Nada nos foi dado — E tudo nos pode (está) ser roubado
Este ano por razões que a razão desconhece não fui à marcha do Dia do Trabalhador, mas essa ausência não me impediu de refletir sobre o assunto, e acima de tudo perceber que o trabalhador, o assalariado, desconhece o poder que tem, desconhece os seus direitos, desconhece mais que tudo a sua classe social, e por isso rejeita tantas vezes a luta.
Sobre esse Dia do Trabalhador (como todos os outros dias) pareceu-me importante dizer o óbvio que tanta gente preferia esquecer: nada do que hoje parece normal caiu do céu. O descanso semanal não nasceu da bondade dos patrões. As férias não brotaram das secretarias ministeriais. O horário de trabalho não é uma oferta graciosa de quem sempre lucrou com o cansaço alheio. Cada direito teve um preço pago em greve, fome, prisão, pancada, despedimento e sangue. Cada conquista nasceu porque alguém disse não, quando o medo mandava calar.
Em Portugal, como noutros lugares, houve vozes que ergueram a dignidade do trabalho ao nível da luta maior: homens e mulheres anónimos, sindicalistas, artistas, poetas, filhos e pais da Revolução dos Cravos, gente que percebeu que democracia sem justiça laboral é só fachada bem pintada. Também noutros cantos do mundo se ouviram nomes como Lech Wałęsa, vindo das docas e da resistência operária, lembrando que o trabalhador organizado pode abalar impérios.
Mas o tempo ensinou outra lição amarga: direitos que não se defendem apodrecem. O que uma geração arranca, outra pode perder por distração. Quando o trabalhador deixa de se ver como sujeito político e passa a ver-se apenas como consumidor cansado, abre-se a porta à regressão. Quando se troca consciência de classe por resignação individual, a exploração muda de roupa e entra outra vez pela sala dentro. Disseram-nos que política é coisa suja, distante, assunto de outros.
Mentira útil a quem manda. Toda a coreografia social é política: o salário que chega curto ao fim do mês, a renda que expulsa, o transporte que falha, a creche que falta, o contrato precário, o recibo verde mascarado de liberdade, o tempo roubado à família, a exaustão vendida como mérito. Tudo isso é política escrita no corpo de quem trabalha. E por isso importa olhar sem ingenuidade para cada novo “pacote laboral” apresentado como modernização inevitável, flexibilidade necessária ou adaptação ao mercado. Muitas vezes, por trás do vocabulário limpo e técnico, esconde-se a velha ambição de sempre: trabalhar mais, pagar menos, fragilizar a negociação coletiva, diluir horários, normalizar a disponibilidade permanente e transferir todo o risco económico para quem depende do salário ao fim do mês.
Chamam reforma ao que tantas vezes é recuo. Chamam eficiência ao desgaste humano. Chamam oportunidade ao que não passa de pressão organizada. Quando governo e patronato se apresentam como cirurgiões da economia, convém perguntar quantas vezes entram no bloco operatório apenas para meter mais fundo o dedo na ferida aberta de quem trabalha. Porque a precariedade não se cura com mais precariedade. A insegurança não se resolve com contratos frágeis. A pobreza laboral não desaparece com discursos sobre competitividade. Nenhum país se fortalece empobrecendo quem o sustenta todos os dias.
E não começou com Karl Marx, embora ele lhe tenha dado nome e análise. A exploração da mão de obra é velha como os impérios, antiga como a servidão, persistente como a ganância. Marx não inventou a ferida; apontou-a. Outros antes dele já a sangravam.
Por isso, neste 1.º de Maio, esperei menos nostalgia e mais memória ativa. Menos celebração vazia e mais organização concreta. Menos distração e mais vigilância.
E talvez seja precisamente dessa distração coletiva, dessa ausência de consciência política e de classe, que nasçam tantas derrotas silenciosas. Porque enquanto o trabalhador se convence de que política não lhe diz respeito, outros decidem por ele. E assim passam pacotes laborais vendidos como progresso inevitável, mas que pouco ou nada oferecem a quem vive do salário e muito concedem a quem vive do lucro. A despolitização do trabalhador talvez tenha sido uma das maiores vitórias do poder económico: um povo cansado, dividido e desinformado protesta menos, organiza-se menos e aceita mais facilmente aquilo que noutras décadas teria enchido ruas, praças e fábricas de indignação.
Porque nenhum direito está garantido para sempre. Porque quem vive do seu trabalho continua a sustentar o mundo. E porque enquanto houver riqueza concentrada num lado e cansaço acumulado no outro, a luta não acabou — apenas mudou de turno.
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