Nasceu Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes...

 

(photo by: Sérgio Aires)


Nasceu Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes, contudo a situação da sua família não permitiu que fosse criado pela mesma, e por isso foi deixado numa instituição para adoção.

Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes, foi adotado por uma família que se veio a revelar, passado algum tempo, não ter condições de cuidar dele, e por isso os sistema retirou a criança a esta família, tendo Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes, sido adotado por uma família que o acolheu com muito amor e todas as condições que uma criança necessita para se desenvolver convenientemente, a família onde hoje Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes é filho e por isso membro da família, é a família Santos, que hoje para simplificar o chama apenas Dudu!

 

A Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto vulgo MOP, como tantas outras, nasceu chamando-se por quem a batizou para além do seu propósito, com este nome, contudo esta como outras Marchas do Orgulho em Portugal tem quer na sua génese, quer nas nomenclaturas atuais entidades e pessoas que não fazem parte da vasta sigla LGBTQUIA+, e por isso mesmo a certa altura houve quem de fora da comunidade, mas dentro da organização da MOP questiona-se o seu nome.

 

Nesses tempos os debates foram feitos e hoje não se questiona mais o nome da criança, Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes ou a MOP podem ter as famílias que tiverem que o seu nome de batismo será o mesmo, porque tal como Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes a MOP é no caso uma entidade em construção permanente, albergados seremos por famílias tão diversas, mas a nossa identidade muda quando quisermos, porque a poderemos sentir não mais nos definir, mas até lá este é o nosso nome.

 

E porque escrevo eu estas linhas? Por causa de uma foto, a que é capa deste artigo, haverá outras tantas do género, mas hoje é esta, que me vai ajudar a talvez fazer entender quem porventura não tenha observado a coisa segundo esta perspectiva e por isso algumas imagens e definições faladas ou escritas possam causar confusão.

 

As Marchas do Orgulho e em particular a MOP nasceram da necessidade de trazer a público o debate da coisa LGBT+, começou pela Marcha do Orgulho de Lisboa e depois de um assassinato bárbaro a várias dimensões, nasce a MOP, e mesmo nesse parto difícil, porque revestido de dor e sangue e um milhão de interrogações, os pais e mães desta Marcha tinham agendas várias, desde as questões LGBT+ ao racismo, das questões da violência de género ao mercantilismo do ser humano em todas as suas dimensões existenciais, a cola que nos unia no parir desta luta era sangue, e não se cingia ao sangue de uma mulher Trans, de seu nome Gisberta, mas também ao sangue nunca visto de Joana Cipriano no Algarve (final de 2005), e ao bebe que uma avó depois de o queimar lançou ao rio Douro (inicio de 2006), situações que o Portugal de então não estava habituado e que veio agitar as águas, consciências, formas de estar em sociedade.

 

De 2000 para cá, as Marchas do Orgulho multiplicaram-se por todo o país e ilhas, assim como a legislação sobre as questões LGBT+ também foram sendo reajustadas, alteradas, redigidas em conformidade com uma sociedade que avançava no sentido da diversidade e do respeito por essa diversidade. As Marchas no nosso país tiveram um papel de elevado valor, mas não podemos ficar alheios que o tsunami que se sentida pelo resto do mundo, nomeadamente em democracias algo idênticas à nossa, tiveram a sua cota parte de influência, quer na movimentação social, quer na visão política da coisa.

 

Essa evolução de que falo, é a mesma que faz que dentro do movimento LGBT+ outras bandeiras se levantem que não apenas a bandeira LGBT+, bandeiras como a do feminismo, do racismo, da Ucrânia ou da Palestina, porque hoje quando marchamos já não marchamos apenas e só por nós tugas, mas antes marchamos por todas as pessoas LGBT+ que também nesses conflitos sucumbem aos raides aéreos que não questionam orientações sexuais, ou identidades e expressões de género. Hoje marchamos também pelas mulheres que todos os anos caiem às mãos da ignorância dos seus companheiros, mulheres que além de nossas aleadas no passado e presente, são nossas mães, nossas irmãs, nossas filhas. Mais vale tarde que nunca, digo eu, mas hoje as Marchas do Orgulho carregam consigo a bandeira cigana, porque além de um povo na mira da extrema-direita, nela vive também pessoas LGBT+.

É por isso mais que natural que no ceio da organização das inúmeras Marchas do Orgulho LGBT+ a acontecer pelo nosso país, outras bandeiras se ergam entre nós, e ninguém precisa entrar em cuidados por isso, porque tal como Anacleto Bonifácio de Albuquerque Durildes, as Marchas do Orgulho ergam a bandeira que erguerem serão sempre as Marchas do Orgulho.

 

Nós todos, pessoas de diferentes estratos sociais, LGBT’s, pretas, ciganas, imigrantes, mulheres, precisamos entender que temos muito mais a ganhar juntas, que cada um com a sua bandeira, precisamos entender o movimento em volta destas Marchas do Orgulho, como um carro, e tal como um carro em movimento, ele avança mais e melhor se mantiver as quatro rodas na extremidade de cada eixo. Pneu cheio na pressão certa, que é como quem diz, cada uma fazendo levantar a sua voz, mas juntos, nessa Marcha mais ou menos lenta, na defesa da democracia, da LIBERDADE dos nossos direitos.

 

Não há direitos sem deveres, sabemos disso, e se tivermos todas um dever, esse será o da vigilância, e vigiamos mais, e protegemos mais, de mãos dadas!


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