"The only clue to what man can do is what man has done" - “A única pista sobre o que o homem pode fazer é o que o homem já fez.”

 

(photo by: Wikipedia)


“The only clue to what man can do is what man has done”

(R. G. Collingwood)


Hoje estive com o maridão a visionar o filme “Nuremberg” (James Vanderbilt), que nada mais é que um apanhado do que foi o julgamento dos nazis como Hermann Göring, aqui interpretado por Russell Crowe.
Visionar o filme, absorver o seu conteúdo, fez-me sentir um misto de revolta e orgulho, mas já lá vamos.

Enquanto procedíamos então ao visionamento, um nome veio-me à memória, o título e o autor de um livro, dos muito poucos que li de fio a pavio, intitulado “Os Assassinos entre Nós” de Simon Wiesenthal, um sobrevivente dos campos de concentração, que dedicou a sua vida posterior a caçar as patentes que fugiram à justiça no fim da guerra — e sobre este ponto também lá vamos mais daqui a pouco.

Foi a frase que dá título a este texto, que surge no final, com aquelas narrativas escritas que dizem o que aconteceu a esta ou aquela personagem. Ao ler a frase senti-a como um murro seco no estômago, daqueles que não estamos à espera, e que por isso não contraímos os abdominais, sentindo a pancada com toda a intensidade, e enquanto nos contorcemos com a dor percebemos que “o mais assustador no mal é que ele pode tornar-se banal” — não por ser pequeno, mas por se repetir sem reflexão crítica.

O orgulho que senti ao visionar este recorte do que foi o julgamento de Nuremberg prende-se com o

facto de ter havido uma tentativa de trazer justiça aos milhares de mortos, daqueles que foram perseguidos e submetidos às mais viscerais formas de tortura. E perdoem-me, mas paremos de falar apenas dos judeus. Já sei que foram o maior número, mas quantos deles eram homossexuais? Quantos eram deficientes e usados para estudos? É verdade que foram muitos os judeus que preencheram os dados de assassinados pelo regime, mas não podemos esquecer que esta máquina de extermínio carregou consigo ciganos, negros, deficientes (tivessem eles a origem que tivessem). A legenda que conhecemos dos grupos aniquilados vai muito mais além de apenas judeus.
Theodor W. Adorno com tantos outros pensadores do nosso tempo, advertia que“A exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”precisamente porque o horror não escolhe uma única identidade.

A revolta provém do facto de que NÃO aprendemos NADA com aquilo que foi a Segunda Grande Guerra. E é aqui que entra a frase que dá título a este texto, que encaixa plenamente e na perfeição, porque não precisamos de viver nada daquilo de novo, nem sequer pela metade, para sabermos o resultado final: milhares, senão milhões, de pessoas mortas com base em ideologias fascistas, subversivas de um mundo democrático, mas acima de tudo — diria eu — de um mundo que infelizmente tem mais com que se preocupar no que ao seu extermínio diz respeito.
“o Holocausto não foi um desvio da modernidade, mas um produto possível dela”, o que torna a repetição não apenas possível, mas perigosamente plausível.

Simon Wiesenthal, o autor de “Os Assassinos entre Nós”, foi punido mais do que uma vez pela sua existência. Foi punido porque nasceu judeu numa altura em que alguém perseguia judeus — punido nos campos de concentração — punido quando, na sua demanda em levar os responsáveis de uma guerra miserável (como todas as guerras o são), a determinada altura termina ignorado, ultrajado no ridículo das condenações apontadas aos criminosos que levou à “justiça”.

A sua persistência lembra as palavras de Primo Levi, também ele um sobrevivente do holocausto, que nos disse que se “Aconteceu, logo pode voltar a acontecer”, e olhando o mundo penso não teremos muitas duvidas disso mesmo.

Posto isto, não surpreende — não pelo menos a mim — que o mundo esteja a viver velhas guerras sem sentido, impulsionadas por fanatismos capitalistas que não outros, aniquilando vidas, destruindo países, na velha, e demasiado hipócrita premissa de tais ataques serem em nome de uma alegada liberdade de uma suposta democracia.
“uma sociedade que se diz livre pode, na prática, ser profundamente repressiva” quem o disse foi Herbert Marcuse, e se alguém tiver duvidas sobre a veracidade desta frase, basta olharem com olhos de ver e sentir o que se vive hoje nos EUA, alegadamente o país da LIBERDADE, …será?

Assim, a frase “A única indicação do que o ser humano é capaz é aquilo que já realizou”, do filósofo R. G. Collingwood, diz-nos que precisamos apenas de olhar para o passado como um livro da primeira classe e aprender com ele a ler o futuro, onde mais do que aquilo que queremos, devemos afirmar de forma estridente e inequívoca aquilo que não queremos NUNCA mais, em nenhuma proporção.


Porque a LIBERDADE é, sem dúvida, o valor maior, mais precioso e mais fundamental, a base da dignidade humana — uma dignidade que se perde quando, iludidos pelo discurso populista de uns quantos, se deixam levar, colaborando de alguma forma na destruição não apenas do mundo, mas da própria humanidade, repetindo esse sentimento por outras palavras, “a responsabilidade pelo passado não desaparece com o tempo; ela começa quando deixamos de o enfrentar”.

 

LIBERDADE SEMPRE, fascismo NUNCA MAIS!


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