Acredito que ajudei a construir Homens!
Dedo duro!
Rato!
Chibo!
Bufo!
São todos nomes que são dados a pessoas que fazem o que fiz quando estive
na tropa, mas querem mesmo saber, …não
me arrependo, porque graças a isso, acredito que ajudei a fazer homens, com H
grande!
Hoje no café habitual com a minha cúmplice de condomínio recordei uma fase
da minha vida, o serviço militar obrigatório (SMO) – foi uma época algo
solitária, ambiente de tropa, muita testosterona no palco do “show off “ muito
egos para gerir uns com os outros, e no meu caso, (mas não só), a gestão da
minha orientação sexual nesse ambiente que equiparo a uma equipa de futebol
ainda hoje século XXI, tristemente o digo.
Na época não tinha namorado, e embora goste muito da minha família, não sou
cola, e depois aquela era a primeira vez que me via livre das amarras da mãe ou
do pai, e por isso geria as minhas vindas a casa tendo a folha de serviço como
marcação.
Quem por lá passou sabe que havia três semanas seguidas que resultavam em
apanhar o fim de semana de serviço, e sempre que isso acontecia, eu ficava na
unidade.
Um desses finais de semana, em que o trabalho terminava às 08:00 de sábado,
depois dos meus camaradas terem todos ido embora, ou invés de ir dar uma volta
ou dormir (não precisava não tinha feito o turno da noite) decidi pegar no que
havia, e higienizar a nossa coberta e “salão” de banho (era uma coisa enorme).
Vassoura na mão, mangueira e o detergente tosco que havia disponível ai vou eu –
e na primeira fase da limpeza, dei conta de haver todo o tipo de lixo debaixo
dos cacifos, uns mais que outros, em baixo e em cima, por isso tomei nota de
todos e redigi uma espécie de relatório (sempre gostei de escrever) e entreguei
o Sr Sargento FZE Ferreira, nossa patente mais elevada e responsável pela nossa
companhia.
Ele leu, e levou-nos para uma sala e de forma meio alegórica alertou para a
necessidade de haver mais cuidado com a higiene do espaço que era de todos, a
nossa coberta, e se fosse só isso até estaria bem, o problema foi que ele nomeou
quem foi o gajo que lhe disse da sujidade, e estão a ver o resultado, um grupo
de alguns dos meus camaradas não achou piada, mas estávamos na tropa, e se tem
coisa que o FZE Ferreira era, era justo, e nada de represálias, bora lá usar
isto para melhorar.
Não me recordo do nome, sei que os pais dele tinham um mini-mercado, e ele
até tinha sido um dos que mais puto ficou comigo, mas a verdade é que o que eu
disse era verdade, e que depois do raspanete do Sr FZE Ferreira, nós tínhamos de
fazer alguma coisa, e então fizemos, e com tanta qualidade que quebrou a
barreira do som da competência.
Então esse camarada, trazia da loja dos pais, com talão pois tá claro,
detergente com aroma, e ambientadores, daqueles que se levantava a tampa e iam
libertando o aroma escolhido, dividindo a despesa por todos.
Porque curiosamente a nossa coberta tinha 4 cotés (espécie de quarto com
seis ou oito beliches cada um) dividimos também a tarefa, criamos uma escala,
um coté por semana, dava um mês.
Houve um dia, que se não estou em erro foi o dia da unidade, ou perto disso
que o Almirante responsável pela unidade militar de Vila Franca, acompanhado
dos respetivos sargentos fez uma revista, contrariado, por a minha corporação foi
das que mais cerveja bebeu, e teve uns episódios lamentáveis de chegar a
entupir sanitários com garrafas de cerveja, nem todas direitas, outra história,
agora não!
Então o Sr Almirante chega ao hall da nossa coberta e trava, ficou por
instantes ali, nós todos imóveis em sentido, chegou perto da porta dos cotés,
respirou pausadamente, e perguntou ao camarada mais próximo dele:
- Que é aquilo no muro do coté?
- Ambientadores Sr Almirante!
Murmurou algo, abanou a cabeça e dirigiu-se para a porta do “salão” de banho,
ali abanou a cabeça de forma positiva, e disse ao Sr sargento FZE Ferreira,
aqui já vi tudo que tinha para ver, terminando:
- A vontade, parabéns!
E foi-se continuando a sua visita às restantes cobertas, quando se
afastavam o maravilhoso FZE Ferreira olha para nós e pisca o olho, estava
patente na sua cara o orgulho pela sua companhia.
Recordo muitas vezes esse tempo, e até esta história, mas foi hoje ao
conversar sobre ela que me caiu a ficha de que os meus camaradas num primeiro
momento até podem ter ficado putos da vida comigo, mas o que eu desencadeei ou
terei desencadeado foi a formação, mais uma pecinha de lego, na formação de
Homens, que no futuro saberão limpar, e manter limpo os lugares por onde
passarem, e nunca olharam a tarefa doméstica em casal como uma ajuda, mas como
parte do seu compromisso de uma vida a dois!
Eu pelo menos quero acreditar nisso, e tem rostos desse tempo que ia gostar
de cumprimentar de novo!
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