Até sempre Bonnie Tyler (1951–2026)

 


(image by youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=KqBZAxCfWHA&list=PLdB2qly-JTgAMYiE6Q4tKBsni-Td-qmU8 )


A senhora já partiu, faz uns dias, e só agora é que venho aqui falar dela, do meu jeito, na minha vivencia, no meu tempo.

Bonnie Tyler não é só aquela voz áspera, como se desafiasse permanentemente uma garganta cansada, e que, mesmo assim, cantava para nos fazer sentir coisas na intimidade e outras em grupo, com os amigos que numa pista de dança onde nos contorcíamos ao ritmo (por vezes fora dele) com as batidas acompanhadas de uma voz rasgada que servia tantas vezes de veiculo para a lágrima ou para o beijo atrevido, ou apaixonado dos primeiros amores, Bonnie Tyler faz parte desse universo de vidas vividas sem redes, telemóveis, onde nos tocávamos, onde coreografávamos os passos ao encontro do outro, ela e toda uma geração de 80, como Tina Turner, George Michael, Freddie Mercury, David Bowie ou Prince, e a lista continuaria, artistas que, um a um, foram saindo de cena, mas que nunca abandonaram verdadeiramente as nossas pistas de dança, as cassetes gastas, os vinis com mais um risco, os rádios ligados até tarde e a memória de quem cresceu com eles.

Bonnie Tyler cantou-nos a vida inteira sem nunca saber quem éramos.

Foi ao som de Total Eclipse of the Heart que muitos descobriram que o amor também podia doer, que havia despedidas antes mesmo de existirem palavras para as explicar, que um coração podia ficar às escuras e, ainda assim, continuar a bater por alguém.

Foi com Here She Comes que imaginámos a força de quem chega para mudar tudo, como se cada entrada numa pista de dança, cada olhar cruzado num bar, cada rapariga ou rapaz que nos fazia prender a respiração pudesse, afinal, ser o princípio de uma história daquelas que acreditávamos só acontecerem nos filmes.

Em If You Were a Woman (And I Was a Man) percebemos, talvez sem nos apercebermos, que amar também era tentar vestir a pele do outro, compreender os seus silêncios, as suas fragilidades, os desencontros e as pontes que tantas vezes construímos tarde demais. Quantos amores começaram, quantos casamentos nasceram, quantas promessas foram feitas ao som daquela voz rouca... e quantos divórcios acabaram por encontrar, nessas mesmas canções, um lugar seguro onde deixar cair a última lágrima.

Mas houve uma música que deixou de lhe pertencer para passar a ser de todos nós.

Holding Out for a Hero nunca foi apenas uma canção. Foi um grito. Era o refrão que berrávamos sem vergonha, de braços no ar, convencidos de que o mundo inteiro cabia dentro de uma noite. Procurávamos um herói sem perceber que cada um lhe dava um rosto diferente: o primeiro amor, um pai, uma mãe, um amigo, um filho, alguém que nos viesse salvar das nossas próprias tempestades.

Talvez seja por isso que essa música nunca envelheceu. Porque, no fundo, continuamos todos à espera desse herói. E, enquanto a voz de Bonnie Tyler ecoar algures entre as colunas de um carro, numa festa improvável ou na memória de quem viveu aqueles anos, haverá sempre uma geração inteira a cantar aquele refrão como se ainda tivesse vinte anos... não porque acreditasse que o herói viria, mas porque, durante três minutos e quarenta segundos, acreditava que ainda era possível.

Isto é o bom dos artistas, dos cantores em particular, porque mesmo sem sabermos muitas vezes uma letra do que projetam entre as linhas musicais, o ritmo, a batida, a vida transforma estes seres magníficos, e através da música, em blocos bem sólidos da nossa construção. Algures em nós há um detalhe trabalhado pelo que eles foram nas nossas vidas!

Continuarás a ser rainha em toda uma geração que jamais te esquecerá, e um dia havemos de nos encontrar numa sala de espetáculo bem diferente!


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