “realismo socialista”. A simples imposição de um estilo é por si só repressora, ele queria com isto que todas as produções artísticas fossem uma ode ao trabalhador, ao partido e a sua liderança comunista. Mas não se ficou por aí, autores vários foram presos ou mortos, a música de Shostakovich foi banida por ser julgada como sofisticada demais e por isso não acessível às massas. Conseguem imaginar terem em vossa casa um disco da vasta obra deste maravilhoso compositor, porque o ouvido das pessoas não se rege por estatutos, e serem invadidos pelas autoridades não apenas para confiscar o referido disco, mas para você ser conduzido aos Gulags!?

 

A China de Mao Tsé-Tung iniciou algo que chamou de movimento para “purificar a cultura, sendo que esse movimento tinha como função destruir tudo que fosse “feudal”, burguês ou ocidental. Foram encerradas universidades, e intelectuais, artistas e professores foram perseguidos. A exemplo de Estaline, Mao só permitiu a arte que glorificasse o comunismo, levando à destruição e milhões de obras de arte, templos, e livros pelos Guardas Vermelhos.

 

Portugal, Espanha e Brasil, não ficaram de fora desse processo devastador da identidade dos seus povos. A censura massiva de escritores, artistas de todas as dimensões da arte, cineastas, eles e suas obras foram perseguidas e destruídas, e eles os autores levados a exilio ou presos, e em último caso mortos.

O que se vive hoje nos EUA é a expressão de outros tempos em ação, uma expressão que embora nos pareça desorganizada, provinda do desequilíbrio intelectual de alguém, é na verdade um processo de repressão e opressão do povo, e se alguém acha que será diferente em outras geografias como a nossa, desengane-se porque os nossos avós, os nossos pais, viveram isso, e sabem o significado e a dor que provoca.

 

Nenhum Estado dominador, seja de que estremo for, quer uma população letrada, capaz de ler, saber o que ler, e mais que isso ter capacidade critica sobre o que lê, escuta e observa. Um povo inteligente não serve nenhuma forma de dominação. É Pierre Bourdieu, que nos diz, que nos alerta no sentido de que “a violência simbólica é aquela que se exerce com a cumplicidade tácita dos dominados sobre os dominados” — e é precisamente por isso que a ignorância é o terreno mais fértil para o poder autoritário.

 

Por isso que (des)Governos como o nosso atribuem 1% do orçamento para a cultura – foi por isso que Porto2001 não foi buscar o povo para ver o Lago dos Cisnes, a explicou a coragem que reside no nome da Invicta – por isso que esse mesmo (des)Governo coloca na direção desse ministério quando não é uma secretaria da cultura, pessoas inapropriadas, sem capacidade ou conhecimento de preservar e impulsionar essa estrutura basilar de toda a sociedade.


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