Quando Acordar Deixa de Ser Vitória: ...
Quando Acordar Deixa de Ser Vitória: Reflexão sobre a Depressão como Sintoma de uma Sociedade num Colapso Silencioso
"Quando
acordar já não representa uma vitória, mas antes um sacrifício, um regresso à
ansiedade, ao desespero..." A frase poderia ter sido escrita
por qualquer um dos milhões de seres humanos que, todos os dias, enfrentam a
manhã com um peso no peito e não com esperança. Acordar, em vez de ser
celebração da vida, torna-se o reinício de uma luta interior exaustiva — e
silenciosa. Esta não é apenas uma experiência individual: é o espelho de um
mal-estar coletivo que cresce à sombra do progresso, de filtros presentes nas
redes sociais, de vidas que na verdade não existem com aquele desenho.
Segundo a Organização Mundial da
Saúde, mais de 280 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de depressão,
sendo esta a principal causa de incapacidade global. Em Portugal, os
números acompanham esta tendência: entre 2019 e 2023, o consumo de
antidepressivos aumentou mais de 30%, segundo dados da Autoridade Nacional do
Medicamento (Infarmed). Estes dados não representam apenas diagnósticos, mas
revelam uma dor social que muitas vezes se mascara de normalidade.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul
Han, no seu ensaio “A Sociedade do Cansaço”, defende que a depressão não
é apenas um problema clínico, mas o sintoma de uma sociedade que explora os
indivíduos em nome da produtividade e da autoeficácia. “Hoje, todos são
empresários de si mesmos”, escreve Han. “A liberdade torna-se um
imperativo de desempenho.” Quando a vida é reduzida a resultados e
comparação, não sobra espaço para o fracasso — nem para o simples existir. A
ansiedade e a depressão não surgem apenas por perdas ou traumas pessoais, mas
por uma constante sensação de insuficiência perante o mundo, em mim reside a
questão permanente de “porquê guerras, porquê, alguma experiência social,
será que já não lhe conhecemos os resultados?”.
O psicanalista francês Christophe
André, autor de “Viver com Serenidade”, alerta que “os depressivos
não são fracos: são sensíveis demais ao sofrimento do mundo.” Esta
sensibilidade, em vez de ser acolhida, é muitas vezes transformada em culpa.
Como pode alguém desejar não existir, quando há tantos a lutar pela vida? A
comparação torna-se um fardo. Saber que há quem sofra mais — vítimas da
guerra, da fome, de doenças graves — não alivia a dor do deprimido, antes a
agrava. O filósofo Pascal Bruckner em “A Euforia Perpétua”, diz que “num
mundo onde a felicidade é um dever, estar triste é um delito moral.”
Estamos perante uma epidemia
silenciosa onde os sintomas individuais — o choro matinal, a apatia perante o
futuro, a insónia, o medo irracional de obras no prédio ou de uma simples
inscrição académica — são tratados como disfunções pessoais. Mas o problema é
maior: somos uma sociedade que esqueceu o sentido de comunidade, que empurra os
frágeis para os cantos, que reduz a saúde mental a estatísticas e a soluções
químicas, ignorando muitas vezes (constantemente) as raízes sociais e
existenciais do problema.
Albert Camus escreveu: “Não
existe amor à vida sem desespero de viver.” Talvez a resposta não esteja
apenas em curar os sintomas, mas em reconstituir um mundo onde a vida possa
voltar a fazer sentido. Onde o trabalho não seja o centro da identidade, onde o
sucesso não seja o único critério de valor, onde possamos simplesmente existir
— com as nossas fraquezas, dúvidas e medos — sem sermos empurrados para o
abismo do desempenho infinito, para o apontar constante de mais dedos que
aqueles que conseguimos observar, sendo muitos desses, próteses de uma vida
desenhada de régua e esquadro.
A ideia de que morrer ou ganhar a
lotaria podem ser igualmente libertadoras não deve ser vista com escândalo, mas
com atenção. Ambas as possibilidades representam, de formas opostas, uma saída
do sofrimento: uma, pela ausência; a outra, pela mudança. Isso revela que o
desejo profundo não é o fim da vida, mas o fim da dor. Escreveu Viktor Frankl,
psiquiatra e sobrevivente de Auschwitz: “Quando não podemos mais mudar uma
situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” Mas talvez, mais do que
mudar a nós próprios, que muitas vezes não é mais que uma maquilhagem, uma
caraterização imposta, porque faltam os meios, o espaço, quem sabe o tempo para
mudarmo-nos numa sociedade que nos lembra constantemente o nosso lugar, talvez
por tudo isso seja antes hora de transformar a sociedade em que vivemos.
Porque não é um “eu” que sofre em
silêncio. Somos “nós”. Uma comunidade que, ao perder o sentido do cuidado,
mergulhou num vazio onde cada manhã pesa mais que a noite. E talvez a
verdadeira revolução seja, hoje, acordar e encontrar — no outro — um espelho da
nossa própria dor. E,
quem sabe, da nossa salvação.

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