Sou um abismo de histórias nem todas felizes!
Sou um abismo de histórias nem todas felizes!
Desde
sempre amei escutar histórias, histórias de vida, de pessoas reais, de vidas
reais que se vivem não ao sabor do relógio, mas ao sabor dos incomes de cada
um, de trabalhos demasiadas vezes precários, sobe o jugo abusivo de patrões sem
escrúpulos, debaixo de tetos premiáveis às histórias alheias, que saturam a as
suas uma e outra vez de mensagens que os rebaixam mais que os elevam.
Durante
pouco mais de um ano fiz rádio, na Rádio Manobras, um programa intitulado “Também
Somos Gente” onde essas gentes me contaram as suas histórias de ativismo, de
luta diárias com as dificuldades que a doença, que a falta de dinheiro, que as
rendas ensurdecedoras, que as paredes de papel, que os transportes cheios, que
o desconhecimento de como será o dia de amanhã carregam para o corre, corre,
desenfreado de quem desespera por sobreviver.
Mas
eu sou um bom ouvinte, pelo menos assim acho, mesmo fora do papel de
radialista, foi alias esse meu jeito que me levou ao desafio de fazer rádio, e
como gostei, tenho saudades, adoraria lá voltar. E foi nesse papel de pessoa,
fora de uma estação de rádio que este final de semana, escutei mais uma dessas
histórias de sobrevivência, um sobrevivo a uma pandemia que surpreendeu a
todos, mas que deixou as suas marcas, e desta não foram as vacinas do covid que
deixaram mazelas, foi mesmo todo um tecido económico que paralisou, com danos
mais acentuados para quem vive sem um contrato, pendurado num livre de recibos
chamados verdes, mas que deviam ser vermelhos para estarem mais próximos do
sangue, suor e lágrimas que é sustentar esse sistema perverso que de inovador, agilizador
do emprego, promoção da inovação nada tem, é apenas o Estado a fazer o papel de
“siozinho”, que transforma o tronco em recibos, como disse chamados verdes.
Foi
uma história de quem sobreviveu a um divórcio onde o protagonista desempenha
mais que o papel de ex-marido, o papel de ladrão, de agressor sem nodoas
negras, mas de feridas profundas, mais uma história onde o vaso lacrimal já não
brota, está seco, de tanto verter um cristal de sofrimento depois do outro.
Sou
um abismo sem fundo, as tuas histórias comigo estão guardadas a sete chaves e
com um calhau na frente, mas o vosso sentimento, seja ele de alegria, de luta e
ou sofrimento reside em mim, a partir do momento que partilhas comigo o teu
suspiro, a tua golfada de ar, profunda, de quem liberta um peso que embora se
mantenha, parece ficar mais leve na partilha – é a partir desse momento que os
meus espíritos se reúnem em volta de ti, e juntos faremos o que estiver ao
alcance para que amanhã acordes com um sorriso, e possamos transformar essas
lágrimas em alegria.
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