Quanto custam os incêndios? O valor de não fazermos nada!
A questão dos incêndios, não pode, não deve ser pensada, debatida, encarada de animo leve, com displicência, tão pouco apenas porque faz parte de uma qualquer agenda política ou social. Os fogos devoram tudo pelo caminho, não discriminam, não respondem a agendas, vontades, ideologias, crendices, ou politiquices, o fogo é o fogo, em todo o seu esplendor tendo tando de beleza e fascínio como de mortal e devastador.
O
que me trás aqui a falar deste tema tão sensível, foi um posto de uma amiga
facebookeana relativo a um comentário de uma jornalista, que de tão ridículo eu
comentei o post favoravelmente ao que ele revelava sobre essa alegada sabedoria
saloia dessa jornalista, e no meu comentário disse, “Um dia escrevo a minha
visão sobre este tema”, e aqui estou eu depois de andar a investigar algumas
coisas, e mesmo depois de ter averiguado diferentes cenários, continuo a dizer
que se trata de um tema demasiado sensível para ser tratado com leveza –
adianto que este texto é apenas e só uma opinião com base e alguns dados que encontrei,
mas sempre uma opinião, e isso eu tenho direito a ter.
Então,
todos os anos debatemos as mesmas coisas, o que arde, porque arde, quem faz
arder. Todos os anos temos uma estante de opiniões, dedos apontados, teorias da
conspiração, e por aí vai. Note-se que faz mais ou menos seis anos que não vejo
televisão nacional e por isso longe das notícias, ou noticiários, o que vou
sabendo é pelo feed das redes sociais, e ou porque o marido partilha comigo
esta ou aquela notícia, principalmente quando se deixa escandalizar com o teor
das mesmas.
2017
foi sem dúvida o ano, o ano de toda a desgraça, o ano que teve como catalisador
de toda esta precessão da realidade as mortes de Pedrógão Grande, que decerto
afeta até hoje as famílias, mas também os militares que crentes de que aquele
seria o caminho de todas as fugas, acabou por representar os números mais
negros da nossa história relativa aos incêndios. Seria interessante algum
jornalista procurar esses militares e conhecer a sua saúde mental, aquela que
lhes sobrou desde esse fatídico dia.
Segundo
os dados recolhidos, a esmagadora maioria dos incêndios em Portugal tem origem
humana, mas essencialmente por negligência, muito mais que por fogo posto, os
dados falam de entre 50 a 60% por negligência, e o restante por fogo posto, o
problema deste último número é que os fogos postos são responsáveis por 40 a
50% da área ardida.
Depois
o que transforma muitas destas ignições em catástrofes é a combinação de vários
fatores, sendo que alguns se tem vindo a agravar mundialmente.
Ondas
de calor e seca, somam-se com acumulação de massa combustível, umas por corte e
acumulação, outras por abandono rural, outras ainda relativas à fragmentação
fundiária, juntos estes fatores e se calhar outros que me possam ter escapado,
aliados à topografia do terreno são por vezes elementos fundamentais para dar
aso à negligencia de uns e a atos criminosos de outros.
Em
Portugal entre 1980 e 2018 ardeu quase 3 milhões(M) de hectares (ha).
Em
2003 e 2005 deram-se picos históricos acompanhados de condições extremas.
Para
2017 se apresentar como um ano de todos os lutos, excessos, lamentos, e perdas
as todos os níveis, com mais de 442 mil/ha.
E
não aprendemos, o que não representa uma novidade, afinal ninguém aprendeu com
a 2ª Grande Guerra, não é mesmo!? Não poderíamos estar à espera de que tivéssemos
aprendido o que quer que fosse com os números pesados dos anos anteriores, e
assim e segundo a EFFIS estima-se que até agosto do corrente ano, já tenha
ardido cerca de 216 mil/há. Em 2017 tivemos um peso económico, pelo menos
relativo aos valores segurados, de 230M€, sendo que este valor não contempla o
restante prejuízo sem seguro, nem as vidas humanas e animais, da agricultura de
sobrevivência, ou as produções caseiras, que representavam complementos à subsistência
dessas famílias.
Este
ano já se estima que o peso económico de 2025 relativo aos fogos, seja de 2,3
mil/M€.
Hernani Carvalho
ainda de quando eu via televisão já falava de uma “indústria do fogo”, e tanto
quanto me é dado a conhecer ele mantem esse discurso, e por isso fui averiguar
se a alegada indústria era por exemplo a do processamento de madeiras e pasta
de papel, e sobre esta matéria não encontrei nada, encontrei aliás problemas no
escoamento de madeira queimada, encontrei mesmo um ano que o governo quis
financiar esse escoamento e não teve grande sucesso, porque segundo o que li, o
processamento dessa madeira queimada é para essas empresas mais dispendioso,
exigindo procedimentos específicos que resultam numa perda de capital.
Mas
encontrei suspeitas, e investigações em curso, novas e antigas, relativas a
contratos entre o governo e as empresas com aviação dedicada ao combate a incêndios.
Os textos que encontrei, exploravam a possibilidade de haver contratações por
ajuste direto, ou por ligações entre os governantes e os responsáveis por essas
empresas. Sendo que existe processos de investigação em curso, sobre essas
suspeitas, não me vou alongar mais, mas a certa altura perguntei-me a mim
mesmo, então porque é que Portugal não dentro da nossa Força Aérea uma das
melhores do mundo, um setor, espaço, entidade, com aviões próprios os tão
conhecidos Canadair ou outros indicados para o efeito!?
Fiquei
então a saber que Espanha e Itália, por exemplo tem uma força aérea de combate
a incêndios própria, uma força que intervém no imediato, e que só contratam
quando as condições, o cenário presente, requer mais que aquilo que o governo tem
para combater os incêndios.
Seja,
os relatórios que observei e noticias, falavam de que ter uma frota pequena que
seja de dois aviões e dois helicópteros é um investimento muito dispendioso, e
que a sua manutenção elevaria os custos. A UE apresentou um pacote de 600M para
a aquisição de meios aéreos (12 unidades) para 6 países, seja seria algo como
dois meios por país. Se investíssemos mais 100M em mais dois ficaríamos com 4
meios aéreos – teríamos de ver os mais indicados segundo a sua eficácia – sendo
que foi teriam sido financiados pela UE e dois pelo nosso governo. Mas dirão os
economistas de café – há mais onde investir o nosso dinheiro – claro que há,
afinal gastam-se milhões em coisas que vocês nem imaginam como conferencias,
corridas de carros, e outros eventos, que servem apenas um grupo específico de privilegiados,
não o povo como um todo. Depois perdemos pelo fogo e com contratações mais do
triplo desses 100M.
-
Mas JP tem os custos com manutenção dessas aeronaves!
Pois
tem, mas se elas estiverem alocadas à nossa Força Aérea, esta dispõe de
oficinas e excelentes mecânicos(as) aeronáuticos capazes de manter os bichinhos
num brinco, sendo que mesmo assim representam despesa, mas tudo junto fica mais
barato que estes contratos e perdas milionárias, o custo benefício a meu ver é
positivo.
Termos
a exemplo de Espanha uma frota pública nacional permanente traria a Portugal soberania
sobre esta matéria, estabilidade nos custos, e uma coordenação direta. Uma frota
que poderia estar vocacionada para o combate a incêndios e intervenção de busca
e salvamento, em diferentes cenários, uma força que poderia ser a meu ver
militar ou paramilitar.
Países
com frota própria (Espanha/Itália) absorvem custos fixos todo o ano, compensando
com treino, disponibilidade imediata e menos dependência e exposição a falhas
de mercado/recursos. Obtermos entre 6 a 8 unidades de combate aéreo custaria
entre 300M e 440M só com a aquisição, mas se olharmos que em 2023 perdemos 483M
no total, será que não vale mesmo a pena termos uma frota própria? Será que
seremos nós os espertinhos do restelo e que Espanha, Itália e França são os “minions”
da europa?
Seja,
pelos vistos há dinheiro para termos uma frota própria, da mesma forma que há
para custear contratações suspeitas, mas para que a nossa frota tenha sucesso,
e o país deixe de ter uma “season” para incêndios, e que até possa ter, mas
controlada, contida.
Mas
para isso outros fatores precisam ser acautelados, entre voluntariado e
contratado podemos ter um season sim, mas de trabalho, de observação da
floresta.
Temos
entre o Corpo Nacional de Escutas (CNE) e a Associação dos Escoteiros de
Portugal (AEP). Juntas, elas contabilizam cerca de 80
mil escuteiros, entre jovens e adultos, que nestes três meses podem desenvolver
atividades várias, integrando nelas a vigilância da floresta nacional. Aleado a
isso devíamos ter em permanência guardas-florestais como já tivemos, que por exemplo
a cavalo, podem fazer patrulhas constantes de diferentes áreas florestais - ter
postos de observação, torres equipadas com condições de habitabilidade,
observação e comunicação. As tecnologias podem dar uma grande ajuda, com drones
manuseáveis, drones equipados para detectar pontos de fogo, assinalar e reportar
em tempo real, a sua localização exata, permitindo uma ação pronta que evitaria
a propagação, e que ao mesmo tempo com câmaras de alta definição podem no caso fotografar
o individuo ou indivíduos presentes, para posterior identificação, investigação
e caso se verifique, a condenação.
Com
torres de observação, operacionais permanentes, e escuteiros, aliado a
aberturas de estradões, controle de vegetação, apoio físico às populações na
limpeza de aéreas críticas, e outras ações necessárias, teremos um Portugal menos
queimado e mais verde.
Se
não olharmos estas coisas com frieza, com estratégia, e com planeamento sério,
as alterações climáticas estão aí e encarregar-se-ão de nos queimar a todos com
a nossa passividade e ignorância.
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