Entre números e vidas: suicídio, economia e visibilidade social em Portugal

 


(photo original pessoal_desenho criado por IA)


As estatísticas sobre o suicídio têm algo de profundamente inquietante: aparentam objetividade, mas escondem sempre uma história humana que não cabe em tabelas. Não apenas a história de quem morreu, mas a história de como uma sociedade decide — ou evita — nomear determinadas mortes. Quando observamos as séries longas disponíveis para Portugal, entre 1960 e 2023, notamos uma estabilidade aparente durante décadas, com valores quase sempre abaixo dos mil óbitos anuais, seguida de uma inflexão clara a partir do início do século XXI. Essa mudança não pode ser lida como um simples aumento do fenómeno; exige, antes, uma leitura mais cuidadosa e mais honesta.

Durante muito tempo, o suicídio foi um fenómeno estruturalmente subnotificado em Portugal. Razões religiosas, culturais e institucionais concorriam para a sua ocultação: o peso do catolicismo, a vergonha familiar, a necessidade de proteger o “bom nome”, a pressão informal exercida sobre médicos e autoridades para reclassificar mortes como acidentes. Em termos estatísticos, falamos das chamadas “cifras negras”, mas é importante não as reduzir a um erro técnico: tratava-se de um silêncio social ativo. Como lembrava Émile Durkheim, “o suicídio varia em razão inversa do grau de integração social” — e, durante décadas, essa integração fez-se também através da negação.

A partir dos anos 90, e de forma mais clara depois de 2000, esse silêncio começa lentamente a ceder. A adoção mais rigorosa da CID-10, a profissionalização da medicina legal, a redução da interferência informal das famílias nos processos de certificação de óbito e uma transformação cultural gradual na forma como a saúde mental passou a ser discutida contribuíram para uma diminuição da subnotificação. As cifras negras não desapareceram — nunca desaparecem —, mas tornaram-se menos densas. Os números que surgem a partir desse período não são absolutos nem definitivos, mas são mais consistentes, mais comparáveis e, sobretudo, mais próximos da realidade do que aqueles que os antecedem.

Há, contudo, um ano que se destaca antes dessa viragem: 1984. Num contexto em que a ocultação ainda era regra, os registos oficiais ultrapassam os mil suicídios. Este dado não pode ser ignorado. 1984 surge na sequência da segunda intervenção do FMI em Portugal, iniciada em 1983, num período marcado por desemprego elevado, austeridade severa e uma profunda sensação de desamparo social. É plausível afirmar que não foi um ano “mais transparente” — foi um ano “demasiado grave para esconder”. A intensidade do sofrimento coletivo foi tal que rompeu, ainda que temporariamente, o véu estatístico que durante tanto tempo ocultara o fenómeno.

A comparação entre essa intervenção e a de 2011 é inevitável, ainda que deva ser feita com prudência. Ambas ocorreram em contextos de forte desequilíbrio económico, ambas implicaram políticas de austeridade e compressão social, ambas produziram desemprego, precariedade e medo do futuro. Mas há diferenças importantes. Em 1983/84, Portugal era um país ainda a consolidar a democracia, com redes comunitárias mais densas e uma economia menos financeirizada. Em 2011, o país encontrava-se plenamente integrado numa lógica globalizada, com maior individualização, vínculos sociais mais frágeis e uma pressão acrescida sobre a responsabilidade individual pelo fracasso. A solidão, nesse segundo momento, tornou-se mais estrutural.

Importa dizê-lo com clareza: falar destas relações não é estabelecer causalidades diretas. O suicídio não responde mecanicamente à economia nem às decisões de um governo específico. Como lembrava Karl Popper, “as ciências sociais não lidam com leis inexoráveis, mas com tendências”. Ainda assim, seria intelectualmente desonesto negar que decisões políticas moldam o contexto em que as pessoas vivem, trabalham, adoecem e resistem. Elas influenciam o grau de proteção social, a perceção de futuro, o sentimento de pertença — e tudo isso pesa, silenciosamente, sobre a saúde mental coletiva.

Antes do gesto extremo, há quase sempre um percurso. Esse percurso passa, muitas vezes, por depressão, ansiedade persistente, sensação de inutilidade ou falência pessoal. Não é irrelevante notar que períodos de austeridade grave e desemprego elevado tendem a coincidir com um aumento do consumo de antidepressivos — frequentemente como primeira resposta, individual e institucional, a um sofrimento que é também social. O medicamento surge como tentativa de conter a vertigem, ainda que não resolva as condições que a geram. Hannah Arendt escreveu que “a forma mais radical de sofrimento não é a dor, mas a perda de sentido” — e é precisamente esse sentido que se fragiliza quando o futuro deixa de ser imaginável.

Hoje, este debate ganha uma camada adicional de complexidade. Portugal atravessa uma crise de identidade democrática, marcada pelo crescimento de uma extrema-direita que ocupa o espaço público com discursos de exclusão, medo e simplificação violenta da realidade. Este clima não afeta todos por igual. Comunidades minoritárias — pessoas LGBTQIA+, migrantes, pessoas racializadas, indivíduos já socialmente vulneráveis — sentem de forma mais intensa a erosão da segurança simbólica e do reconhecimento social. Quando a democracia se fragiliza, o sofrimento psicológico não é um efeito colateral distante; é uma experiência vivida no corpo, no quotidiano, na sensação de não ter lugar.

Talvez seja por isso que as estatísticas, por mais necessárias que sejam, nunca chegam. Entre decisões macroeconómicas, discursos políticos e indicadores oficiais, existem pessoas concretas — com histórias singulares, medos legítimos e limites reais — a tentar manter o equilíbrio à beira do abismo. Pensar o suicídio é, no fundo, recusar a abstração total. É lembrar que cada número corresponde a alguém que, em algum momento, deixou de conseguir sustentar a vida tal como ela se apresentava. Não para encontrar culpados fáceis, mas para compreender como determinadas escolhas coletivas podem tornar essa beira mais estreita — ou, pelo contrário, oferecer algum chão onde ainda seja possível ficar.

Se estiveres a sentir-te no limite

Se este tema toca demasiado perto, importa dizê-lo há ajuda disponível no nosso país:

 

  • Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico (horário 24/7) - 1411

  • SOS Voz amiga (15:30_00:30) - 213 544 545 _ 963 524 660 _ 912 802 669

  • SNS 24 – 808 24 24 24

Comentários

  1. Recordo-me que um dia quase que na MOP o tema desse ano era a saúde mental na na comunidade lgbt pois sofremos muito mais que a generalidade da população, espero que um dia o tema seja esse, tão importante e tão urgente. Óptima análise como sempre . Um Abraço

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