Os "Racismos" não começam no grande estádio!
Anda uma pessoa a viajar, a observar outras culturas, a absorver o melhor que cada país tem para oferecer, e de repente, no silêncio de um quarto de hotel, surge a notícia: alguém da FIFA (Gianni Infantino) manifesta-se chocado com um episódio de racismo dirigido ao jogador do Benfica, Vinícius Jr. Num primeiro momento pensei tratar-se de um sketch humorístico — dos fracos. Depois percebi que não. Era apenas mais um episódio de indignação institucional tardio.
O problema não começa nas bancadas de um grande estádio.
Nem nasce apenas nos grandes palcos mediáticos.
O problema começa muito antes.
Sempre fui um tio orgulhoso. O meu “sobrinho-filho”, como lhe chamo, foi uma criança desejada também por mim. Cresceu como um jovem equilibrado, de caráter próprio, e tive o privilégio de participar na sua educação. A certa altura quis experimentar o futebol. E lá estive eu — a comprar equipamento, a assistir a jogos — mesmo detestando futebol. Estava lá por ele.
Não demorou muito até perceber que o que ali se jogava ultrapassava o desporto. Num jogo de juniores, pais insultavam árbitros, adversários, os próprios filhos e os filhos dos outros. O ambiente era de tensão permanente. Perguntei-me, naquele “curso intensivo” de 90 minutos, porque razão um jogo de crianças precisava de tanta polícia. Amigos professores dizem-me frequentemente: o problema nem sempre são os miúdos — são os pais. Ou melhor, os progenitores. Porque ser pai ou mãe é outra coisa.
O meu sobrinho, lúcido, disse-me um dia:
“Eu fui ali para jogar, não para estar a ouvir o que dizem dentro e fora do campo sobre nós.”
Queria desistir. E eu apoiei.
Se a semente é lançada num terreno contaminado, dificilmente dará fruto saudável. Pequenos pés precisam de escoras firmes para crescer direitos. Se essas escoras falham — dentro e fora do campo — não nos surpreendamos depois com as distorções.
É por isso que a indignação seletiva de Gianni Infantino soa vazia. Em 5 de agosto de 2025, o The Guardian salientava que:
“Organizações antidiscriminação recolhem um grande número de incidentes só na liga inglesa: na época 2024-25 foram recebidos quase 1 400 relatórios de comportamento discriminatório, incluindo racismo, homofobia, misoginia, etc., com o racismo sendo a forma mais comum de abuso.”
Mil e quatrocentos relatórios numa única época. Isto não é um acidente isolado. É padrão. É cultura tolerada. É ambiente normalizado.
Perante estes números, o espanto público de dirigentes soa mais a gestão de imagem do que a consciência estrutural. O racismo no futebol não é um desvio ocasional: é uma manifestação de algo que atravessa formação, bancadas, estruturas e instituições.
E o futebol não vive numa bolha. A violência verbal normalizada, o insulto como linguagem corrente, a desumanização do outro — tudo isso transborda. Quem aprende que o adversário é lixo, que o diferente é alvo, que o erro merece humilhação pública, não deixa esse aprendizado no balneário.
Por isso, antes de discursos inflamados e comunicados indignados, talvez fosse útil olhar para a base. Para os campos de juniores. Para as bancadas onde adultos modelam o comportamento que dizem condenar.
Não se trata apenas de futebol. Trata-se de cultura. Trata-se de responsabilidade. Trata-se de perceber que o que toleramos na formação ecoa depois na sociedade.
Se não cuidarmos das fundações — respeito, dignidade, humanidade — não nos surpreendamos com as rachaduras futuras. Nada surge do nada.
Tudo tem ligação.
E é aí que a verdadeira vigilância, indignação, e reprovação de toda a fobia começa.
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