Estamos todos doentes, só fingimos que não!
Estamos todos doentes, só fingimos que não!
Andava eu aqui nas lides domésticas quando me tocou a ideia, pensamento, de que andamos todos doentes, e os que não andarem ou não são humanos ou não têm em si qualquer pinta de humanidade. Talvez não seja uma doença clínica, daquelas que se diagnosticam com exames, mas algo mais difuso, mais entranhado, como descreve Erich Fromm quando fala de uma sociedade que perdeu o equilíbrio entre o “ter” e o “ser”, e se deixou adoecer por dentro.
O mundo está em guerra, os
conflitos primeiro da Rússia e Ucrânia, ainda não teve fim porque é preciso
primeiro muita diplomacia, alguém com a capacidade intelectual de mostrar a
Vladimir Putin que a guerra que ele começou (como aliás todas as demais) não
faz sentido, está a causar sofrimento a diversos níveis, um sofrimento que vai
muito além das vítimas mortais da própria guerra – há pessoas a padecer algures
um pouco por todo o mundo porque graças à guerra alguns bens essenciais de
sobrevivência estão mais caros, e por isso deixaram de fazer parte do menu
dessa já antes coreografia de sobreviver ao capitalismo desenfreado. Um
capitalismo que, como apontava Karl Marx, tende a produzir desigualdades
estruturais que se tornam ainda mais visíveis em tempos de crise.
Depois temos a guerra em forma de
galho de árvore, Israel ataca Gaza, ataca Irão, ataca Líbia, e este arbusto que
é Israel está a colher a sua seiva nos EUA, numa espécie de conluio comercial
onde o pagamento são vidas, e terra, manchadas de petróleo. Um cenário que faz
eco das críticas de Noam Chomsky, que há décadas denuncia as relações entre
poder, interesses económicos e intervenção militar.
No meio de tudo isto, estamos nós
comuns mortais, que vivemos numa paz aparente, porque acordamos com o
despertador, apanhamos um autocarro, trabalhamos todo o dia, e voltamos para
casa, apenas com a perturbação do trânsito, do choro dos filhos, do dinheiro
que não chega mais para o supermercado, mas vivemos, ou sobrevivemos em paz,
mesmo que relativa – é por isso que digo, estarmos todos doentes, numa espécie
de cozedura em lume brando. Uma rotina que lembra o que Hannah Arendt descreveu
como a banalidade do mal — não no sentido extremo, mas na forma como o
quotidiano pode normalizar o que devia inquietar-nos.
Sinto que vivemos numa panela de
pressão que enquanto aquilo que chamamos de apito rodar, e for libertando aqui
e ali alguma pressão, nos vamos aguentando, mas na verdade este apito pode
encravar a qualquer momento, e quando a panela explodir vai merda para todo o
lado. E talvez essa tensão constante seja parte do que Sigmund Freud via como o
conflito inevitável entre as pulsões individuais e as exigências da vida em
sociedade.
Assim doentes, mentalmente
reprimidos, mentalmente balançando entre o precipício da ponte que atravessa a
autoestrada, ou os beiços daquele vizinho que nos cansa com mesquinhices que só
apetece dar-lhe um tapa, sobrevivemos com um episódio de humor, com uma vitória
do nosso filho, com um abraço inusitado de um amigo. Pequenos momentos que
funcionam como âncoras, quase como aquilo que Viktor Frankl defendia — a
procura de sentido mesmo nas condições mais adversas.
Nós estamos mentalmente doentes,
deambulamos como velas de dinamite com o rastilho a arrastar, disponível para a
primeira faísca, e ou o mundo toma consciência disso mesmo e transforma este
dinamite em fogos de artifício para celebrar essa consciência que tarda em
chegar, porque quando começarmos a explodir, muito inocente, mais inocentes,
vão perecer nesta desgarrada …
E talvez o mais inquietante não
seja sequer o barulho da explosão, mas o silêncio que a antecede. Esse silêncio
pesado, normalizado, quase confortável, onde tudo parece funcionar apesar de
sabermos, lá no fundo, que nada está realmente bem. Como dizia Zygmunt Bauman,
vivemos numa “modernidade líquida”, onde tudo é instável, descartável,
inclusive as relações humanas, os compromissos, os valores. E essa liquidez,
que à primeira vista parece liberdade, é também uma fonte constante de
ansiedade — porque nada segura, nada fixa, nada garante.
E depois há este cansaço
coletivo, este esgotamento que já não é só físico. Byung-Chul Han fala de uma
“sociedade do cansaço”, onde não somos oprimidos por um tirano externo, mas por
nós próprios, por uma exigência constante de desempenho, produtividade,
sucesso. Já não é preciso que alguém nos diga o que fazer — nós próprios nos
empurramos até ao limite, sorrindo para as redes sociais enquanto nos
desfazemos por dentro. E isso cria uma violência silenciosa, uma auto-exploração que corrói devagar, como ferrugem viva debaixo da tinta cintilante.
Entretanto, continuamos a
consumir. Notícias, produtos, indignações rápidas, causas momentâneas. Tudo
passa, tudo se substitui, tudo se esquece. Hoje chocamo-nos, amanhã já estamos
a rir com um vídeo qualquer. E isto não é apenas distração — é um mecanismo de
defesa. Porque se sentíssemos tudo com a intensidade real, talvez não
aguentássemos.
Mas há um preço para esse
amortecimento emocional: deixamos de reagir quando realmente importa.
E é aqui que a tal doença social
se agrava. Não é só o excesso de estímulos, nem só a injustiça gritante, nem
sequer apenas a desigualdade — é a normalização disso tudo. É aceitarmos que o
absurdo faz parte, que a violência é inevitável, que o sofrimento é
estatística. E quando uma sociedade chega a esse ponto, já não está apenas
cansada — está perigosamente anestesiada.
E uma sociedade anestesiada não
previne explosões. Só as adia.
Porque por trás dessa rotina
aparentemente banal — acordar, trabalhar, pagar contas, repetir — há
frustrações acumuladas, há medos não resolvidos, há raivas engolidas. Pequenas
coisas, dir-se-ia. Mas somadas, tornam-se matéria inflamável. Basta uma faísca:
uma crise maior, uma injustiça mais visível, um colapso qualquer… e aquilo que
parecia estabilidade revela-se ilusão.
Talvez por isso surjam, aqui e
ali, sinais de ruptura. Pessoas que já não conseguem fingir, que gritam, que
quebram, que desistem, ou que atacam. E tendemos a olhar para esses casos como
exceções. Mas e se forem sintomas?
A verdade desconfortável é que
não estamos tão longe assim desse limite.
E então, o que fazer?
Não há resposta simples, nem
solução rápida. Mas talvez comece por recuperar aquilo que fomos perdendo: a
capacidade de parar, de escutar, de sentir sem filtros constantes. De
reconstruir comunidades reais, não apenas digitais. De questionar o ritmo imposto,
de recusar a lógica de que valer é produzir. De trazer humanidade de volta ao
centro.
Porque se continuarmos assim,
nesta cozedura lenta, neste equilíbrio frágil entre o funcionamento e o
colapso, a explosão não será surpresa — será consequência.
E quando vier, não vai escolher
culpados nem inocentes.
Vai apenas mostrar, da forma mais
brutal possível, aquilo que durante demasiado tempo insistimos em ignorar.

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