Porque nos casamos menos: economia, género e a erosão do compromisso
Porque nos casamos menos: economia, género e a erosão do compromisso
Bem sei que é pura empiria, mas acredito que vivemos no momento, duas situações que interferem com a demografia, uma a conhecida falta de nados que venham renovar gerações, a outra é a que precede a anterior, as pessoas cada vez menos se relacionam enquanto compromisso, vou tentar explicar, até porque acredito que tem um punhado de explicações possíveis!
Economia – as gerações atuais parecem apreciar muito mais a vida que a anterior, viajar, possuir, convívio, são tudo coisas que requerem tempo e dinheiro, coisa que quando existe um ou mais filhos, torna esses bens mais escassos, e posto isto olhando em volta, percebo que filhos não fazem parte dos planos de muitos jovens casais, um cão ou um gato até pode ser, porque mais que não seja podemos deixar num hotel especializado, agora um filho, …ainda não criaram essa opção, aliás legalmente seria até considerado abandono.
LIBERDADE e afirmação feminina – os homens hoje tem “medo” das mulheres, porque as mulheres de hoje não são mais como as suas mães foram, elas são afirmativas, independentes, reivindicativas, sabem o que querem, mas principalmente o que não querem, um parasita, uma criança grande dependente das mil funções de uma mulher, procuram companheiros, não emplastros.
Não podemos descartar de fato que a questão económica será até a principal razão, ter uma casa, comprada ou alugada, é uma epopeia, é o mesmo que andar na rua com uma bola de ferro presa à perna tipo metralha. Este que é um bem essencial de base para a construção de qualquer família, tenha ela a nomenclatura que tiver, está cada vez mais escassa, não que não hajam casas, mas antes porque as que existem tem um letreiro a dizer “proibitiva”, uma renda ou mesmo uma prestação absorve muitas vezes mais de 50% do income de uma pessoa, mesmo que aufira um ordenado acima da média, viver perto do trabalho é um luxo pouco acessível, viver longe do mesmo é uma ilusão, porque a renda pode até ser mais baixa, mas o custo da distancia vai muito além do económico e, tem reflexos a longo prazo.
Perante uma situação destas pensar em ter filhos é uma decisão só possível através de um elevado esforço financeiro e físico, ou impulsionado por um desejo profundo (incutido ou não) de paternidade e ou maternidade – filhos é uma despesa, não mais um investimento como na era industrial, e a que se viveu até ao terceiro quarto do século passado. Posto isto não surpreende que cada vez mais a estatística da natalidade esteja pelas ruas da amargura.
Bastaria os argumentos acima relatados para limitar a natalidade, mas a verdade é que não estou apenas a discutir a questão da natalidade, mas antes da conjugalidade, os héteros cada vez casam menos, quem o diz são as estatísticas não eu. Em 1970 houve 81mil casamentos e uns trocos, mas em 2010 só houve 39mil e 2020 apenas 18mil (sendo que estávamos em pandemia), seja entre 1970 e 2020 houve claramente um decréscimo que foi constante quase 10mil menos por cada dez anos, e se hoje a aquisição de imóvel estará presente na balança das decisões, a verdade é que o mesmo não seria nos anos 70 e 80 ou 90, embora acredite que as questões económicas nunca deixaram de estar presentes, em resumo os governos vários que houve entre 1970 e 2025 em momento algum pensaram a família, pensaram a preservação desta instituição, mesmo tendo usado essa questão repetidamente como entrave para outros avanços civilizacionais.
Mas esta ausência de casamentos heterossexuais, na minha perspectiva apoiado por quem já se debruça sobre o assunto faz demasiado tempo, não apenas resultado de uma desregulação económica, ele está também associado a essa relação, ou falta dela, entre homens e mulheres.
As transformações profundas nos papéis de género nas últimas décadas têm desempenhado um papel central na forma como as pessoas se relacionam, formam parcerias e encaram o casamento. Em sociedades contemporâneas, normas tradicionais que associavam o homem ao papel de provedor e a mulher ao de cuidadora foram amplamente questionadas e reconfiguradas, criando novas expectativas e desafios nas relações íntimas. A dissolução das fronteiras rígidas entre papéis masculinos e femininos e a maior exigência por relações baseadas em igualdade e respeito refletem esta mudança cultural. A socióloga Kathleen Gerson, uma autoridade em género e vida familiar, observou que as novas gerações de homens e mulheres tendem a buscar “o pacote completo” em relacionamentos — tanto competências económicas quanto emocionais — em vez de papéis baseados em estereótipos tradicionais de sexo e género.
Um dos efeitos mais visíveis dessa mudança é a forma como as normas de género influenciam a construção da intimidade. Papéis tradicionais tendiam a ditar que os homens fossem emocionalmente reservados e as mulheres afetivamente cuidadoras, o que, em relações modernas, pode criar fricções quando ambos os parceiros buscam comunicação emocional aberta e participação igualitária nas responsabilidades domésticas e emocionais. A literatura psicológica aponta que internalizar papéis rígidos de género pode gerar frustração, ressentimento e até uma diminuição da intimidade, ao impor expectativas estreitas sobre como homens e mulheres «devem» se comportar. (Verywell Mind)
Ligado a isto, há estudos sobre competências sociais e redes de apoio que mostram que, em média, os homens desenvolvem menos redes sociais amplas e expressões emocionais fora das relações românticas do que as mulheres. Esse padrão pode afetar a forma como alguns homens se aproximam de relações de longo prazo: sem uma rede de suporte emocional diversificada, alguns homens podem tender a ver a parceira como sua principal fonte de suporte afetivo, criando dependência e dificuldades na gestão de conflitos e expectativas. Pesquisadores em sociologia masculina, como Eric Anderson com a sua teoria da masculinidade inclusiva, destacam que as formas tradicionais de socialização masculina nem sempre preparam os homens para a vulnerabilidade e intimidade que relações igualitárias exigem.
Há também um aspecto cultural importante: a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho e a sua maior autonomia económica e social alteraram o “mercado” das relações humanas. Esta situação não só oferece às mulheres mais opções de vida fora do casamento como também redefine o que constitui um parceiro desejável. Em estudos de sociologia da família, argumenta-se que a igualdade de género tem de ser acompanhada de uma renegociação contínua de papéis dentro do lar e das relações de poder, um processo que nem sempre é natural ou automático. Em muitos casais, continuam a persistir assimetrias nas tarefas domésticas e no trabalho emocional, o que é apontado por investigadoras como um fator de stress adicional nos relacionamentos modernos. (OUP Academic)
Por fim, no contexto mais amplo das discussões atuais, pensadores contemporâneos têm destacado uma sensação de crise ou desconforto entre alguns homens diante dessas mudanças. Por exemplo, académicos como Scott Galloway comentam que muitos homens lutam com sentimentos de deslocamento num mundo onde antigas expectativas sobre masculinidade já não se aplicam, apontando inclusive uma tendência a comportamentos mais isolados e menos orientados para relações afetivas profundas. (The Guardian)
Em conjunto, estas dimensões — mudança nos papéis de género, expectativas emocionais, redes sociais, igualdade económica e transformações culturais — ajudam a explicar porque algumas relações contemporâneas enfrentam desafios diferentes daqueles das gerações anteriores. Não se trata de uma incapacidade inata dos homens em relacionar-se, mas de um contexto social em rápida evolução em que normas antigas foram questionadas e ainda se procura a melhor forma de construir intimidade, compromisso e parceria num mundo que valoriza tanto a autonomia individual quanto a igualdade de género.
Mas as limitações não se ficam por ai! As barreiras sociais que tem limitado num sentido crescente a ausência de relação entre as pessoas em geral, mas aqui no caso entre homens e mulheres é a crescente centralidade das redes sociais e da comunicação digital que tem vindo a alterar profundamente a forma como as relações humanas se constroem, substituindo progressivamente o contacto físico, a presença e a vulnerabilidade emocional por interações mediadas, controladas e facilmente interrompidas. A socióloga Sherry Turkle, do MIT, descreve este fenómeno ao afirmar que estamos “cada vez mais conectados, mas estranhamente mais sós”, sublinhando que a comunicação digital empobrece a experiência relacional ao permitir evitar o risco emocional inerente ao encontro presencial. Esta dinâmica é particularmente relevante num contexto em que muitos homens foram socializados para reprimir emoções e evitar exposição afetiva, encontrando nas redes um espaço de interação sem compromisso profundo. Como observa Zygmunt Bauman, na sua análise da modernidade líquida, as relações contemporâneas tornam-se mais frágeis, descartáveis e fáceis de abandonar, organizadas segundo uma lógica de consumo e substituição. As aplicações de encontros reforçam esta lógica ao promoverem excesso de escolha, comparação constante e adiamento do compromisso, o que diversos estudos associam a menor investimento emocional e maior instabilidade relacional. Neste cenário, surge um desfasamento claro entre expectativas: enquanto muitas mulheres, hoje mais independentes económica e socialmente, procuram relações baseadas em parceria, presença e corresponsabilidade emocional, alguns homens oferecem disponibilidade fragmentada e relações mediadas pelo ecrã. Assim, as redes sociais não eliminam o desejo de intimidade ou casamento, mas contribuem para uma erosão das competências relacionais necessárias à sua construção, ajudando a explicar o adiamento ou declínio de compromissos duradouros nas sociedades contemporâneas.
Resumindo, diria que por um lado temos os diferentes governos desinteressados em criar condições capazes na construção da família (tenha a nomenclatura que tiver), e da sua proteção, ou achando que apoio nisto ou naquilo resolve a situação atual, quando na verdade as alterações e condições necessárias tem de ser mais profundas e estruturais, porque mesmo perante uma maior independência das mulheres a verdade é que elas continuam a ser as maiores vitimas nos relacionamentos existentes, sejam de namoro ou de casamento.
Note-se que este texto/reflecção não é um ataque ao ser humano, homem, pretende antes que seja uma reflexão de todos os envolvidos, homens e mulheres, e a forma como se relacionam ou não!

É um enormeeeeeee gosto 🫶ler os teus, informativos,construtivos e que nos " levam" para imensas reflexões 👍🙌🙌🙌 textos👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏
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