Palestina, Israel e a Memória da Humanidade

 

(imagem by: X ) 
Legenda: Nem o diabo aguenta mais tirar as manchas de sangue, e costurar os rasgos na bandeira de Israel.

Palestina, Israel e a Memória da Humanidade

Houve um tempo em que as terras da Palestina eram habitadas em relativa harmonia por diferentes povos: muçulmanos, cristãos e judeus. Ali, ao longo de séculos, comunidades partilhavam mercados, festividades e tradições, vivendo sob diferentes administrações, mas mantendo laços culturais e sociais. Judeus sefarditas e mizrahis, vindos de regiões árabes e mediterrânicas, encontraram no convívio com vizinhos palestinos um espaço de pertença. O tecido social, embora marcado por tensões como em qualquer outra região do mundo, não era de ódio generalizado, mas de coexistência.

O século XX trouxe, porém, um trauma profundo para o povo judeu. Durante a 2ª Guerra Mundial, o regime nazi de Hitler orquestrou o Holocausto — um extermínio sistemático e industrializado que vitimou seis milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais, pessoas com deficiência, comunistas e outros grupos perseguidos. Foi a mais sombria expressão da brutalidade humana: guetos, deportações, câmaras de gás, fornos crematórios. Essa ferida tornou-se um marco incontornável da memória coletiva.


Não esqueci no entanto, o rei Leopoldo II da Bélgica (1835-1909) ficou tristemente célebre pela exploração brutal do Estado Livre do Congo, que governou como sua propriedade pessoal entre 1885 e 1908. Sob o pretexto de levar “civilização” e combater o tráfico árabe de escravos, instituiu um regime de trabalho forçado centrado na extração de borracha e marfim, em que aldeias inteiras eram obrigadas a cumprir quotas impossíveis. As punições incluíam mutilações, assassinatos, destruição de comunidades e tomada de reféns, incluindo mulheres e crianças. Estima-se que, nesse período, tenham morrido entre 8 e 10 milhões de congoleses, cerca de metade da população do território, vítimas diretas da violência, da fome e das doenças resultantes do sistema opressivo. Este episódio é hoje reconhecido como uma das mais graves atrocidades coloniais da era moderna. 


Da dor nasceu a urgência, no seio do movimento sionista, de construir um Estado judeu soberano, que protegesse seu povo de futuras perseguições. Em 1948, após o fim do mandato britânico e sob respaldo da ONU, proclamou-se o Estado de Israel. Mas a criação desse Estado significou também a Nakba (“catástrofe” em árabe) para os palestinos: cerca de 750 mil pessoas foram expulsas ou forçadas a fugir das suas terras, aldeias foram destruídas, famílias separadas. O que para uns era redenção, para outros era início de uma tragédia nacional.


Com o passar das décadas, a ocupação, os assentamentos ilegais em território palestino, o bloqueio da Faixa de Gaza e a exploração desigual dos recursos naturais, como a água, agravaram a opressão. Israel controla a quase totalidade dos aquíferos e rios da região. Desde os anos 1960, e mais fortemente após a ocupação de 1967, restringe o acesso palestino às águas do Rio Jordão e dos lençóis freáticos, destinando a maior parte do recurso vital às suas cidades e colônias, enquanto Gaza sofre com falta crônica de água potável. O direito humano à água — condição básica de vida — é negado a milhões de palestinos, enquanto Israel a utiliza como instrumento de dominação.

As restrições políticas e os bloqueios dificultam a construção de infraestruturas de dessalinização ou reparação de sistemas de esgoto e canalização.

A ONU considera a crise da água em Gaza uma emergência humanitária: mais de 90% da água da torneira não é potável. (sendo que na atualidade nem torneira há)


Nesse contexto de opressão e ausência de perspectivas, emergiu na década de 1980 o Hamas, um movimento islamista que se transformou em força política e militar. Mas é essencial não confundir o Hamas com o povo palestino. A grande maioria das famílias em Gaza e na Cisjordânia deseja apenas viver com dignidade, trabalhar, criar seus filhos em paz. Reduzir a causa palestina a “terrorismo” é um erro cruel, que serve apenas para justificar a violência de Estado que atinge civis inocentes.

Hoje, assistimos a uma repetição trágica da história. O povo judeu, que foi vítima de um genocídio inimaginável, comporta-se como carrasco diante de outro povo. É como se o trauma do Holocausto tivesse gerado, em setores da sociedade e do governo de Israel, um reflexo perverso — algo próximo ao chamado “síndrome de Estocolmo”: reproduz-se a lógica da opressão sofrida, mas agora sobre outros. Não se trata de negar o direito de Israel existir, mas de denunciar que esse direito não pode ser exercido às custas do direito de outro povo existir.

O massacre em Gaza, os bombardeios que atingem escolas, hospitais e campos de refugiados, não podem ser justificados como “defesa contra o Hamas”. Israel, com uma das forças armadas mais sofisticadas do mundo, teria capacidade de combater grupos armados de forma precisa, cirúrgica. Mas o que vemos é a escolha deliberada por um castigo coletivo: punir um povo inteiro por existir. Isso não é segurança, não é justiça, não é sobrevivência. É genocídio.

A comunidade internacional, ao permanecer calada é também cúmplice, envergonha-se diante da memória do Holocausto que jurou nunca esquecer. “Nunca mais” não pode significar apenas para uns. “Nunca mais” deve ser universal. Apoiar cegamente Israel em suas ações militares, confundindo críticas legítimas à sua política com antissemitismo, é distorcer a história e ofender tanto os mortos judeus, como a memória dos ainda sobrevivos do Holocausto, quanto os vivos palestinos de hoje.

Que os que ainda defendem a violência e a ocupação olhem-se ao espelho da história. O que era para ser a redenção de um povo tornou-se, para outro, a continuação do sofrimento. Israel, que nasceu da dor, precisa reconhecer a dor que inflige. Até lá, o mundo que tem consciência só pode sentir vergonha por assistir calado ao replicar da história.

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