A água acaba antes mesmo de 2035, e nós vamos cultivar abacates!
Mais
que todas as guerras me deixarem deprimido e enojado por fazer parte de uma espécie
que se arroga de racional, mas que atua com a maior, mais vil irracionalidade possível,
elas tem razões egoístas, egocêntricas, estratégicas, mas todas elas
completamente displicentes com a existência do ser humano, digo isto porque
quando se mata uns para salvaguardar outros, num esquema racional, dizem, então
devíamos desistir de hospitais, centros de saúde e ou drogas que nos perlongam
a vida, já que menos gente, menor necessidade de …
Porque
digo eu isto logo na abertura deste texto? Porque vamos falar de água. E porque
vou eu falar de água? Porque vi um título sobre uma plantação de abacates aqui
em Portugal que alegadamente está envolvida em disputas jurídicas de algum
tipo, mas estou quase certo, não será pela água.
Já
faz mesmo muito tempo que assisti a um conjunto de documentários sobre a água,
o uso da água, e os pontos de stress e as vítimas da água. Não me recordo com
exatidão de tudo, como seria de esperar, mas no essencial recordo que o mundo
como o conhecemos não faz a melhor gestão dos recursos hídricos que dispõe,
melhor dizendo, que ainda dispõem.
Recordo
por exemplo a Califórnia, é o maior produtor de amêndoa do mundo:
“A
Califórnia é o maior produtor mundial de amêndoas, cultivando aproximadamente
80% da produção global. O estado possui cerca de 550 mil hectares de
pomares de amêndoas, com um valor de produção que varia entre US$ 3 e 6
bilhões. A indústria da amêndoa na Califórnia tem um impacto econômico
significativo, gerando cerca de US$ 9,2 bilhões e empregando aproximadamente
110.000 pessoas.”
Este
recorte é o lado positivo da coisa, o negativo é outro e bem pesado.
“o
cultivo de amêndoas na Califórnia tem sido associado a um aumento do esforço
hídrico na região, o que pode levar a problemas de abastecimento de água para
as comunidades locais. A Califórnia é um dos maiores produtores de
amêndoas do mundo, e a cultura requer grandes volumes de água para
irrigação. Essa alta demanda, combinada com secas frequentes e mudanças
climáticas, tem gerado preocupações sobre a disponibilidade de água para
consumo humano, agricultura e outros usos.”
Este
recorte também não mostra tudo, porque não é uma questão nova, rios foram
desviados deixando agricultores de outras culturas e até de culturas de subsistência
sem água, ou com escassez acentuada, localidades inteiras mudaram-se, e por
exemplo cidades como Fresno onde outras culturas tiveram de ser abandonadas, e
as pessoas na cidade de Fresno tiveram poços que secaram, onde (há) houve
restrições no consumo pessoal enquanto a agricultura e em particular o cultivo
da amêndoa tinha a água que desejava.
Assim
quando vi o título sobre uma produção e abacate, fui confirmar a impressão que
tinha de que este alimento, tão apreciado por vegetarianos e por mim mesmo, a
sua produção consome grandes quantidades de água, e por isso este texto e os
dados que recolhi.
O
consumo de água por hectare/ano no cultivo do abacate é de entre 8 a 10M de
litros de água,
(1kg de abacate = 1000 a 2000 litros de água), porque a abreviatura vos pode
confundir, notem bem que estamos a falar de entre a 8 a 10 MILHÕES de litros
de água por hectare/ano.
Tem
um filme do James Bond - Quantum of Solace, que mostra depósitos gigantescos no
deserto boliviano detidos pelo mau da fita no filme, que usa os mesmos como
chantagem para conseguir o que pretende a nível económico/político, mas que
para exercer essa pressão, desvia a água das populações. Quando vi o filme, mais
que a espetacularidade do mesmo, o que me chamou atenção foi a água, e aqueles
reservatórios, que me fizeram olhar o mundo, na perspetiva de que no futuro
mais que numa corrida ao ouro, haverá uma corrida à água, o ouro, diamantes, o
petróleo do futuro.
Apesar
70% de o planeta terra estar coberto por água, a verdade é que apenas cerca
de 1% desse líquido é possível para consumo humano, verdade que atualmente
temos processos de dessalinização, transformar água salgada em doce, mas como
diz a publicidade, não é a mesma coisa, e como solução é muito dispendiosa. Mas
o que nos interessa é a água “potável” proveniente de rios, lagos e aquíferos, sendo
que esta encontra-se sobe pressão extrema, já hoje.
Pesquisas
feitas concluímos que mais de 2,2 mil milhões de pessoas vivem sem
acesso seguro à água potável (OMS, 2023) – mais de 4 mil milhões de pessoas
já enfrenta escassez de água pelo menos um mês por ano (UN-Water) – os aquíferos
subterrâneos por todo o mundo são consumidos a uma velocidade maior que aquela
que os mesmos conseguem recuperar, e no meio de tudo isto as mudanças climáticas,
(que podemos achar que não existem à vontade, mas que estão ai todos os dias
para nos lembrar da sua existência através de diferentes manifestações),
ampliam esta escassez de diversas formas, com a alternância irregular de chuvas,
ao derreter acelerado da calotas polares que em muito lugares é fonte de água
primária.
Foi
um dos documentários mais nojentos que tive oportunidade de visionar sobre esta
matéria, ele explicava os milagres da exploração e recuperação da água por
parte de Israel, mas também da “ocupação” do rio Jordão, pelo estado de Israel
que por meio de restrições políticas e militares desde 1967, limita o
acesso dos palestinos à água que lhe passa à porta. Não admira esta e todas as
demais guerras, e a água enquanto recursos escassos, cada vez mais, está muito
no núcleo de outras disputas, como é caso do Egito e a Etiópia que disputam não
apenas o Nilo Azul, mas também a barragem do Renascimento – o rio Indo alimenta
muitas das tensões entre a India e o Paquistão – e a China não invadiu o Tibete
porque era muito bonito, mas porque daqui parte muito da água que alimenta rios
chineses como o Mekong e Yangtzé.
Estes
conflitos dão-se e ainda temos alguma água, contudo, e tendo em conta que
cidades como a Cidade do Cabo na Africa do Sul – São Paulo no Brasil – Chennai na
India – que já enfrentam situações de risco iminente de ficarem sem águas nas
torneiras, este conflitos rapidamente tornam-se em guerras intensas.
Por
conta da escassez de água, está previsto que até 700 milhões de pessoas sejam
deslocadas, forçadas a imigrar até 2030-2040.
Algumas regiões do mundo esperam atingir o colapso hídrico antes mesmo
de 2035, seja daqui a dez anos.
Tal
como o aquecimento global, requer faz tempo ações para o mitigar, a água potável
de que ainda dispomos grita por socorro, todos os dias mais, a cada minuto, e
por isso precisamos atuar ontem na preservação, na gestão, na mudança de hábitos.
Técnicas
e tecnologias várias podem ser pensadas e colocadas em prática o quanto antes:
-
Um dos casos mais falados é a “Dessalinização”, contudo esta tem custo muito
elevados.
-
Reuso da água, é outro método possível, Israel tem apurado esse processo, e
hoje recicla cerca de 90% da “sua” água usada.
-
Pensar que agricultura, e numa agricultura de precisão, onde se dê prioridade à
irrigação gota-à-gota.
-
Encontrar formas de capturar a água da chuva, dando-lhe uso, ao invés de ser desperdiçada
na totalidade quase.
-
Proteger os diferentes aquíferos de todas as formas.
Mas
em conjunto e mais importante que tudo isso a água não pode continuar a ser
um recurso geopolítico, deve ser antes um Direito Humano inegociável, e de
acesso livre a TODAS as pessoas do mundo, encontrando formas de levar essa água
tão longe quanto necessário.
Na
verdade, em nenhuma das fontes que encontrei, vi que a água potável vá acabar,
não pelo menos a nível global, mas todos afirmam que ela está a ser todos os
dias cada vez mais escassa em regiões onde há maior concentração de pessoas.
O
nosso futuro com respeito à água depende não apenas de inovações tecnológicas a
este nível, mas de decisões políticas tomadas hoje para proteger o futuro, e
acima de tudo de todos nós, na forma como gerimos este recurso, identificado
como VIDA.
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