The Glue From Gaza, whit Love!
The Glue From Gaza, whit Love!
Este texto traz duas coisas que a mim me tocam severamente,
diria que me esventram em todas as formas do meu ser – uma a luta que é mais
arreigada numas geografias que outras, porque a sua história assim o impõe, a
outra surge ao visionar AMOR com letra incomensurável grande, maior que os
Himalaias em busca da paz, da dignidade, da sobrevivência.
É uma tese que defendo há anos, de que povos que têm na sua
história guerras e ou revoluções severas, longas, com demasiado sangue, tendem
a ser mais aguerridos nas suas reivindicações que os demais, e esta massa
histórica diria eu, que se move um pouco por toda a Europa na luta pelo fim do
genocídio que se vive em Gaza perpetrado por Israel, é a prova disso mesmo, um
laboratório a céu aberto. Como escreveu Frantz Fanon, “cada geração deve, na
relativa opacidade da sua época, descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la”
— e talvez esta geração esteja a descobrir que a sua missão é gritar contra a
repetição da barbárie.
Vejamos os números de pessoas que no Porto, Lisboa, Viseu e
outras cidades saíram à rua para gritar LIBERDADE para o povo palestino e
aqueles que hoje estão detidos por Israel porque ousaram gritar essa LIBERDADE
de perto, demasiado perto para o conforto de Israel.
Depois vejamos uma Itália que mobilizou mais de um milhão de pessoas para as
ruas, numa reivindicação, numa luta que dura já há alguns dias. Vejamos depois
os milhares e milhares que se movimentam até no Japão, ou nos estádios de
futebol, o mundo parece despertar, e perceber de uma vez por todas que juntos
somos mais fortes em nome da paz, pelo fim do genocídio. É a tal “força dos
fracos”, como lembrava Václav Havel, a capacidade de resistir sem armas, apenas
com a verdade nua e a solidariedade viva.
Em Itália, terreno devastado pela Segunda Grande Guerra,
mais de 2 milhões em todo o país saíram à rua, sindicatos convocaram os seus
associados e não só a virem para as ruas clamar pelo fim da guerra e do
genocídio que Gaza está a ser vítima – ao mesmo tempo em Portugal as pessoas
ainda muito longe dos dois milhões de Itália, só agora despertaram perante a
detenção de elementos portugueses que seguiam na embarcação que fazia parte do
grupo que se dirigiu para Gaza. Quando foi que algum de nós imaginou que a
China lutaria pelo fim deste flagelo, e tivesse intimidado Israel avisando que
uma aeronave sua passaria o seu espaço aéreo para deixar ajuda humanitária em
Gaza. Penso que nenhum de nós, nos seus sonhos mais selvagens, pensou isto
algum dia acontecer. Mas como lembra Edward Said, “a solidariedade não é um
luxo, é uma necessidade política e moral no nosso mundo interdependente”.
Entre muitas teorias que podemos explorar sobre esta
cegueira com que Netanyahu bombardeia, aniquila uma região, eu exploro a ideia
de que o primeiro-ministro israelita sofre de um processo tardio de um síndrome
de identificação com o agressor, que na sua história social terá sido o
nazismo, e que agora ele, Netanyahu, reproduz sobre os outros violências
idênticas, verdade que à distância, sobre terceiros. E porque digo eu
idênticas, e que já não poderão ser apontadas apenas a Netanyahu, mas à
história de Israel.
O extermínio, a opressão sobre o povo de Gaza, sobre o povo palestino, tem
décadas de existência, vem desde 1967, uma vez que Israel conseguiu que fosse
proibido que em Gaza, na Cisjordânia, quem quer que seja faça um furo para
alcançar água, ou qualquer outra estrutura de recolha dessa água, sobre o rio
Jordão – o que estamos hoje a assistir é apenas mais visível, mata mais
rapidamente, faz mais barulho, porque na verdade o extermínio está em curso
pelo menos há mais de meio século. Hannah Arendt alertava que “o problema
com o mal é a sua banalidade”, e talvez seja isso mesmo: uma rotina de
extermínio que o mundo vai tolerando até que gritos globais o tornem impossível
de ignorar.
São ainda idênticas porque tal como aqueles que encheram os
campos de concentração nazis, também Netanyahu para além das bombas, mata
crianças e adultos à fome.
Perante todo este cenário, uma coisa temos, penso, de nos
congratular, mesmo que lamentando o fato. O povo um pouco por todo o mundo
clama pelo fim da guerra, do genocídio, clama contra ideologias neonazis,
contra a opressão, e são aos milhões por todo o mundo.
Nunca nenhuma guerra fez sentido, mas em pleno século XXI, com uma história
mundial preenchida de exemplos a não seguir, devíamos estar mais envolvidos com
outras prioridades, porque quando temos:
- Mais
de 300 milhões de sem-abrigo no mundo!
- Mais
de 600 milhões passam fome!
- Entre
200 a 500 milhões de pessoas vivem com 2 dólares por dia!
- Mais
de 4 mil milhões não têm acesso a cuidados de saúde básicos!
- Um
em cada cinco idosos vive só, em profunda solidão!
Um desequilibrado, já temos poucos, decide anular toda uma
existência, sabe-se lá em nome do quê, quando devíamos estar a investir tempo e
recursos materiais para resolver estas carências e outras que aqui não enumero.
Amartya Sen já tinha escrito que “a liberdade política e social não pode ser
separada da liberdade de não passar fome ou de não morrer de doença evitável” —
mas o mundo parece esquecer esta prioridade elementar.
ENG:
The Glue From Gaza, whit Love!
This text brings two things that touch me profoundly, I would say they tear me apart in every form of my being – one is the struggle that is more deeply rooted in some geographies than others, because their history demands it, the other arises when envisioning LOVE with an immeasurably large capital letter, greater than the Himalayas, in pursuit of peace, dignity, and survival.
It is a thesis I have defended for years: that peoples whose history is marked by severe, long wars or revolutions, with too much blood, tend to be more resolute in their demands than others, and this historical mass, I would say, which moves across Europe in the struggle to end the genocide in Gaza perpetrated by Israel, is proof of that, an open-air laboratory. As Frantz Fanon wrote, “each generation must, in the relative opacity of its epoch, discover its mission, fulfill it, or betray it” — and perhaps this generation is discovering that its mission is to shout against the repetition of barbarity.
Let us look at the numbers of people who in Porto, Lisbon, Viseu, and other cities took to the streets to shout FREEDOM for the Palestinian people and those who are today detained by Israel because they dared to shout that FREEDOM up close, too close for Israel’s comfort.
Then let us see Italy, which mobilized more than a million people into the streets, in a claim, in a struggle that has already lasted several days. Then let us see the thousands and thousands moving even in Japan, or in football stadiums — the world seems to be waking up and realizing once and for all that together we are stronger in the name of peace, for the end of genocide. This is the so-called “strength of the weak,” as Václav Havel reminded us, the capacity to resist without weapons, only with naked truth and living solidarity.
In Italy, a land devastated by the Second World War, more than 2 million across the country took to the streets; unions summoned their members and others to come out and call for an end to the war and the genocide that Gaza is suffering — at the same time, in Portugal, people, still far from Italy’s two million, have only now awakened in response to the detention of Portuguese activists who were on the vessel that was part of the group heading to Gaza. When did any of us imagine that China would fight to end this scourge and intimidate Israel by warning that one of its aircraft would pass through its airspace to deliver humanitarian aid to Gaza? I think none of us, even in our wildest dreams, ever imagined this happening. But as Edward Said reminds us, “solidarity is not a luxury, it is a political and moral necessity in our interdependent world.”
Among the many theories we can explore about this blindness with which Netanyahu bombs and annihilates a region, I explore the idea that the Israeli Prime Minister suffers from a late process of the syndrome of identification with the aggressor, which in his social history may have been Nazism, and that now he, Netanyahu, reproduces identical acts of violence, admittedly at a distance, against others. And when I say identical, these cannot be attributed solely to Netanyahu, but to the history of Israel.
The extermination, the oppression of the people of Gaza, of the Palestinian people, has existed for decades, going back to 1967, when Israel managed to prohibit anyone in Gaza or the West Bank from drilling to access water, or any other infrastructure to collect water from the Jordan River — what we are witnessing today is only more visible, kills faster, makes more noise, because in reality the extermination has been ongoing for at least half a century. Hannah Arendt warned that “the problem with evil is its banality,” and perhaps that is exactly it: a routine of extermination that the world tolerates until global cries make it impossible to ignore.
They are also identical because, just as those who filled the Nazi concentration camps, Netanyahu, beyond the bombs, starves children and adults alike.
Faced with this entire scenario, one thing we must congratulate ourselves on, even if reluctantly, is that people all over the world are shouting for an end to war, to genocide, shouting against neo-Nazi ideologies, against oppression, and they are millions worldwide.
No war has ever made sense, but in the 21st century, with a world history filled with examples not to follow, we should be more focused on other priorities, because when we have:
-
More than 300 million homeless people worldwide!
-
More than 600 million people going hungry!
-
Between 200 and 500 million people living on 2 dollars a day!
-
More than 4 billion without access to basic health care!
-
One in five elderly people living alone, in profound solitude!
A deranged individual — of whom there are already few — decides to annihilate an entire existence, for who knows what reason, when we should be investing time and material resources to address these deficiencies and others that I do not enumerate here. Amartya Sen had already written that “political and social freedom cannot be separated from the freedom from hunger or from preventable disease” — yet the world seems to forget this fundamental priority.
I return to say that the silver lining of this scourge is its capacity to awaken people all over the world to fight for PEACE. And as Martin Luther King Jr. wrote, “true peace is not merely the absence of war, but the presence of justice.”
Dói tanto ler tanta verdade e tanta atrocidade...assim como revolta,ouvir alguns engravatados que têm o futuro assegurado (?) criticar 🤬🤬🤬🤬🤬🤬🤬🤬🤬🤬🤬🤬🤬e julgar tantos que lutam para que os direitos de outros (e nossos) sejam reconhecidos e tudo em nome da LIBERDADE a que todos deveríamos ter direito ...
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