Até já minha amiga, estou um pouco atrasado!

 



Levei o meu tempo para te falar, para nos falar – no início estava com vontade de te apontar o dedo, por não perceber porque me deixaste do lado de fora quando mais precisavas de ter pessoas como eu perto de ti, para te abraçar, para te transmitir energia positiva, para te acalmar na dor, para te elevar ainda mais alto quando houvesse paz, mas depois decidi deixar passar essa raiva com o mundo mais que contigo, e decidi que não queria escrever a reclamar, mas sim a falar de nós.

 


Nós já nos conhecemos com toda a certeza antes mesmo da terra ser habitável, andávamos por mundos distantes, um d'um lado outro do outro, e de quando em vez os nossos caminhos perdiam sinalização de lá nos cruzávamos – um dos sítios onde nos cruzávamos era no Portugal Fashion, a cada passo lá surgias tu do nada, sem acreditação, sem nada apenas um conjunto de máquinas ao pescoço (e aquela máquina mágica que sempre amei desde que vi a primeira vez) e pronto logo atrás de ti vinha alguém que dizia ao segurança – “está tudo bem!” – e lá entravas tu, para depois seres chamada à atenção porque estavas onde não devias, como sempre aliás, porque o teu olhar o teu angulo era outro, afinal não estavas ali para produzir conteúdos para revistas da especialidade, estavas ali como em muitos outros lugares pelo fascínio da imagem, pela vontade de escrever a mais brilhante das poesias sem uma única letra, porque a imagem essa gritava-nos ao ouvido, que um outro universo é possível. (photo by: Lauren Maganete 2014)

 

Mas a nossa história recente é talvez aquela que mais nos aproximou – tu dizias ás pessoas tuas amigas, nomeadamente nos eventos realizados por ti e ou para ti – “Este é o meu amigo João Paulo, este homem salvou-me!” – e eu prontamente retorquia – “Não digas isso, se calhar salvamo-nos!” – e lá soltavas uma gargalhada, embrulhada num abraço, e seguias afirmando – “Este homem salvou-me!” – de que servia eu dizer que não tinha feito nada disso, e que se calhar nos tínhamos salvado um ao outro.

O salvamento de que falas vinha na forma de uma prancha de “Stand up paddle”, e os nossos rios, todos eles pelos quais passamos, e não desfazendo o maridão que nos ensinou a fazer Stand Up Paddle, especialmente aqueles que fizemos sozinhos – há em nós uma cumplicidade forte.

Lembras como compramos a prancha do marido e a tua?

Ligaste e disseste “quero ir contigo para o rio”, sabendo que o LIDL ia ter pranchas combinamos, de ir cada qual ao seu supermercado e se não houvesse num, o outro comprava duas, uma par ati outra para o marido, e assim foi, dois loucos ao telefone – “Tens aí?”; “Tenho e tu?”; “Também” – e desatamos à gargalhada cada um do seu lado das ondas da comunicação, para logo depois combinar amanhã, às 7a.m. nas bombas, para depois seguirmos.

De Coimbra até ao Minho fomos quase a todos os rios - fizemos talvez uns dois ou três cortejos de Natal no rio Cavado, junto de Esposende, patrocinado pelo meu bom amigo Tó...



...corremos o nosso Douro em tantas vertentes, fomos fazer vindimas, comer figos, e apanhar flores ao Sousa - mas também eram bons os figos do Douro ali ao lado de Entre-os-Rios a caminho do Paiva.

O horror que foi fazer o Ave, lembras da outra tonta a andar de boia puxada pela mota d'água e ela de boca aberta, ahahahahahahahahahah nós só pensávamos nas belas das colónias de bactérias que tínhamos visto a boiar um pouco mais acima - sabes que mais, essa foi a primeira vez que fomos ao mar.

Tenho saudades de ti!
Deves com toda a certeza recordar porque te disse mais que uma vez, porque nos dissemos um ao outro depois, que o que mais amávamos nas nossas madrugadas e manhãs no rio era os nossos silêncios. 

Aliás eu tinha de te dizer que adorava, porque a primeira vez que isso aconteceu, eu senti-me tão livre por mim e por ti, porque só quem nos visse de fora entendia isto - chegávamos a primeira coisa era aquele abraço de quem se ama sem cobrar, depois as peripécias, a minha vontade de entrar logo no rio e por isso enchia a prancha seguida, e tu sempre no teu devaneio, com pausas para fotografar, ora o rio, ora eu, ora as flores, ora os patos, e a prancha por encher, ai mulher que agonia ahahahahahahahahah, e durante tudo isto não nos calávamos, enchíamos o ar de verbo e gargalhadas.

Finalmente lá entravamos no rio e a conversa continuava, até que de repente - ... - o silêncio tomava lugar nas remadas de cada um, e quando isso aconteceu a primeira vez fiquei a observar, e a refletir...

Será que disse alguma coisa que ela não gostou? 

Será que ela acha que disse algo que não devia e agora não segue? 

Para depois perceber que não era nada disso, apenas aquele silêncio fazia parte da conversa, uma espécie de intervalo para dar lugar ás notas musicais da água, dos pássaros, das folhas a vibrar ao vento, para no momento seguinte explodirmos com uma lembrança, com algo que ficou por dizer, ou porque a conversa é como diz o ditado - é como as cerejas, e nunca acabam!

Quando te disse a primeira vez que de todas as coisas aquilo que mais amava em nós era esse silêncio sem cobrança, recordo que nos olhamos e sorrimos, e para bom entendedor o silêncio basta!

Vimos raposas, vimos javalis, tartarugas, e até cobras daquelas que sabemos ao que vem não das outras, tu apaixonaste-te pelo rio como um ser, eu apaixonei-me entre eles pelo Arda, mas o que nos divertimos no Cavado a subir um açude a seguir ao outro - recordas a primeira vez que tiramos a quilha, foi no Mondego, para descermos um pequeno rápido baixinho, bem o que nos matamos a rir, foi a pura da loucura, e no Cavado foi descer aquelas pequenas gargantas, onde a água mostrava a sua força, tão doidos, tão soltos, tão livres, ...sinto saudades tuas, e ainda agora começaste essa viagem final.
Temos milhentas fotos dos nossos rios, mas tem uma que me enche porque fui de fato feliz,...esta:


Onde quer que estejas para chegar, vê se tem rios bons para podermos navegar, daqui a nada estou ai!

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