O ouro do futuro chama-se ÁGUA!
Proteger o ouro do futuro, faz de mim ativista!
Destruir esse ouro
não faz das empresas criminosas!
Não seria a primeira,
e decerto não será a última vez que vou ouvir ou ler que “filme é filme”,
quando eu uso os filmes como ilustração daquilo que por vezes quero partilhar
convosco, mas a verdade é que cada vez mais (se não sempre) determinada linha
de filme usa exemplos reais para conceber o guião do filme – o que vemos no
ecrã pode até ser fantasiado, mas o que está por trás dessa fantasia é bem real,
o caso está a acontecer na realidade algures no mundo, ou aconteceu!
Um desses filmes
é “007 - Quantum of Solace”, com esse senhor super interessante de seu nome Daniel
Craig, e a belíssima Olga Kurylenko, não esquecendo claro o mau da fita Mathieu
Amalric. A base do filme é que o mau da fita quer chantagear o líder boliviano
que toma o país por golpe, fazendo assinar que todos os direitos de exploração
e fornecimento de água no país fica na sua mão, para isso entre muitas outras
coisas, ele Mathieu Amalric no papel de Dominic Greene CO de uma empresa ecológica,
(onde foi que já vi uma coisa idêntica na vida real), tem no deserto boliviano
um vasto reservatório de água escondido no sobe solo. Se recordarem quando ele
pede a assinatura daquele que viria (só que não) a ser o futuro presidente
boliviano, sobre a exploração de um determinado território, ele o “presidente”
diz, algo do tipo, “aquilo é só deserto, nem petróleo tem”.
A ideia de que petróleo é o ouro do mundo, meus amores isso vem a mudar a cada dia do nosso dia-a-dia, pois água potável, água para beber, essa sim será o ouro, diamante, o que vocês quiserem, o bem mais caro e escasso do mundo num futuro muito próximo, basta que estejam atentos, e vejam quantas vezes também aqui no nosso país se tentou privatizar a água.
Quando vi este título
da imagem inicial, lembrei imediatamente deste filme, que tem como base na
construção da história um fato real, ocorrido precisamente na Bolívia.
O que aqui recordo
e vos descrevo, aconteceu de fato na Bolívia, mais precisamente no
deserto (as filmagens desse deserto, foi na verdade rodado no Deserto do
Atacama, no Chile). Bond e Camille saltam do avião onde seguiam e que foi
atacado, e caem de paraquedas numa dolina (uma grande depressão natural, não
conhecia a expressão) ao tentarem sair dali descobrem uma enorme cavidade
subterrânea onde existe um vasto reservatório de água doce, enquanto as
populações em volta estão a ficar sem água e isso a provocar deslocações em
massa para grandes centros, afinal ninguém sobrevive sem água. É aí que
percebem o verdadeiro plano do vilão Dominic Greene, controlar secretamente as
reservas subterrâneas de água da Bolívia para criar um monopólio sobre o
abastecimento de água do país.
O interessante é
que quando investigamos um cadinho que seja, descobrimos que esta ideia não
surgiu do nada. O argumento foi inspirado num acontecimento real, a chamada "Guerra
da Água de Cochabamba", ocorrida na Bolívia em 2000, quando a
privatização do abastecimento de água provocou um enorme conflito social e
protestos populares. O acontecimento deu-se de verdade, depois os argumentistas
só criaram toda uma trama em volta bem ao jeito 007, e mesmo a trama criada,
quanto não terá de verdade!?
A ciência tem
vindo a demonstrar que as alterações climáticas estão a tornar o ciclo da água
mais instável. Chove, mas quando chove é muitas vezes de forma extrema; depois
seguem-se períodos de seca cada vez mais prolongados. Fenómenos como o El Niño
tendem a produzir impactos mais intensos num planeta que já está mais quente do
que estava há cinquenta anos, e cujo o limite de 2º está para lá de ser
cumprido. Ao mesmo tempo, continuamos a contaminar rios, a destruir zonas
húmidas, a impermeabilizar solos, a retirar água dos aquíferos subterrâneos
muito mais depressa do que a natureza consegue repô-la e a consumir água como
se o amanhã estivesse garantido.
Depois existe
outro problema, talvez menos visível, mas igualmente preocupante. A água
continua fisicamente a existir, mas deixa de ser utilizável. A agricultura
intensiva, os fertilizantes, os pesticidas, a indústria, a mineração e muitos
outros fatores degradam rios e lençóis freáticos, obrigando a tratamentos cada
vez mais caros para que essa água possa voltar a ser consumida em segurança. Ou
seja, não estamos apenas a perder quantidade; estamos também e essencialmente a
perder qualidade.
E quando um
recurso começa a escassear, alguém percebe rapidamente que ele passa a ter um
enorme valor económico. Não é por acaso que, um pouco por todo o mundo, grandes
grupos financeiros e grandes empresas olham hoje para a água como um dos
negócios mais estratégicos das próximas décadas. Uns investirão legitimamente
em infraestruturas, tratamento e distribuição. Outros procurarão controlar
direitos de exploração, concessões ou posições dominantes sobre um recurso do
qual ninguém consegue prescindir. Afinal, ninguém escolhe deixar de beber água,
apresente-se ela como se apresentar, da sopa à bebida energética.
Nós, em Portugal, temos ainda outra vulnerabilidade de que raramente falamos. Muitos dos nossos maiores rios não nascem em território nacional. O Douro, o Tejo, o Guadiana e o Minho têm origem, total ou parcialmente, em Espanha. Enquanto existir cooperação entre os dois países, essa realidade dificilmente será um problema. Mas imaginemos um cenário de seca extrema e prolongada na Península Ibérica. Imaginemos que Espanha, confrontada com a necessidade de garantir água para as suas populações, para a agricultura ou para a produção de energia, vê reduzir drasticamente os caudais que chegam a Portugal. Não é um exercício de ficção científica; é uma possibilidade que obriga a pensar na gestão conjunta de um recurso que não conhece fronteiras políticas. Felizmente existe a Convenção de Albufeira, que estabelece regras de cooperação entre os dois países na gestão das bacias hidrográficas internacionais. Mas nenhum tratado consegue criar água quando ela deixa de existir. Pode regular a sua partilha; não pode substituir a chuva. E nenhuma lei ou tratado é irrevogável!
Talvez seja
precisamente por isso que devêssemos começar a olhar para a água da mesma forma
que durante décadas olhámos para o petróleo. Durante grande parte do século XX,
quem controlava o petróleo detinha uma enorme influência económica e
geopolítica. Nas próximas décadas, tudo indica que a água ocupará, cada vez
mais, esse lugar. Com uma diferença fundamental: uma sociedade consegue
adaptar-se à falta de petróleo através de novas fontes de energia. Pode
substituir combustíveis, reinventar tecnologias e alterar hábitos de consumo.
Mas não existe absolutamente nenhuma tecnologia capaz de substituir a água na
manutenção da vida. Podemos dessalinizar água do mar, reutilizar águas
residuais, melhorar a eficiência dos sistemas de distribuição ou reduzir desperdícios.
Tudo isso ajuda. Mas continuaremos sempre dependentes daquele líquido
transparente que, tantas vezes, só valorizamos quando começa a faltar.
Por isso, quando
hoje se fala de água, não estamos apenas a falar de ambiente. Estamos a falar
de economia, de agricultura, de saúde pública, de segurança, de estabilidade
social e, provavelmente, de um dos maiores desafios políticos e geoestratégicos
deste século. Talvez o verdadeiro ouro do futuro não seja dourado, nem brilhe
como um diamante. Talvez seja transparente, não tenha cheiro nem sabor, e
continue a sair da torneira enquanto ainda acreditarmos que isso acontecerá
para sempre.
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