"Isso aqui nunca aconteceria!"
Não sou amante de séries, mas de quando
em vez deixo-me levar, será as personagens, ou as primeiras imagens, algumas
vezes pelo contar da história que nos primeiros episódios, e talvez para
cativar o espetador se apresentam intensas – verdade que o sucesso desta
demanda acontece com maior facilidade se for o maridão a ter no disco duro a
primeira temporada completa, o que permite visionar um episodio após outro, sem
genéricos ou intervalos repletos, entupidos de publicidade que dependendo da
época do ano pode ser uma compilação capitalista de apelo ao consumo estéril da
fantasia.
Essa magia de me captar a atenção
para uma série deu-se com “The Handmail’s Tale” de Bruce Miller, inspirada no
romance homónimo de 1985 da escritora Margaret Atwood, que chegou a dizer que
nem tudo foi inventado, porque algures no tempo e no espaço houve ou há paralelismos
com a realidade, e por isso, talvez por isso mesmo a série apanhou-se logo nos
primeiros dois episódios se a memoria não me atraiçoa – recordo a cena em que
estão num café e do nada param uns quantos camiões militares e dá-se inicio a “captura”
das pessoas, dando-se a fuga do casal de onde sai a nossa grande heroína
interpretada por Elisabeth Moss no papel de June Osborne.
Esta ideia de finitude, de que
tudo pode mudar no minuto seguinte, e que se vivermos uma relação de grande cumplicidade,
vamos fugir juntos e lutar pela nossa sobrevivência, e daqueles que amamos,
custe o que custar, até a própria vida, ou uma vida de humilhação e servitude. Esta
série tem disso em mim. E o seu impacto foi tal que estes dias quando escrevia mais
um dos meus textos para o meu blog intitulado “E se agora caísse um míssil
ali mesmo ao lado?”, a memória dessa série saltou-me na frente, a questão
do “e se” é uma constante no meu dia-a-dia, porque certezas apenas a do
momento, e a do passado, não tenho outras.
Assim dei por mim a juntar peças
como se de lego se trata-se e questionar-me se a série não seria uma alegoria
ao nazismo e o regime nazi, que devia ser a vergonha coletiva da humanidade,
pelo menos ocidental, se calhar até devemos batizar essa vergonha de “neovergonha”,
porque olhando a história da humanidade não temos tempo para grandes aplausos
tamanha é a vergonha desse conto que não é de fadas nem de monstros
desconhecidos, mas antes da energumenidade do ser humano.
“The handmail’s Tale” é na
verdade a nossa história e a prova provada de que no minuto a seguir tudo pode
mudar, sejamos realistas, afinal o inominável Hitler em 1933 não chegou ao palanque
e disse a todos “vamos lá criar campos de concentração e eliminar milhões por
esta ou aquela razão”, o que ele fez é o que este neofascistas destes nossos
tempos fazem – encontram um “bode expiatório” em 1933 foi os judeus como a razão de uma crise económica
na Alemanha de então, hoje são os imigrantes, e em outras geografias outros bodes
de cornos mais ou menos retorcidos. O primeiro passo é criar o medo, apontar a
crise, localizar a insegurança, fazer disso muito propaganda, desumanizando uns,
os bodes, e elevando outros dando-lhes a ideia de que os seus “direitos” estão
ameaçados por esses animais selvagens de cor diferente, que se deitam com o
vicio, e daqui à normalização do impensável é um passo – e porque estes
esquemas funcionam como um manual, a seguir vem o controle institucional; a censura;
perseguição; segregação; vigilância permanente dos movimentos, principalmente
do pensamento, buscando como resultado a submissão coletiva, o cabresto, o jugo
que domina o caminho a seguir, se queremos continuar pelo menos a respirar – e assim
é contado pela série, apresenta-se uma crise social e de fertilidade, perante
isto é preciso controlar se não morremos enquanto sociedade (medo), suspende-se
direitos, controla-se os corpos, militariza-se as ruas e dá-se a aceitação
progressiva do autoritarismo.
Tal como disse mais acima, “vergonha
desse conto que não é de fadas nem de monstros desconhecidos”, os monstros são
rostos de todos os dias, são os burocratas, os populistas, o cidadão comum,
nosso vizinho do lado que se adaptou renunciando a si mesmo, os colaboradores do
medo, como nos campos de concentração do holocausto, onde os nazis eram
ajudados no controle pelos próprios presos adaptados, ou os colaboradores do
medo, como chamo, e todos juntos instituem o novo normal – Margareth Atwood
afirmou várias vezes em momentos diferentes que nada do que aparece na sua obra
foi totalmente ficcionado, ou seja cada mecanismo de opressão exibido teve
paralelo histórico e ou existe –
Controle reprodutivo –
decreto 770 na Roménia de 1966/89 – proibido o aborto, contraceção, educação
sexual para promover o aumento da população, tendo o Estado inclusive vigiado
mulheres férteis e seus ciclos menstruais
- nos EUA 1920/70 mulheres
pobres, mulheres negras, indigentes e pessoas com deficiência foram esterilizadas
à força sobe politicas eugénicas, sobe a lógica de que certas pessoas não
deviam reproduzir-se, e não foi apenas os EUA, Suécia nos anos 70 fez o mesmo,…
Perseguição de
minorias – o holocausto é sem duvida para muitos de nós europeus
o testemunho fatal, mas Ruanda 1994 onde o rádio tal como na Alemanha nazi foi
usado para alimentar o ódio sobre o povo Tutsi que resultou em milhares de
mortos -
os EUA durante a segregação racial, para mim uma das histórias coladas
na memória é o ataque de brancos sobre Greenwood, em Tulsa, causando centenas
de mortos e uma cidade prospera destruída porque apenas os negros não podiam
ser prósperos, Greenwood era conhecida na época como “Black Wall Street”
Poderíamos continuar a explorar
esses mecanismos conhecidos de segregação, perseguição e controle. Porque na
verdade eu não consigo olhar como apenas uma grande produção cinematográfica e
pronto, batemos palmas no fim e esperamos ganhe muitos prémios porque é mesmo boa
na nossa opinião claro está – a forma como olho esta série é como uma dramatização
de padrões humanos recorrentes, o terror desta série não são os mesmos de WWZ
ou a Guerra dos Mundos, o meu olhar diz-me que isto já aconteceu, e ou está a acontecer
algures num mundo que se diz civilizado. Os monstros de hoje concebem meios de
controle mais sofisticados no sentido de não percebermos que estamos a ser
objetos desse controle. Guy Debord e Jean Baudrillard, defendem que as sociedades
modernas controlam através do espetáculo, do entretenimento, digo eu,
populista, pobre de conteúdo, mas cheio de graça, de paródia, através do excesso
de estímulo o consumo rápido e continuo do desnecessário. Por outras palavras
quanto mais entretido está o individuo menos ele questiona, não reflete, até
porque os conteúdos são pensados para a ausência de reflexão, um estímulo á
reação instantânea, vive numa anestesia coletiva, segue a manada, sem questionar,
porque vivemos uma sociedade que não funciona mais pela repressão externa, mas
pela autoexploração, pressionamo-nos a nós mesmos para fazermos parte de um alegado
todo. “The handmaid’s Tale” não é necessariamente uma ditadura clássica com
tanques na rua. Hoje em dia o controle social já não precisa de violência
explícita permanente, o filósofo Michel Foucault trabalhou esta ideia das
sociedades modernas evoluíram de um poder puramente repressivo (“obedeces ou és
punido”) para formas mais subtis de disciplina e vigilância, afinal os nossos
dados, as nossas conversas, os nossos textos, como este aliás, são armazenados numa
IA algures no mundo que depois com base nisso, me fornece meios de satisfazer
as minhas necessidades sejam elas físicas ou intelectuais porque ela sabe o que
penso, e ao saber o que penso na mesma linha pode enviar ao meu endereço a
qualquer momento, o prémio Nobel ou a policia de costumes.
Por isso tudo e mais que fica por
dizer, eu ligo esta série que me captou a atenção, com o regime nazi, mas mais
ainda com a certeza de que o ser humano é preguiçoso e prefere comer tremoços e
pensar que jantou, do que exigir um bife, e ter a certeza que está alimentado –
nunca nos vão anunciar a mudança dizendo “a partir de amanhã acabou a
democracia”, isso vai acontecer paulatinamente, com tempo de antena favorecido,
com plataformas digitais, com manuseamento de algoritmos que decidem num
determinado sentido o que deves consumir como conteúdo estruturante de um outro
regime, hoje vivemos numa era em que há sistemas inteiros desenhados para
capturar atenção e moldar comportamento. E o mais desconfortável e perigoso de
tudo isso é que nos tornamos participantes voluntários, levamos o dispositivo
connosco, aceitamos os termos sem questionar, criamos vigilância mútua,
tornando-nos nos presos que controlam os presos.
O que
Margaret Atwood quis mostrar é que, nenhum sistema opressivo surge do nada, ele
constrói-se lentamente, emocionalmente, anunciando um medo, uma outra moralidade,
com justificações de segurança, de ser o melhor para todos, para o país, e
tantas e tantas vezes com apoio popular inicial. E quase sempre começa quando
as pessoas acreditam, num conto de fadas que lhes diz: “isso aqui, nunca
aconteceria.”
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