A Civilização que Sabia: a Herança Tóxica do Século XX
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a humanidade entrou num período de transformação sem precedentes. A reconstrução da Europa, a expansão industrial dos Estados Unidos e, mais tarde, a globalização económica criaram aquilo a que se chama de “Grande Aceleração”. A tecnologia passou a moldar todos os aspetos da vida humana: dos eletrodomésticos às grandes indústrias, da agricultura à mobilidade, da produção de energia ao consumo em massa. O progresso parecia ilimitado e, durante décadas, acreditou-se que a natureza seria sempre capaz de acompanhar esse ritmo, e se tem coisa que devíamos saber, e eu ouvi logo nas primeiras aulas de economia, é que os recursos são limitados.
No entanto, esse desenvolvimento
assentou quase exclusivamente na exploração intensiva dos recursos naturais, em
especial dos combustíveis fósseis, da água doce, dos solos férteis e das
florestas. Como sintetiza o Painel Intergovernamental sobre Alterações
Climáticas (IPCC), “a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e os
continentes de forma inequívoca”. Pela primeira vez na história, uma única
espécie tornou-se uma força geológica capaz de alterar o funcionamento do
planeta.
O problema não foi apenas retirar
recursos, mas também o que se fez com eles. O processamento industrial libertou
grandes quantidades de dióxido de carbono, metano e outros gases com efeito de
estufa, ao mesmo tempo que poluiu rios, solos e oceanos. Durante décadas, esses
impactos foram tratados como danos colaterais aceitáveis. Hoje sabemos que não foi
o colateral do progresso, mas o calvário para a morte do planeta, ou do nosso
modo de vida como o conhecemos. O aquecimento global, a perda de biodiversidade
e a degradação dos ecossistemas não são fenómenos isolados: fazem parte de uma
crise sistémica.
Entre todos os recursos em risco,
a água potável destaca-se como um dos mais críticos. Apesar de o planeta
parecer abundante em água, apenas uma fração mínima é doce e facilmente
acessível. As alterações climáticas estão a alterar os padrões de precipitação,
provocando secas prolongadas nuns lugares e chuvas extremas noutros. A poluição
industrial e agrícola torna enormes volumes de água impróprios para consumo. A
agricultura intensiva, responsável por cerca de 70% do uso global de água doce,
agrava ainda mais a pressão, e nem falemos nas diversas indústrias que precisam
de água doce para sustentar a sua produção.
Não é por acaso que vários
analistas afirmam que a água será o “ouro do futuro”. Já hoje, a escassez
hídrica afeta centenas de milhões de pessoas e está associada a crises
alimentares, migrações forçadas e conflitos regionais. O sociólogo Zygmunt
Bauman alertava que as desigualdades do século XXI seriam cada vez mais
marcadas pelo acesso a bens essenciais, e a água é talvez o mais fundamental de
todos. Quem não percebeu essa mensagem no filme "007 – Quantum of
Solage"? A questão deixa de ser apenas ambiental e torna-se profundamente ética
e política: será a água um direito humano ou uma mercadoria? Água é vida, e não
faz assim tanto tempo que houve lutas entre estado e privados, uns pela privatização
da água, outros pela preservação desse bem como público.
Paralelamente, o aquecimento do
planeta está a provocar o degelo acelerado de glaciares e do permafrost,
sobretudo nas regiões árticas. Este fenómeno não representa apenas a subida do
nível do mar ou a libertação de grandes quantidades de metano. O permafrost
funciona como um arquivo biológico congelado há milhares de anos, contendo
carcaças de animais, restos orgânicos e micro-organismos antigos. Casos
documentados, como o surto de antraz na Sibéria em 2016, demonstram que o
degelo pode libertar agentes patogénicos adormecidos.
Investigadores já conseguiram
reativar em laboratório vírus com dezenas de milhares de anos, provando que o
congelamento não significa destruição. Embora o risco de uma pandemia global
originada diretamente no permafrost seja considerado baixo a moderado, ele não
é nulo. O verdadeiro perigo reside na combinação entre degelo rápido, maior
presença humana nessas regiões e sistemas de vigilância ainda insuficientes.
Como referem vários epidemiologistas, “a questão não é se surgirão novos riscos
biológicos, mas quando e em que contexto”.
Tudo isto converge para uma
sensação crescente, expressa em muitos relatórios, de que entrámos numa fase em
que certos danos já não podem ser totalmente revertidos. Alguns sistemas
naturais ultrapassaram pontos de inflexão: o degelo de grandes massas de gelo,
a perda de recifes de coral, (Australia’s Great Barrier Reef hit by
record bleaching as oceans warm ; by: Aljazeera) a extinção de
espécies. Mesmo que as emissões cessassem hoje, parte das consequências
continuaria a manifestar-se durante séculos, devido à inércia do sistema
climático.
Ainda assim, os cientistas são
claros num ponto essencial. O IPCC repete insistentemente que “cada décimo de
grau de aquecimento importa”. Não estamos perante uma escolha entre salvação
total e colapso absoluto, mas entre futuros mais ou menos habitáveis. A
diferença entre um mundo 2 °C mais quente e um mundo 3 °C mais quente traduz-se
em milhões de vidas afetadas, ecossistemas preservados ou perdidos, sociedades
estáveis ou permanentemente em crise.
O que está em causa, portanto,
não é apenas um eventual cataclismo natural, mas a forma como as sociedades
humanas respondem a limites que durante muito tempo ignoraram. O sociólogo
Ulrich Beck falava já no final do século XX de uma “sociedade do risco”, em que
os perigos criados pelo próprio progresso passam a dominar o horizonte político
e social. Hoje, essa ideia tornou-se concreta, embora já nos anos 70 era
conhecida, só que…
Já na década de 1970 existia consciência
científica e política clara de que o modelo de crescimento industrial
baseado em combustíveis fósseis e consumo ilimitado conduziria a uma crise
ambiental global. Em 1972, o relatório The Limits to Growth, encomendado
pelo Clube de Roma ao MIT, alertava explicitamente que, mantendo-se as
tendências de crescimento populacional, industrialização, poluição e exploração
de recursos, o sistema global entraria em colapso ao longo do século XXI. No
mesmo período, cientistas da NASA, da NOAA e de universidades norte-americanas
e europeias já descreviam o efeito do dióxido de carbono no aquecimento da
atmosfera com notável precisão. Documentos hoje desclassificados mostram que
grandes empresas petrolíferas, como a Exxon, tinham modelos internos desde
meados dos anos 1970 que previam com exatidão o aumento da temperatura global
e os seus impactos. Apesar disso, essa informação foi deliberadamente
minimizada, desacreditada ou confinada a círculos técnicos, enquanto se
financiavam campanhas públicas de dúvida e atraso político. Como afirmou o
climatólogo James Hansen, um dos primeiros a alertar o Congresso dos EUA, “o
problema não foi a falta de conhecimento, mas a falta de vontade em agir sobre
um conhecimento que ameaçava interesses económicos profundamente instalados”.
Assim, a crise climática atual não resulta de ignorância coletiva, mas de decisões
conscientes de adiar, ocultar ou neutralizar alertas claros, tomadas ao
longo de décadas.
Vivemos num momento histórico em
que o progresso tecnológico revelou o seu lado mais ambíguo: capaz de melhorar
vidas, mas também de comprometer o futuro comum. A crise climática, a escassez
de água, a perda de biodiversidade e os riscos biológicos emergentes não são
problemas separados. São sintomas de uma mesma relação desequilibrada entre a
humanidade e o planeta que a sustenta, uma espécie de relação toxica entre um
homem machista (humanidade) e uma mulher (planeta terra), esposa, que mesmo
criando todas as condições de vida a esse homem, ele a espanca repetidamente,
até lhe tirar a vida.
O futuro ainda não está escrito,
mas já não é um futuro inocente. A questão central deixou de ser se
conseguiremos evitar todas as consequências, e passou a ser até que ponto
seremos capazes de reduzir o sofrimento, proteger os mais vulneráveis e preservar
as condições mínimas para a vida humana, uma vida com dignidade. Como afirmou
um conhecido climatólogo, “a Terra continuará; a dúvida é em que condições
continuará a nossa civilização”.
Assim quando os limites físicos
do planeta forem definitivamente ultrapassados, a crise deixará de ser
ambiental e tornar-se-á civilizacional — uma luta não pela prosperidade, mas
pela simples sobrevivência.
Próxima reflexão: “A Herança Tóxica do Século XX: quando o
Futuro se Torna Escasso”
Que mais se poderia dizer???... que tens razão em todas as palavras... que o mundo caminha para o abismo e que os governantes,falam,falam,falam mas a degradação do nosso ar e brevemente da nossa própria existência, está em perigo...a cada dia que passa... ainda bem que existem pessoas que estão de acordo em ajudar a melhorar o mundo e a "nossa" presença na Terra por muitos anos....mas também assistimos á ganância de alguns quererem mais do que o que têm, esquecendo que também eles morrerão e só deixarão cinzas inúteis...e triliões de moedas, são gastos todos os dias,em porcarias voadoras na esperança????????? de um dia????????? poderem habitar um planeta que será só para multimilionários e gente sem doenças,ou " vícios"?????????... onde não existirá a inclusão nem a imperfeição,criando uma nova vida numa Terra?????????...de nenhures... isto é...se algum dia o corpo humano, conseguir sobreviver a uma viagem de 6 meses,no mínimo, com as funções vitais iguais ou parecidas ás de quem um dia atrás,se chamava humanoide...... já não estarei cá para ver... felizmente... resumindo...se os estúpidos, egoístas,e bárbaros donos do poder, quisessem...limpariam a Terra e os mares e provavelmente, ainda muitas e muitas gerações de pessoas felizes, andariam nas suas rotinas habituais de comer, viver e sobreviver á boa maneira antiga...e que bom seria...temos um planeta tão maravilhoso... porque não conservar,cuidar, limpar e gozar a alegria dos dias sem guerras e admirar a beleza do Sol a nascer e ver o pôr do sol ao findar o dia, á volta de uma mesa recheada de amor, saúde, trabalho, amizade e muita comida e bebida...( É só para rematar em bom)
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