Eutanásia - Se não é a tua dor, porque te incomoda a minha morte?
Se Não É a Tua Dor, Porque Te Incomoda a Minha Morte?
Tem um assunto que se repete, a Eutanásia, e que parece que toda a gente fica muito incomodada com alguém desejar para si, normalmente por razões de saúde, colocar termo à sua vida de uma forma digna, que é disso que estamos a falar, de morrer dignamente, colocando assim termo a uma qualquer dor.
A eutanásia, embora nada tenha a ver com o suicídio no sentido clássico, cruza-se inevitavelmente com ele: no essencial, trata-se de uma decisão de fim de vida, com a diferença de que, neste caso, é acompanhada, assistida, enquadrada por profissionais de saúde habilitados para o efeito, garantindo aquilo que falta na maioria das tentativas solitárias — segurança, controlo e dignidade.
Aliás, quando alguém se tenta suicidar sem sucesso, não vai preso por isso. É, muitas vezes, rodeado de simpatias, de discursos de compreensão, de apelos à vida. Mas essa resposta, ainda que bem-intencionada, raramente resolve a dor que levou a pessoa até ali. E não poucas vezes, uma segunda tentativa não é mais uma tentativa — é uma certeza.
Por outro lado, não vejo a mesma inquietação coletiva em resolver muitas das razões que levam alguém a querer morrer:
- jovens que se suicidam porque são vítimas de bullying na escola
- jovens e menos jovens que são vítimas de fobias sociais, como a transfobia ou a homofobia
- pessoas que perderam o emprego e não conseguem regressar ao mercado de trabalho
- pessoas vítimas de vícios que as conduziram à ruína
- vítimas de traumas profundos, como a violação
Na verdade, um sem número de situações que NINGUÉM parece verdadeiramente disposto a enfrentar com a mesma veemência. Mas quando alguém, consumido por uma doença incapacitante, por dor crónica ou por uma existência reduzida a mera sobrevivência, deseja partir com dignidade — então instala-se o escândalo.
E, no entanto, nos países onde a eutanásia ou o suicídio assistido são legais, os dados mostram que não estamos perante um descontrolo, mas sim perante uma escolha rara, ponderada e profundamente regulada. Nos Países Baixos, por exemplo, onde a prática é legal há mais de duas décadas, registaram-se cerca de 8.700 casos em 2023, num universo de milhões de habitantes. Na Bélgica, os números rondam os 3.000 casos anuais, estáveis ao longo dos últimos anos. No Canadá, onde a legislação é mais recente, houve cerca de 13.000 casos em 2022, representando ainda assim uma pequena fração do total de mortes. Estes números, acompanhados por relatórios oficiais, mostram não uma banalização da morte, mas a existência de um recurso extremo, utilizado em circunstâncias igualmente extremas.
Mas onde estão os defensores da dignidade quando olhamos para a forma como tratamos, por exemplo, os idosos? Estes dias tomei conhecimento de uma situação concreta: uma associação diocesana que presta apoio domiciliário a idosos acamados informou que, no dia de Páscoa e de Natal, não presta esse serviço. Por outras palavras, alguém dependente, acamado, com fralda, pode ficar mais de 24 horas sem cuidados básicos — sem alimentação adequada, sem higiene — abandonado na sua cama, enquanto a assistência se recolhe para celebrar.
Não terá essa pessoa — que se sente um fardo, que vive dependente, mesmo que pagando por isso — o direito de decidir se quer continuar nessa condição? E não deve o Estado, como entidade responsável, garantir que, se essa decisão for tomada em plena consciência, exista uma forma digna de a concretizar?
Ou será que todo este alarido esconde outra realidade: a manutenção de um sistema de assistência, muitas vezes precário, que movimenta recursos, empregos e interesses, mesmo que à custa da dignidade de quem dele depende?
Quanto a mim, é difícil não suspeitar disso. Porque, na prática, demasiadas vezes parece que ninguém quer verdadeiramente saber da dor do outro. Como diz o ditado, “com o mal dos outros posso eu bem”. Ou, adaptando: “não quero que ninguém morra — só quero que a minha vida continue”.
Terminar com a própria vida nunca será um cenário leve. Nem para quem parte, nem para quem fica. Para quem parte, há sempre um conjunto complexo de razões — nenhuma delas simples, nenhuma delas desejável. Para quem fica, há dor, há dúvida, há culpa. Aquela pergunta que insiste: “o que poderia eu ter feito?”
Mas a verdade é que, muitas vezes, não poderíamos ter feito nada — a não ser prolongar o inevitável.
É por isso que talvez devêssemos encarar esta questão com menos ruído e mais honestidade. Regular. Debater seriamente. Permitir que, em condições rigorosas e bem definidas, alguém em plena consciência possa decidir quando e como partir.
Porque, na prática, já aceitamos formas de decisão sobre o fim da vida. Existe o chamado “Testamento Vital”, que permite recusar tratamentos ou suporte artificial de vida. E isso não é, de certa forma, uma forma de escolher o fim?
A diferença é que essa escolha pode ser longa, penosa, arrastada. A eutanásia, pelo contrário, oferece aquilo que tantas vezes falta: tranquilidade, ausência de dor, dignidade.
Como escreveu Arthur Schopenhauer,
“Cada um tem o direito de pôr termo à própria vida quando o sofrimento se torna insuportável.”
Posto isto, a pergunta mantém-se, simples e direta:
Qual é, afinal, o problema de quem não quer recorrer à eutanásia — mas se incomoda com o facto de outros poderem escolher fazê-lo?
Eu já assinei o Testamento Vital há vários anos com renovação,pois tem prazo...e está tudo dito...sou completamente a favor da Eutanásia,pois acho que se deve ajudar a ""ter""uma morte digna... é a minha opinião...mas respeito quem seja contra...
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