"NeoSolidão"

 


(photo by: Zenklub)


Não porque estou sozinho, porque não estou, apenas estou longe do marido porque ele foi para um torneio -  dei por mim a refletir sobre a solidão. Não é a primeira vez que o faço, é aliás um tema que me surge frequentemente ao vaguear pelas redes sociais, isto porque sinto de alguma forma, nas fotos e nos verbos expostos, a ausência, a falta de alguém ao lado das pessoas que postam quadros de vida surrealistas, com a pretensão de nos fazer acreditar ser real, mas mais que isso ser o Evereste da felicidade. E tem uns quantos que embarcam nessa encenação, mas gente, eu comprei bilhete, eu sei que isto não passa de um palco.

 

A solidão que se vive hoje, surge-me como a homossexualidade uns 40 anos atrás, uma sexualidade vivida a partir do armário. Por fora, namoramos a miúda do bairro, por dentro escondemo-nos nos recantos sombrios da noite com o irmão dela – a solidão é essas sombras noturnas, um sentimento que escondemos a todo o custo para que as pessoas não nos olhem com pena, não nos questionem sobre as nossas infelicidades, as nossas tormentas, mas mais que isso porque o mundo em que vivemos nos pressiona (uns mais que outros) para sermos apenas e só detentores de vidas extraordinárias, invejadas por todos  -  aliás andam a postar vidas pensadas como sendo fantásticas, e mesmo assim uns e outros querem sempre a vida dos outros como sendo melhor que a versão postada por eles mesmos, o que a mim me diz que esta malta nem na imaginação são capazes de ser felizes e certos o bastante daquilo que desejavam ser esse sentimento de felicidade.

 

Temos malta de meia-idade e mais, a postar fotos com carinhas mais parecidas com rabos de bebes, numa mostra clara de que não tencionam nunca conviver pessoalmente, a não ser que usem burca ou máscara para esconder as rugas do tempo, a pele queimada da vida e das horas ao sol, e noites na gandaia.

Estamos a falar de pessoas solitárias com vidas redigidas de régua e esquadro, com alguns sulcos é verdade, que não dispõem de uma rede de amizades, mas apenas de conhecidos que trocam conversas de circunstância, "klincão" uns copos, e acabam sozinhos algures numa cama vazia, ou num espaço qualquer, expostos à sorte de um abraço furtuito de um carinho a prazo, para no dia seguinte começar tudo de novo.

 

E neste texto estou a falar de solidões de pessoas funcionais, que trabalham, estudam, circulam, convivem, pensemos agora em todos os outros que cujo limite dos movimentos, a reduzida e magra reforma, a saúde a conta gotas, os impede de procurar uma companhia real, quanto mais uma fake, mas sobre estes escrevo outro dia – hoje, só mesmo aqueles que tem oportunidade de serem felizes, mas preferem viver rodeados de filtros e cenários de Hollywood ao invés de atravessar a pista, dizer olá, e seguir a partir daí, porque a felicidade está do outro lado da rua, do outro lado da pista, bem à tua frente, e bem longe de qualquer teclado!


Comentários

  1. Certinho direitinho 🫣😔😢😢😢 e contra mim falo,pois tenho amigas e amigos para falar mas estou mentalmente tão cansada que nem tenho vontade de falar ou desabafar...e isolo- me cada vez mais...mas eu não sou jovem e é lógico que é diferente...falar com uma pessoa real que se cansa de ouvir sempre a mesma ladainha e falar para um ecrã...falamos o que nos vai na alma, com ou sem efeitos ou filtros, simplesmente porque precisamos de " ver" como gostaríamos que fosse na realidade ,pois é importante um pouco de " leviandade" e falsas máscaras que não fazem mal a ninguém a não ser a nós e depois vem essa tua afirmação de -esconde o real feio para parecer aceitavelmente belo e mais agradável á vista de quem vê...vai a cara com a careta=a vida é uma ilusão,e nem sempre o que parece é... quanto á procura de momentos de amores roubados ou orgasmos forçados pela necessidade física e mental onde se junta o útil ao desagradável "depois", como não se pode ter tudo...ou medos de isto ou aquilo, ainda bem que existem esses *cantos ou quartos* ou situações, onde a pessoa se vai contentando com as * migalhas* que a vida lhe vai dando... consequências da vida agitada e valvurdiada que força as pessoas a isolarem - se cada vez mais... é pena.........eu quando era jovem e via do outro lado da pista,uma pessoa que me agradasse, fazia o possível e impossível para que tudo acabasse na cama...ou por trás de um portal...ou dentro do carro 😂😂😂😂😂😂😂ou na praia...ou entre arbustos...o que eu queria era *ser feliz* naquele momento,pois sabia que só podia ser assim...tinha que ser assim...e apaixonava- me sempre...fosse 5,10 ou 30 minutos...eu não queria nem podia ter compromissos...depois...bem...acendia um cigarro e cada qual ia á sua vida...e isto foi há mais de 30 anos 😂😂😂😂😂😂😂😂😂

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