Quando a criancice, nos é roubada pelo "chão" que pisamos!
Nunca entendi porque uma vítima tem menos direitos que um alegado criminoso!?
Hoje
passou na TV algures num dos muitos canais, o filme sobre o trabalho do jornal “The
Boston Globe” sobre os abusos sexuais “havidos” entre os anos 60 e pelo menos
2002, data em que saiu a grande reportagem.
Por
vezes penso que os astros alinham-se de tal forma que parece haver sequencias
de assunto, mesmo que as noticias sejam distintas, depois da noticia da
violação por um grupo de bombeiros, hoje o filme sobre os abusos em Boston, e
se ontem me sentia com asco, hoje não consegui curar essa sensação, a noticia e
a interpretação do nosso “Hulk” (Mark Ruffalo), em determinada cena arranca-nos
do sofá, talvez porque o assunto me incomoda seriamente, pareceu que o
desencarnei enquanto observava a raiva dele por o artigo não ser publicado
quando ele achava ser o momento.
Não
citarei nomes, até porque o meu compromisso é e sempre será com quem me confia as
suas dores, sejam elas quais forem, mesmo assim vou contar-vos uma parte de
quem são os violadores.
Conheci
alguns anos atrás um jovem, morava perto de mim, e confesso que nem recordo
como nos aproximamos, isto porque ele tinha fobia às pessoas, em especial a
homens mais velhos, porquê?
Ele
durante anos, sim anos, foi violado pelo irmão mais velho, sendo que isso teve
implicações graves na sua vida, no seu dia-a-dia. Este jovem comprou um carro
mesmo odiando conduzir, porque os transportes públicos lhe faziam confusão,
porque neles circulavam pessoas, e isso assustava-o. Quando nos conhecemos
tentei integrá-lo no mundo LGBT+ porque ele mesmo se identificou como uma
pessoa homossexual, mas o terror era tanto que nunca saímos do carro, passávamos
à porta dos sítios, eu dizia como eram por dentro, o tipo de ambiente, e seguíamos
viagem para qualquer sítio.
Houve
um dia em que ele abriu-se e contou todos os seus medos, de onde eles vinham, e
o quanto o atormentavam. Um jovem homem de vinte e poucos anos, que já não
dormia mais com o irmão fazia anos, mas as marcas estavam tão vivas, tão carne
viva como antes, como em cada uma das noites que foi esmagado contra a parede
por um medíocre desequilibrado, violento, agressor, que se dava o caso de ser
seu irmão e que a pobreza os colocava a dormir na mesma cama.
Violar
alguém é na minha interpretação do evento o mesmo que disparar uma bala na
cervical, deixando-nos presos para o resto da vida uns numa cadeira de rodas,
aqueles que conseguem mesmo sentindo as dores seguir em frente, com todas a
limitações que uma cadeira de rodas nos oferece, outros ficam agarrados a uma
cama, para não mais levantar, essa é consequência das vitimas de violação, uns
seguem em frente mesmo sangrando todos os dias, outros ficam encerrados numa
bolha de sofrimento constante, e no limite procuram a morte, como aliás muitas
das vitimas das violações de Boston, tanto que aqueles que prestaram testemunho
para a noticia e depois nos tribunais, se autodenominavam de “sobreviventes”.
É
isso que é uma violação, uma bala que vai matando, lentamente, persistentemente
numa dor estridente que demasiadas vezes apenas e só a vítima sente.
Nós
temos a nossa cota parte (conhecida) de abusos na igreja, mas em Boston foram
conhecidas pelo menos 17.000 vítimas reclamando abusos por parte de
clérigos entre 1950 e 2013, num levantamento de 2018 – outro relatório
referente a (2022–2023), indicou 1.308 denúncias, feitas por 1.254
vítimas/sobreviventes. – já no período de 1 de Julho de 2023 a 30 de
Junho de 2024, foram reportadas 902 denúncias de abuso sexual
infantil por clérigos, vindas de 855 vítimas/sobreviventes. – mas internacionalmente
a estimativa é de centenas de milhar, e basta pensar nos crimes da Irlanda.
Andamos
a criar “Jockers” faz demasiado tempo!
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