Podia ter escrito isto sem dizer que são indianos? Podia. Mas...para muitos, esse detalhe faz toda a diferença.

 


"SÃO INDIANOS. Têm um restaurante em Oliveira do Hospital.

No meio de tanto sofrimento, decidiram estar onde mais faziam falta: a combater o incêndio e a oferecer refeições a quem precisava.

Podia ter escrito isto sem dizer que são indianos? Podia.

Mas seria injusto. Porque, para muitos, esse detalhe faz toda a diferença.

Hoje, mais do que nunca, é preciso lembrar: a solidariedade não tem nacionalidade.”

(Tondela Blog)

 

Vivemos tempos conturbados, vivemos o reviver da discriminação, é, no entanto, uma discriminação diferente, porque estes discriminados ao contrário dos anteriores tem proteção legal, a lei mudou, felizmente, mas parece que as mentalidades apodreceram repentinamente, e existe uma vontade, para mim inexplicável, de retroceder, mudando a lei, e espezinhando a vida destes e a memória de todos os que se empenharam em construir um mundo novo, aquele em que vivemos hoje.

O mundo tem tudo para dar certo, apenas tem um único problema, a meu ver, é habitado por uns animais que se autodenominaram como sendo “racionais”, mesmo sendo os únicos que devoram recursos sem limite, destruindo tudo no processo, incluindo a si mesmo, sendo que dos outros os chamados de irracionais, nenhum alimenta tal processo, assim só posso concluir que nós, seres humanos somos um erro da natureza.

Porque a imagem se refere a indianos, vou talvez dizer-vos uma coisa que a maioria acredito desconheça. Um indiano de castas inferiores, na Índia nunca será visto como igual por castas superiores, mesmo que se vista de ouro. Um indiano de castas inferiores que consegue sair do seu país, e digo conseguir porque precisa de recursos para viajar, fá-lo para alcançar uma vida melhor, uma melhor condição de vida, e tantas e tantas vezes, para alimentar à distância a sua família que ficou para trás. Outras culturas, outras formas de estar em sociedade, outras formas de viver a sociedade.

Os imigrantes NUNCA foram ou são o problema, aliás eles representam parte da solução, temos hoje uma Segurança Social mais firme, graças às contribuições destas pessoas, contudo essas são as mesmas pessoas que servem de “bode expiatório” em corridas políticas nojentas, lamacentas, vergonhosas para quem vê de fora, porque quem está dentro já perdeu a vergonha faz tempo.

Bruno Nogueira escreveu um texto sobre a vergonha alheia, tendo focado o que Ricardo Salgado representa, nesta mer*** de sociedade. Ele é o arquétipo da falência da democracia, da (in)justiça, do sistema como um todo, e nós, meros mortais nesta sopa dos pobres, limitamo-nos ora a encolher os ombros, ora a desfiar teses de café, sobre o que devia e não devia ser feito, sobre quem tem ou não razão, sobre alegados messias políticos que dizem ter a solução para todos os males, sendo eles mesmos o mal personificado em furtos, falsos testemunhos, abusos sexuais.

Recordo que quando foram abolidas as fronteiras europeias, eu, pessoalmente, fiquei num êxtase, se não estou em erro, pouco depois fomos dar uma voltinha a Espanha de propósito para sentir que entre este mundo tuga, e o mundo olé do outro lado, o que nos separava não era mais uma farda, mas antes uma língua que para mim nem me era de todo estranha.

Da mesma forma recordo de ter discutido com um PSP numa operação stop sobre um incidente havido semanas antes. Numa operação stop um condutor não respeitou a ordem de paragem, o PSP disparou e atingiu mortalmente o condutor que resulta era um raper. O PSP que me fez parar, disse que o colega usou de força excessiva, e eu respondi que devia imaginar que aquele condutor em vez de ser um raper tuga, que se achou acima da ordem, ou não quis ser apanhado talvez com ganza no carro, podia ser um elemento da ETA, como aqueles que foram descobertos no Alentejo, com o carro cheio de explosivos para explodir à porta da escola do filho do PSP na hora do recreio, e ele terá respondido – não podemos pensar assim – e eu retorqui – DEVEMOS pensar assim, porque não mais temos fronteiras, e por isso boas e mas pessoas podem entrar e sair do nosso país sem dar satisfações a ninguém saberemos apenas quando forem apanhados.

Porque recordo isto? Porque embora esteja de acordo com Bruno Nogueira, e subscreva o que escreveu, a verdade é que esta anomalia social, erros sistemáticos do sistema, é como aquele spot publicitário de um brandy – “O sabor que vem de longe” – Ricardo Salgado é mais um atropelo num conjunto de atropelos existentes desde o início da nossa democracia, da “nossa” LIBERDADE, porque quando uma democracia, quando uma LIBERDADE, começa a dizer que somos todos livres exceto …quando temos um, mas, mas estes e aqueles não fazem parte desta festa da LIBERDADE, então estamos a tropeçar desde o ponto de partida.

Os imigrantes só o são porque residem num país que não é o seu de origem, como mais de 10 milhões de imigrantes tugas nos quatro cantos do mundo, se contarmos com a descendência. Nós lá como outros cá, fazemos parte das economias respetivas, fazemos mais que parte de um país, de origem ou de acolhimento, fazemos parte do mundo.

Existem milhares de tugas imigras, que vivem atrás das grades por serem bons rapazes nos países que os acolheram, e com isto o que quero dizer é que, claro que há bons e maus seres humanos em todo o lado, imigrantes ou não. Não é a condição de imigrante que o faz ser mau ser humano, mas antes o fato de ser um ser humano, alheio ás regras sociais, alheio ás regras do país que o acolheu, aqui e lá fora – não a cor da pele, a etnia, a religião, ou qualquer outro fator que deve ser perseguido, mas antes o seu comportamento, por cá como lá existem regras, o problema destas regras como satirizou o texto de Bruno Nogueira, é que elas parecem não ser as mesmas para um Ricardo Salgado e para um imigra venha ele de onde vier.

Transformando uma frase que a mim me toca em particular numa outra construção  -  espero percebam que só juntos fazemos sentido, não tem outra forma de pintar este quadro social, a menos que o queiramos pintar de preto.

 

- Quando o azul e o amarelo se juntaram para fazer o verde, eu não liguei  -  quando o vermelho e o branco se juntaram para fazer rosa, eu não liguei  -  quando o vermelho e o azul de juntaram para fazer castanho, eu não liguei, e assim segui não ligando, até sobrar eu e assim pintei o mundo de preto, apenas!


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