Alta literacia não é sinónimo de responsabilidade
Fala-se hoje com frequência do aumento dos níveis de literacia como um sinal inequívoco de progresso civilizacional. Parte-se do princípio de que saber ler e escrever, compreender textos e concluir ciclos de escolaridade superiores conduziria naturalmente a uma sociedade mais lúcida, mais crítica e mais resistente à manipulação. No entanto, a realidade quotidiana — particularmente visível nas redes sociais e no discurso político — parece contrariar essa expectativa. Nunca houve tantos diplomados e, paradoxalmente, nunca foi tão evidente a dificuldade coletiva em distinguir informação de propaganda, argumento de slogan, verdade de conveniência.
A explicação começa por um equívoco fundamental: literacia não é sinónimo de pensamento crítico. Os indicadores estatísticos medem a capacidade de compreender textos no seu sentido literal, mas não avaliam a aptidão para questionar intenções, verificar factos ou desmontar estratégias discursivas. Como lembrava Paul Ricœur, “compreender não é o mesmo que explicar, nem muito menos julgar”. Uma pessoa pode entender perfeitamente o que um político diz sem nunca se interrogar sobre a sua veracidade, viabilidade ou coerência com a realidade.
Este desfasamento torna-se ainda mais evidente quando se considera que o cérebro humano não está orientado para a verdade, mas para a coerência interna e para a preservação da identidade. Diante de discursos que confirmam crenças prévias, validam frustrações ou oferecem culpados claros, o espírito crítico é facilmente suspenso — não por ignorância, mas por economia cognitiva. Daniel Kahneman descreve este mecanismo ao afirmar que “o Sistema 1 não pergunta se algo é verdadeiro; pergunta se parece plausível”. É neste terreno que o populismo prospera: não como um discurso mal construído, mas como uma engenharia emocional eficaz.O discurso populista evita deliberadamente a complexidade. Simplifica, polariza, moraliza. Apresenta o mundo dividido entre “nós” e “eles”, reduz problemas estruturais a soluções imediatas e transforma emoções legítimas em narrativas fechadas. Como sublinha Ernesto Laclau, “o populismo não é a ausência de razão, mas uma forma específica de construção do político”. Não apela à ignorância; apela à identificação. E isso torna-o particularmente eficaz mesmo entre pessoas altamente escolarizadas.
Aliás, níveis elevados de literacia não imunizam contra a manipulação — por vezes fazem o oposto. Pessoas mais educadas tendem a racionalizar melhor as próprias crenças, a construir justificações mais elaboradas e a defender com maior sofisticação ideias falsas ou líderes incoerentes. Não se trata de falta de inteligência, mas da sua instrumentalização. Theodor Adorno alertava precisamente para isto quando escreveu que “a burrice não é a ausência de inteligência, mas a sua submissão”.
Há ainda um fator mais incómodo: muitas pessoas percebem, ainda que de forma difusa, que certos discursos são exagerados, falsos ou oportunistas. Intuem a incongruência, sentem o ruído. Mas questionar exige esforço, duvidar gera angústia e desmontar uma narrativa deixa um vazio difícil de suportar. A mentira, quando oferece sentido e pertença, torna-se emocionalmente mais confortável do que a incerteza.
O problema, portanto, não reside na incapacidade de ler, mas na ausência de uma verdadeira literacia crítica. Falta treino para o conflito de ideias, para a dúvida informada, para a desmontagem de argumentos. Falta uma educação que ensine a pensar contra, e não apenas a cumprir. Karl Popper lembrava que “o problema não é estarmos errados, é recusarmo-nos a corrigir o erro” — e essa recusa é hoje mais cultural do que cognitiva.
Talvez por isso a contradição entre mais literacia e mais credulidade não seja um retrocesso, mas um sintoma. Um sintoma de uma sociedade que sabe ler, mas evita pensar; que domina a forma, mas teme o conteúdo; que prefere narrativas prontas à responsabilidade intelectual. Como escreveu José Saramago, “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos; sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir”.
E é precisamente essa responsabilidade — de pensar, questionar e resistir ao conforto das certezas fáceis — que continua a ser o verdadeiro desafio da literacia contemporânea.
sem dúvida ! Tive a sorte de crescer numa família com muitas crenças políticas diferentes onde discordar e questionar era bem vindo e natural. E talvez numa geração em que ainda se fazia isso. O que descreves em cima é um problema transversal as todas as classes e grupos políticos e também geracional.
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