O que nos escondem quando sabem? O Governo deve falar?
O mundo como o conhecemos está numa espiral descendente e nem serve de nada esconder, não é apenas uma coisa política, ou bélica, ou até mesmo climática, mas antes todas elas cada uma no seu tempo, em particular a climática, mas a verdade é que basta que qualquer uma delas ultrapasse o limite do copo, para esbordar e manchar toda toalha de mesa de sangue.
Refletindo
sobre este “way down” questionei-me – será que o meu ou qualquer outro governo
avisará o seu povo de que qualquer uma destas, ou umas e outras em conjunto vão
acontecer?
A
resposta é calculada e gélida de dar, e é não!
Tivemos
inúmeras guerras se contarmos apenas a partir da primeira grande guerra, se
contarmos apenas com o mundo europeísta e em nenhuma delas os governos
preveniram o seu povo, como uma mensagem clara do tipo “para a semana, esta
semana, amanhã vamos entrar em guerra”, e não o fizeram por inúmeras razões,
pois todas elas colocariam a sobrevivência desse país nesse conflito em risco,
alias poderemos até dizer que um aviso prévio do povo sobre a possibilidade
real de um conflito armado seria o mesmo que assinar uma carta de rendição,
seria entregar o país ao inimigo sem mais.
Não
é apenas uma questão de estratégia militar. A informação, em contextos de
crise, é ela própria um recurso estratégico. Décadas de investigação em
comunicação de risco demonstram que uma única mensagem governamental pode
alterar profundamente o comportamento de milhões de pessoas, desencadeando
corridas aos supermercados, levantamentos massivos de dinheiro,
congestionamentos nas principais vias de comunicação, abandono de
infraestruturas essenciais e uma quebra súbita da capacidade de resposta do próprio
Estado. A informação, quando divulgada sem o tempo, o contexto ou a preparação
adequada, deixa de ser apenas informação; passa a fazer parte dos
acontecimentos e a influenciá-los. É precisamente por isso que, historicamente,
tantos governos optaram pelo silêncio ou pela ambiguidade até ao momento em que
a realidade já não podia ser escondida.
Num
conflito armado toda a população é imprescindível na luta, crianças serão
eventualmente enviadas para locais menos prováveis de ataque, o interior do
país talvez, como o fez Inglaterra na segunda grande guerra, mas mulheres e
homens adultos são necessários na defesa da soberania do país, e um anúncio
dessa natureza provocaria um êxodo como o que aconteceu no inicio da guerra
recente, já com 4 anos, da Ucrânia, onde homens e mulheres fugiram enquanto
puderam do país até essa fuga ser proibida pelo governo.
A
História mostra, aliás, que os grandes movimentos de população começam muitas
vezes antes dos grandes combates. Basta que a perceção da ameaça seja
suficientemente credível para que milhões de pessoas tentem salvar aquilo que
conseguem transportar consigo: a família, alguns documentos, um pouco da sua
vida. O êxodo deixa então de ser apenas uma consequência da guerra;
transforma-se numa variável da própria guerra, alterando a capacidade
económica, logística, produtiva e até militar de um país.
Por
isso, também por isso, que nenhum governo vai comunicar de forma clara que vai
entrar em guerra, seja com quem for, os governos, pelo menos em casos como
este, são uma espécie de pai e mãe do povo, a esconder aquilo que as crianças
estão cansadas de saber, as crianças somos nós que sem certezas sabemos que
algo está errado, mas aguardamos a confirmação dos nossos “pais” sobre quando
temos de ficar fechados em casa, e ou devemos correr.
Mas
a pergunta seguinte que se me coloca é, e se a catástrofe for climática, deve o
nosso ou qualquer outro governo esconder do povo, que se aproxima algo mais que
um “El Niño” mais severo? Afinal não é um conflito, não são precisos milhares
de pessoas adultas para lutar, na verdade quem é que vai lutar contra a chamada
mãe natureza!? Vão fazer o quê exatamente, dar um tiro no sol, ou amarrar uma
corda à Amazónia e afogá-la?
É
aqui que o raciocínio parece deixar de ser tão linear. Curiosamente, os mesmos
organismos internacionais que estudam a comunicação em situações de emergência
defendem hoje uma posição quase oposta àquela que durante décadas dominou a
gestão das guerras. No caso dos riscos naturais e climáticos, o consenso
científico aponta para que uma população bem informada é, em regra, uma
população mais resiliente. A informação deixou de ser encarada como um fator de
instabilidade e passou a ser entendida como uma das primeiras linhas de
proteção civil, permitindo que famílias, instituições e comunidades disponham
do único recurso que nunca pode ser recuperado depois de perdido: tempo.
Mas
também aqui existe uma dificuldade profundamente humana. A psicologia tem
demonstrado que mesmo perante avisos claros e fundamentados, uma parte
significativa das pessoas tende a acreditar que o pior acontecerá sempre aos
outros. Chamam-lhe "viés da normalidade": a tendência para assumir
que amanhã será essencialmente igual a ontem. Talvez seja essa uma das razões
pelas quais tantas pessoas permanecem em casa perante incêndios, cheias,
furacões ou outros desastres anunciados, convencidas de que, desta vez, nada de
verdadeiramente grave lhes acontecerá.
Que
deve então um governo fazer numa situação destas?
Crise
política
Se
a guerra parece justificar o silêncio dos governos e uma catástrofe climática
nos faz questionar se esse silêncio continua a ser legítimo, então talvez
exista um terceiro cenário onde o dilema se torna ainda mais desconfortável:
uma crise política. Não uma crise feita de debates parlamentares ou de eleições
antecipadas, mas uma crise que coloque em causa a própria sobrevivência da
ordem democrática. Imaginemos a iminência de um golpe de Estado. Deve um
governo democraticamente eleito comunicar ao povo que existe essa
possibilidade? Ou deve guardar para si essa informação até ao momento em que
agir deixe de comprometer a própria defesa das instituições?
A
resposta, uma vez mais, parece recusar qualquer simplicidade. Se comunicar
demasiado cedo, poderá alertar aqueles que conspiram, destruir investigações em
curso, precipitar acontecimentos ou até incentivar quem ainda hesitava a
juntar-se ao golpe. Se nada disser, será inevitavelmente acusado de esconder ao
povo uma ameaça que põe em causa a própria democracia. A comunicação deixa,
novamente, de ser apenas um ato de transparência para passar a ser uma variável
que altera os próprios factos.
Este
dilema acompanha o pensamento político há séculos. Nicolau Maquiavel foi dos
primeiros a admitir, de forma frontal, que o governante nem sempre pode agir
segundo a moral comum quando está em causa a sobrevivência do Estado. Mais
tarde, Giovanni Botero desenvolveu aquilo que ficaria conhecido como a
"Razão de Estado": a ideia de que existem circunstâncias
extraordinárias em que preservar o Estado é a condição necessária para que
todos os outros direitos continuem a existir. É uma ideia profundamente incómoda,
talvez porque nos obriga a admitir que, em determinados momentos, dizer toda a
verdade pode colocar em risco a própria comunidade a quem essa verdade
pertence.
Mas
esta nunca foi uma ideia consensual. John Locke defenderia precisamente o
contrário: o Estado existe porque o povo assim o quis, e não o inverso. O poder
político é apenas um mandato temporário conferido pelos cidadãos para proteger
os seus direitos e as suas liberdades. Esconder sistematicamente informação
àqueles de quem deriva a própria legitimidade do poder aproxima-se
perigosamente da quebra desse contrato. Jean-Jacques Rousseau iria ainda mais
longe. Se a soberania pertence ao povo, como pode alguém decidir ocultar
informação ao verdadeiro soberano? Não será essa ocultação uma forma de retirar
ao povo a capacidade de decidir sobre o seu próprio destino?
Também
Immanuel Kant dificilmente aceitaria esta lógica. Para ele, a verdade não
depende das consequências que produz. Não deixa de ser um dever apenas porque a
mentira ou o silêncio parecem oferecer um resultado mais conveniente. Se
admitirmos exceções sempre que julgamos servir um bem maior, acabamos por
fragilizar o próprio valor da verdade. Mais perto de nós, Karl Popper lembraria
que muitas das grandes tragédias políticas do século XX começaram precisamente
quando os governantes convenceram os seus povos de que determinadas
circunstâncias justificavam a suspensão temporária dos princípios democráticos.
A História mostra-nos como essas exceções têm uma inquietante tendência para
deixarem de ser excecionais.
E,
no entanto, Hannah Arendt também nos recorda que a política nunca viveu apenas
de princípios absolutos. Governar implica decidir em territórios onde raramente
existem soluções perfeitas. A confiança dos cidadãos depende da verdade, mas a
sobrevivência das instituições pode, em determinados momentos, exigir reserva.
Talvez seja precisamente aí que reside a tragédia da política: não na escolha
entre o bem e o mal, mas na necessidade de escolher entre dois bens que entram
em conflito.
Talvez
seja por isso que as maiores crises das democracias sejam também aquelas onde
os seus princípios mais colidem entre si. O dever de proteger pode exigir
silêncio. O dever de respeitar os cidadãos exige informação. A segurança pede
reserva; a liberdade reclama transparência. Nenhum destes valores parece
absoluto quando confrontado com a realidade. Todos dependem do contexto, do
momento e, sobretudo, da responsabilidade — e da consciência — de quem decide.
Há
ainda uma perspetiva particularmente desconfortável, apresentada por Michael
Walzer, que talvez resuma melhor este impasse do que qualquer tentativa de
resposta. Walzer admite que podem existir circunstâncias em que um governante
tenha de fazer aquilo que considera moralmente errado para alcançar aquilo que
politicamente é necessário. Não porque a decisão deixe de ser errada, mas
porque qualquer alternativa produziria um mal ainda maior. Chamou a esse dilema
o problema das "mãos sujas": governar pode obrigar a tomar decisões
que nunca deveriam ser celebradas, apenas suportadas.
Talvez
a verdadeira questão nunca tenha sido saber se um governo deve dizer sempre a
verdade ou se, pelo contrário, deve escondê-la. Talvez a pergunta seja outra,
bem mais inquietante: haverá um instante em que uma democracia, para continuar
a existir, é obrigada a comportar-se de uma forma que, em circunstâncias
normais, consideraria incompatível com os seus próprios princípios? E, se esse
instante existir, quem decide onde termina a proteção do Estado e onde começa a
traição da confiança do seu povo? Será que o verdadeiro teste de uma democracia
acontece precisamente quando ela é obrigada a escolher entre preservar a sua
existência ou permanecer absolutamente fiel aos valores que lhe deram origem?
Acrescento
uma nova interrogação, quantas vezes, mesmo sem crises políticas, os governos
no mundo mentiram, ou traíram em alguma medida a confiança dos seus eleitores,
desde programas eleitorais que não passaram de fabulas, a esquemas políticos e
financeiros que sacaram milhões dos contribuintes sem qualquer escrúpulo.
Todo
este raciocínio e o que se segue não passa de uma reflexão, e de um conjunto de
questões, muitas questões!
Porque
então nos escondem o óbvio?
Na
página 174 do livro “O decénio decisivo” de Luiz Marques, um académico brasileiro
com um percurso sólido, tendo um destaque recente assente na questão climática,
como é exemplo este titulo, podemos ler “mesmo se as emissões provenientes
dos combustíveis fósseis fossem eliminadas imediatamente, as emissões do
sistema alimentar, por si só, tornariam impossível limitar o aquecimento a
1,5ºC e dificultariam atingir até mesmo a meta de 2ºC”, seja, os estudiosos,
os cientistas já sabem que não há retorno possível, não tem como evitar os
acontecimentos que a sétima arte tanto divulga, mais ou menos fantasiado, se quem
estuda sabe então do que nos espera, os governos também sabem, e eu pergunto
algum de nós já viu algum governo comunicar o que o povo deve fazer para se
preparar?
Vá,
devemos fazer a devida ressalva ao governo francês que sem dizer, disse, preveniu
o seu povo, talvez possamos estar a assistir a uma mudança de paradigma.
Durante grande parte do século XX, os governos tendiam a ocultar ou a minimizar
riscos considerados capazes de provocar pânico coletivo. Em 2025, porém, o
Governo francês anunciou a distribuição de um manual de sobrevivência a todos
os lares, recomendando a constituição de um kit de emergência e preparando a
população para cenários que iam desde catástrofes naturais até conflitos
armados. Não anunciou uma guerra, nem afirmou que ela era inevitável; escolheu,
antes, preparar os cidadãos para a possibilidade de viverem uma crise. Talvez a
diferença entre alarmar e preparar seja mais subtil do que à primeira vista
parece. Será que Macron leu Fran H. Norris?
Seja,
o trabalho de trabalho de Luiz Marques, comunica-nos que façamos o que
fizermos, se bem que não temos feito praticamente nada, o planeta vai aquecer,
as correntes marítimas vão alterar-se, como consequência o clima em todo mundo
vai manifestar-se de forma violenta, e na consequência deste último “EL Niño”
temos ouvido meteorologistas e outros estudiosos climáticos a comunicarem que
serão não apenas mais frequentes, como serão cada vez mais intensos,
traduzindo, mais devastadores.
Olhemos
o nosso país nos últimos dias. Tivemos localidades com mais de 40ºC, na cidade
do Porto o metro teve de parar, porque os sistemas de ar-condicionado perderam
a capacidade de transformar o ar atmosférico em ar fresco, e por isso não
apenas o nosso país, mas outros onde o metro é de superfície estão a preparar
calibrações desses ar-condicionado para temperaturas mais elevadas que os 35ºC
que tem como limite neste momento. Almada esteve ou está com limitações de
abastecimento de água, e segundo o IPMA a localidade terá atingido os 38ºC –
quantas mais localidades vão enfrentar limitações às atuais condições de vida
se o clima se apresentar mais severo? Que limitações serão essas, em que medida
o nosso governo, as nossas instituições estão preparadas e ou a se preparar
para enfrentarmos nós enquanto povo um incidente climático?
Segundo
dados da PORDATA tínhamos em 2025, 23,2% de pessoas idosas em Portugal, pessoas
com 65 anos ou mais, pessoas muito mais suscetíveis a estas variações climáticas,
ondas de calor, a construção habitacional portuguesa não está preparada nem
para o calor extremo, nem para o frio, estaremos nós, e ou as nossas instituições
preparadas para acudir 23,2% da população?
Não
devia o nosso governo e demais governos seguir o exemplo do governo francês e sugerir
que a população tuga pense em se preparar para a eventualidade, não apenas climática,
mas qualquer outra?
Talvez
a maturidade de uma democracia não se meça apenas pela forma como escolhe os
seus governantes, mas também pela confiança que estes depositam no seu povo
quando o futuro deixa de ser uma promessa e passa a ser uma ameaça.
Conclusão
Ao
longo desta reflexão procurei colocar lado a lado cenários aparentemente
distintos: a guerra, a crise climática e a crise política. À primeira vista,
pouco parecem ter em comum. No entanto, todos conduzem à mesma questão
essencial: qual é o verdadeiro dever de um governo perante o conhecimento de
uma ameaça?
A
História parece dizer-nos que, perante a guerra, o silêncio foi frequentemente
entendido como uma necessidade estratégica. A ciência contemporânea da
comunicação do risco diz-nos precisamente o contrário quando a ameaça é natural
ou climática: uma população informada tende a ser uma população mais preparada
e, por isso, mais resiliente. A filosofia política, por sua vez, divide-se há
séculos entre aqueles que entendem que preservar o Estado pode justificar a
reserva de informação e aqueles que defendem que esconder a verdade ao povo
representa, por si só, uma violação dos princípios democráticos.
Nenhuma
destas perspetivas consegue, isoladamente, responder às questões que foram
sendo colocadas. Talvez porque todas partem de uma premissa diferente sobre
aquilo que deve ser protegido primeiro: o Estado, as instituições, a liberdade
ou as pessoas.
Mas
existe um aspeto que atravessa todos estes cenários e que talvez mereça uma
reflexão ainda mais profunda. Em todos eles existe alguém que sabe mais do que
os restantes. Um governo, uma comunidade científica, um serviço de informações,
uma instituição internacional. A verdadeira questão talvez deixe então de ser
apenas o que sabem, mas o que fazem com aquilo que sabem.
Se
o conhecimento de uma guerra iminente pode justificar o silêncio para preservar
a capacidade de defesa de um país, poderá o mesmo argumento ser utilizado
perante uma crise climática cuja evolução é descrita há décadas pela própria
comunidade científica? Se sabemos que uma parte significativa das alterações em
curso dificilmente poderá ser revertida, fará sentido continuar a comunicar
apenas medidas de mitigação sem iniciar, de forma clara, uma preparação das
populações para cenários de adaptação? Ou será que fazê-lo significaria admitir
publicamente uma dimensão do problema para a qual os próprios governos ainda
não têm resposta?
Talvez
seja precisamente aqui que reside o maior paradoxo desta reflexão. Nunca a
humanidade produziu tanto conhecimento sobre os riscos que enfrenta e,
simultaneamente, nunca foi tão difícil perceber de que forma esse conhecimento
deve ser transformado em ação política. A ciência comunica probabilidades; os
governos têm de tomar decisões; os cidadãos procuram certezas. Mas a realidade
parece não oferecer nenhuma.
O
exemplo francês mostra que talvez estejamos a assistir a uma mudança de
paradigma. Pela primeira vez, um governo europeu optou por preparar a população
para diferentes cenários de crise sem anunciar que qualquer um deles fosse
inevitável. Não procurou alimentar o medo; procurou reduzir a vulnerabilidade.
Talvez exista, afinal, uma diferença profunda entre alarmar uma sociedade e
prepará-la. Talvez informar não seja sinónimo de assustar, da mesma forma que
esconder não significa necessariamente proteger.
Ao
mesmo tempo, permanece uma inquietação difícil de ignorar. Preparar uma
população implica confiar nela. Significa acreditar que os cidadãos são capazes
de receber informação séria sem que isso conduza inevitavelmente ao caos. Mas
estaremos nós preparados para essa confiança, nós enquanto povo português, e
nós enquanto povo mundial? Ou continuamos presos à ideia paternalista de que o
povo deve saber apenas aquilo que os seus governantes entendem ser conveniente?
Também
não podemos ignorar a responsabilidade individual. Mesmo quando os avisos
existem, a psicologia mostra-nos que o ser humano tende a acreditar que as
grandes tragédias acontecem sempre aos outros. Talvez nenhum governo consiga
vencer esse "viés da normalidade". Talvez a comunicação mais
transparente do mundo continue a encontrar uma sociedade pouco disponível para
acreditar no improvável enquanto este não bater à porta.
E
é precisamente por isso que esta reflexão não pretende encontrar culpados nem
apresentar soluções. Pretende apenas reconhecer que as democracias do século
XXI enfrentam desafios para os quais as respostas do século XX poderão já não
ser suficientes. Talvez seja necessário repensar o equilíbrio entre
transparência, segurança, preparação e confiança. Talvez seja necessário
aceitar que proteger um povo não significa apenas garantir a sua sobrevivência
física, mas também respeitar a sua capacidade de compreender, decidir e
participar na construção do seu próprio futuro.
No
fim, continuo sem conseguir responder à pergunta inicial.
Não
sei se um governo deve dizer tudo.
Não
sei se deve esconder alguma coisa.
Não
sei sequer se existe uma resposta moralmente correta que possa ser aplicada a
todas as crises.
Mas
sei que existe uma pergunta que me parece impossível de abandonar.
Se
um governo sabe que se aproxima uma ameaça suficientemente grave para alterar
profundamente a vida do seu povo, em que momento o silêncio deixa de ser
prudência e passa a ser omissão?
E
talvez exista uma pergunta ainda mais inquietante.
Quando
esse momento chegar... quem decidirá que ele chegou?
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