A água acaba antes mesmo de 2035, e nós vamos cultivar abacates!

 

(photo by: JPaulo2k1 - óleo sobre tela, by: JPaulo2k1)



Mais que todas as guerras me deixarem deprimido e enojado por fazer parte de uma espécie que se arroga de racional, mas que atua com a maior, mais vil irracionalidade possível, elas tem razões egoístas, egocêntricas, estratégicas, mas todas elas completamente displicentes com a existência do ser humano, digo isto porque quando se mata uns para salvaguardar outros, num esquema racional, dizem, então devíamos desistir de hospitais, centros de saúde e ou drogas que nos perlongam a vida, já que menos gente, menor necessidade de …

 

Porque digo eu isto logo na abertura deste texto? Porque vamos falar de água. E porque vou eu falar de água? Porque vi um título sobre uma plantação de abacates aqui em Portugal que alegadamente está envolvida em disputas jurídicas de algum tipo, mas estou quase certo, não será pela água.

 

Já faz mesmo muito tempo que assisti a um conjunto de documentários sobre a água, o uso da água, e os pontos de stress e as vítimas da água. Não me recordo com exatidão de tudo, como seria de esperar, mas no essencial recordo que o mundo como o conhecemos não faz a melhor gestão dos recursos hídricos que dispõe, melhor dizendo, que ainda dispõem.

 

Recordo por exemplo a Califórnia, é o maior produtor de amêndoa do mundo:

A Califórnia é o maior produtor mundial de amêndoas, cultivando aproximadamente 80% da produção global. O estado possui cerca de 550 mil hectares de pomares de amêndoas, com um valor de produção que varia entre US$ 3 e 6 bilhões. A indústria da amêndoa na Califórnia tem um impacto econômico significativo, gerando cerca de US$ 9,2 bilhões e empregando aproximadamente 110.000 pessoas.”

 

Este recorte é o lado positivo da coisa, o negativo é outro e bem pesado.

o cultivo de amêndoas na Califórnia tem sido associado a um aumento do esforço hídrico na região, o que pode levar a problemas de abastecimento de água para as comunidades locais. A Califórnia é um dos maiores produtores de amêndoas do mundo, e a cultura requer grandes volumes de água para irrigação. Essa alta demanda, combinada com secas frequentes e mudanças climáticas, tem gerado preocupações sobre a disponibilidade de água para consumo humano, agricultura e outros usos.

 

Este recorte também não mostra tudo, porque não é uma questão nova, rios foram desviados deixando agricultores de outras culturas e até de culturas de subsistência sem água, ou com escassez acentuada, localidades inteiras mudaram-se, e por exemplo cidades como Fresno onde outras culturas tiveram de ser abandonadas, e as pessoas na cidade de Fresno tiveram poços que secaram, onde (há) houve restrições no consumo pessoal enquanto a agricultura e em particular o cultivo da amêndoa tinha a água que desejava.

Assim quando vi o título sobre uma produção e abacate, fui confirmar a impressão que tinha de que este alimento, tão apreciado por vegetarianos e por mim mesmo, a sua produção consome grandes quantidades de água, e por isso este texto e os dados que recolhi.

O consumo de água por hectare/ano no cultivo do abacate é de entre 8 a 10M de litros de água, (1kg de abacate = 1000 a 2000 litros de água), porque a abreviatura vos pode confundir, notem bem que estamos a falar de entre a 8 a 10 MILHÕES de litros de água por hectare/ano.

 

Tem um filme do James Bond - Quantum of Solace, que mostra depósitos gigantescos no deserto boliviano detidos pelo mau da fita no filme, que usa os mesmos como chantagem para conseguir o que pretende a nível económico/político, mas que para exercer essa pressão, desvia a água das populações. Quando vi o filme, mais que a espetacularidade do mesmo, o que me chamou atenção foi a água, e aqueles reservatórios, que me fizeram olhar o mundo, na perspetiva de que no futuro mais que numa corrida ao ouro, haverá uma corrida à água, o ouro, diamantes, o petróleo do futuro.

 

Apesar 70% de o planeta terra estar coberto por água, a verdade é que apenas cerca de 1% desse líquido é possível para consumo humano, verdade que atualmente temos processos de dessalinização, transformar água salgada em doce, mas como diz a publicidade, não é a mesma coisa, e como solução é muito dispendiosa. Mas o que nos interessa é a água “potável” proveniente de rios, lagos e aquíferos, sendo que esta encontra-se sobe pressão extrema, já hoje.

 

Pesquisas feitas concluímos que mais de 2,2 mil milhões de pessoas vivem sem acesso seguro à água potável (OMS, 2023) – mais de 4 mil milhões de pessoas já enfrenta escassez de água pelo menos um mês por ano (UN-Water) – os aquíferos subterrâneos por todo o mundo são consumidos a uma velocidade maior que aquela que os mesmos conseguem recuperar, e no meio de tudo isto as mudanças climáticas, (que podemos achar que não existem à vontade, mas que estão ai todos os dias para nos lembrar da sua existência através de diferentes manifestações), ampliam esta escassez de diversas formas, com a alternância irregular de chuvas, ao derreter acelerado da calotas polares que em muito lugares é fonte de água primária.

 

Foi um dos documentários mais nojentos que tive oportunidade de visionar sobre esta matéria, ele explicava os milagres da exploração e recuperação da água por parte de Israel, mas também da “ocupação” do rio Jordão, pelo estado de Israel que por meio de restrições políticas e militares desde 1967, limita o acesso dos palestinos à água que lhe passa à porta. Não admira esta e todas as demais guerras, e a água enquanto recursos escassos, cada vez mais, está muito no núcleo de outras disputas, como é caso do Egito e a Etiópia que disputam não apenas o Nilo Azul, mas também a barragem do Renascimento – o rio Indo alimenta muitas das tensões entre a India e o Paquistão – e a China não invadiu o Tibete porque era muito bonito, mas porque daqui parte muito da água que alimenta rios chineses como o Mekong e Yangtzé.

 

Estes conflitos dão-se e ainda temos alguma água, contudo, e tendo em conta que cidades como a Cidade do Cabo na Africa do Sul – São Paulo no Brasil – Chennai na India – que já enfrentam situações de risco iminente de ficarem sem águas nas torneiras, este conflitos rapidamente tornam-se em guerras intensas.

 

Por conta da escassez de água, está previsto que até 700 milhões de pessoas sejam deslocadas, forçadas a imigrar até 2030-2040.  Algumas regiões do mundo esperam atingir o colapso hídrico antes mesmo de 2035, seja daqui a dez anos.

 

Tal como o aquecimento global, requer faz tempo ações para o mitigar, a água potável de que ainda dispomos grita por socorro, todos os dias mais, a cada minuto, e por isso precisamos atuar ontem na preservação, na gestão, na mudança de hábitos.

 

Técnicas e tecnologias várias podem ser pensadas e colocadas em prática o quanto antes:

- Um dos casos mais falados é a “Dessalinização”, contudo esta tem custo muito elevados.

- Reuso da água, é outro método possível, Israel tem apurado esse processo, e hoje recicla cerca de 90% da “sua” água usada.

- Pensar que agricultura, e numa agricultura de precisão, onde se dê prioridade à irrigação gota-à-gota.

- Encontrar formas de capturar a água da chuva, dando-lhe uso, ao invés de ser desperdiçada na totalidade quase.

- Proteger os diferentes aquíferos de todas as formas.

 

Mas em conjunto e mais importante que tudo isso a água não pode continuar a ser um recurso geopolítico, deve ser antes um Direito Humano inegociável, e de acesso livre a TODAS as pessoas do mundo, encontrando formas de levar essa água tão longe quanto necessário.

 

Na verdade, em nenhuma das fontes que encontrei, vi que a água potável vá acabar, não pelo menos a nível global, mas todos afirmam que ela está a ser todos os dias cada vez mais escassa em regiões onde há maior concentração de pessoas.

O nosso futuro com respeito à água depende não apenas de inovações tecnológicas a este nível, mas de decisões políticas tomadas hoje para proteger o futuro, e acima de tudo de todos nós, na forma como gerimos este recurso, identificado como VIDA.


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