E se agora caísse um míssil ali mesmo ao lado?

 

(photo by: Roblox)


Este domingo o maridão deu uma de masoquista e pediu para irmos dar um passeio a pé, mas como o tempo estava instável, o local do passeio foi o Mar Shopping, por sugestão minha, pensando que estaria mais desafogado que os demais aqui em volta.

Então, o marido está a fazer uma terapia aos pés que precisa caminhar sobre umas palmilhas terapêuticas para corrigir algo na formação óssea do pé, porque o tempo estava chuvoso fomos parar ao shopping e quando estávamos a entrar tive um pensamento perfeitamente escusado, dado que íamos começar o “passeio”.

Quando chegamos fomos diretos para o parque -2 porque anunciava na entrada que o -1 estaria cheio. Logo aí um alarme aos meus nervos — odeio muita gente no mesmo espaço. Talvez porque multidões retiram identidade ao indivíduo. Gustave Le Bon, no século XIX, dizia que dentro das massas o ser humano perde parte da racionalidade individual e passa a agir por contágio emocional e automatismo coletivo. E às vezes é exatamente isso que sinto quando entro em certos espaços comerciais: uma espécie de coreografia involuntária, quase mecânica.

Quando entrávamos na zona comercial, e logo no primeiro tapete rolante, a falta de civismo existente mostrava gente aos magotes prostradas nessas estruturas como correias de uma linha de produção — às dezenas entravam e saíam, num fluxo constante.

Chegados ao patamar zero, onde as lojas começam, centenas e centenas de pessoas deambulavam entre a diversão, ocupar o tempo e fazer compras. Zygmunt Bauman talvez dissesse que ali estava um dos templos perfeitos da modernidade líquida: pessoas permanentemente em movimento, mas raramente verdadeiramente ligadas umas às outras; consumidores antes de cidadãos; distração antes de reflexão.

Foi no primeiro tapete rolante que questionei o maridão:

— E se agora todos recebêssemos nos nossos telemóveis que estávamos a ser atacados? E mesmo ali, do outro lado da estrada, um míssil caía? O que seria que toda esta gente faria? O que é que nós faríamos?

Dirão que sou doido, ou que estou a ter perturbações do tipo reflexo, porque tenho conhecimento das guerras em curso e estou a transferir essas imagens para a nossa realidade. Que esse sentimento estará a toldar o meu juízo sobre a sociedade.

E eu respondo: será mesmo?

Ulrich Beck escreveu sobre a “sociedade de risco”, explicando que vivemos numa época em que o medo deixou de ser apenas concreto e passou a ser permanente, invisível e global. O perigo já não vem apenas da fome ou da guerra próxima — ele infiltra-se pelas notícias, pelos telemóveis, pelas redes sociais, pela consciência constante de que o mundo pode mudar violentamente em minutos.

Por que razão aquelas pessoas no tapete rolante não estão encostadas à direita deixando a esquerda livre para quem caminha noutro ritmo? Será comodismo? Indiferença perante o outro? Cansaço de uma semana de trabalho? Ou egocentrismo?

Byung-Chul Han fala de uma sociedade cansada, saturada, hiperestimulada, onde o excesso de informação e consumo produz indivíduos emocionalmente exaustos e cada vez menos atentos ao coletivo. Talvez seja isso também: pessoas tão absorvidas no próprio ruído interno que deixam de reparar no espaço comum.

Eu comentei com o maridão:

— Hoje é domingo e não dou aulas de civismo.

Ou seja, não vou perfurando a estagnação egoísta vazia de civismo com uns “com licença” e mais uns quantos murmúrios de mim para comigo.

Usando a fala de um humorista da nossa praça, mas com outra roupagem:
“As pessoas precisam de acordar.”

E talvez precisem mesmo. Porque muitas vezes parece que vivemos anestesiados. Hannah Arendt escreveu sobre a banalidade do mal, mas talvez hoje exista também uma banalidade da indiferença: pequenos egoísmos repetidos diariamente até se tornarem paisagem normal.

Olhando esse comportamento foi o que me levou a sugerir:

— E se?

E mesmo questionarmo-nos:

E nós? E se… o que faríamos?

Amo os meus pais e a minha família, mas a minha vida sou eu e o maridão. E por ele seria capaz de tomar uma atitude de luta pela sobrevivência. Debater-me-ia no tráfego para chegarmos à nossa casa, buscar os nossos dogs e rumar a uma habitação de menos risco, porque viver no sexto piso — ou num prédio em qualquer piso — é um risco maior a vários níveis.

E aqui entra aquilo que Freud chamava de instinto de preservação. A fina camada da civilização desaparece rapidamente quando o cérebro acredita que a sobrevivência está ameaçada. O ser humano moderno gosta de imaginar que está distante da animalidade, mas basta uma crise séria para reaparecer o impulso primário: proteger os seus, fugir, sobreviver.

Depois, a probabilidade de o míssil cair do outro lado da rua era remota. Ele cairia bem no centro do centro comercial para obter o maior número de fatalidades possível. Menos gente representa menor resistência ao invasor, seja ele quem for.

Confesso que não gosto do que vejo no mundo, nem mesmo o que vejo no nosso país em determinados cenários, e lamento não conseguir abstrair-me na medida de viver mais tranquilamente. Mesmo não vendo TV nacional e principalmente notícias há mais de seis anos, a informação — e a desinformação — invade-nos por todos os meios, criando um caos mesmo que subjetivo.

Jean Baudrillard dizia que já não vivemos apenas a realidade, mas sim simulacros constantes dela — imagens, medos, narrativas, choques mediáticos permanentes. Talvez seja por isso que mesmo longe da guerra ela entra silenciosamente dentro da nossa sala, dos nossos pensamentos e dos nossos nervos.

Não foi, nem é, este o mundo que sonhei ou pretendo viver.

Se numa pandemia controlada as pessoas exageraram criando pequenos armazéns em casa, nomeadamente de papel higiénico, que outras coisas mais graves e nocivas fariam se agora caísse ali ao lado um míssil?

Porque no fundo talvez a verdadeira pergunta não seja “o que aconteceria?” — mas sim quão fina é realmente a camada de normalidade que separa a civilização do caos.

 


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