Fomos avisados, mas preferimos sempre o lucro! Agora temos o futuro penhorado!
O livro O Decénio Decisivo não deixa de me causar repulsa. E não, não é porque esteja
mal redigido ou porque a sua estrutura ortográfica esteja mal construída. Nada
disso. O que verdadeiramente me enoja é a confirmação de uma impressão que há
muito tenho sobre os discursos demagógicos em torno das energias limpas, dos
carros elétricos, da proteção do ambiente, do degelo e da Amazónia, coitadinha.
Na Parte
II, a partir da página 233, a leitura é clara como água — não contaminada, está
claro! De um lado, temos o discurso limpinho das energias renováveis, nas quais
não faltam investimentos por parte de quem tem acesso a esse mercado. Do outro,
impõe-se uma política de consumo de combustíveis fósseis, porque, afinal, há
barris de petróleo e interesses financeiros que é preciso rentabilizar.
Enquanto houver políticos com participações em empresas petrolíferas, ou até
proprietários de explorações de petróleo, o discurso ecológico dificilmente
estará livre de manchas de crude.
Entre 2020
e 2021, o investimento em energias fósseis foi de 297,28 mil milhões de
dólares, enquanto o investimento em energias limpas ficou pelos 234,36 mil
milhões. Ou seja, continua-se a investir nas energias fósseis como se não
existisse uma alternativa limpa. Mas, acima de tudo, continua-se a apostar
nelas porque há toneladas de reservas que precisam de ser vendidas.
E é aqui
que entra a velha conhecida de tantas decisões humanas: a ganância. A procura
incessante do lucro, a necessidade de produzir mais, vender mais e consumir
mais, mesmo quando já existem sinais evidentes de que esse caminho tem
consequências. Porque esta malta não investe para ser pobre, muito menos para
ser caridosa com alguém — e menos ainda com o meio ambiente.
Não se
trata de defender que, de um dia para o outro, poderíamos ter abandonado todos
os combustíveis fósseis, nem de fingir que as alternativas estiveram sempre
disponíveis em condições que permitissem substituir integralmente as fontes de
energia existentes. Trata-se, isso sim, de reconhecer que houve décadas para
procurar soluções, desenvolver tecnologias, melhorar a eficiência e moderar o
consumo. Houve invenções, avanços científicos e alternativas que, mesmo sem
resolverem tudo, poderiam ter permitido fazer melhor do que fizemos.
Podíamos
não ter sido totalmente limpos, mas podíamos ter sido muito menos sujos.
Podíamos ter consumido menos, desperdiçado menos e investido mais cedo na
transição energética. Podíamos ter tomado decisões que colocassem o futuro
coletivo acima do lucro imediato. Mas isso teria exigido aceitar limites,
abdicar de algumas margens de lucro e reconhecer que nem tudo o que é
economicamente rentável é socialmente aceitável.
É daqui
que nasce o meu nojo, o meu repúdio por esta fantasia de que os governos e os
políticos são eleitos para proteger as populações, para lhes proporcionar uma
qualidade de vida compatível com aquilo que deveria ser o mínimo razoável para
viver com dignidade.
O próprio
título do livro é suficientemente expressivo e revelador daquilo que nos
espera. Chamá-lo O Último Decénio é anunciar uma finitude, a aproximação
de algo que, a continuar tudo como está, poderá tornar-se inevitável. E, quanto
a isso, tenho pessoalmente poucas dúvidas. Não sou especialista em ambiente,
não sou biólogo, mas há demasiado tempo que tenho a certeza de que estamos
perante um processo de viragem. E essa viragem não será bonita para muitos,
mesmo muitos de nós.
Nessa
mudança, o maestro desta orquestra será a conhecida Mãe Natureza. E, como
qualquer mãe, não nos poupará ao raspanete. A diferença é que esta é uma mãe
das antigas: daquelas que não deixam passar as asneiras sem consequências.
Lamento
pelos mais novos, como, naturalmente, lamento por todos nós. Mas lamento ainda
mais por eles, porque serão obrigados a suportar as consequências de decisões
tomadas sem pensar no longo prazo — ou, talvez seja mais correto dizer, de
consequências que foram deliberadamente ignoradas.
E isto não
é propriamente uma novidade. Se a memória não me falha, já em 1954 havia
avisos. Na verdade, os alertas científicos são ainda bastante anteriores. Vale
a pena recordar cinco momentos que ajudam a perceber há quanto tempo conhecemos
os riscos associados à utilização de combustíveis fósseis.
1896 —
Svante Arrhenius: o primeiro cálculo do aquecimento provocado pelo CO₂.
O
cientista sueco Svante Arrhenius publicou um estudo em que calculava como as
alterações na concentração de dióxido de carbono na atmosfera poderiam
modificar a temperatura da Terra. Foi um dos primeiros a quantificar o efeito
do aumento de CO₂ associado à queima de carvão e de outros combustíveis
fósseis. Não tínhamos ainda a dimensão do problema que hoje conhecemos, mas a
base científica já estava lançada.
1938 —
Guy Stewart Callendar: o aquecimento já estava a acontecer.
O
engenheiro britânico Guy Stewart Callendar reuniu dados sobre a temperatura
global e a concentração de CO₂ na atmosfera. Concluiu que ambas estavam a
aumentar e relacionou esse fenómeno com a combustão de combustíveis fósseis. Já
não se tratava apenas de uma hipótese teórica sobre o que poderia acontecer:
havia observações que apontavam para um aquecimento em curso.
1954 —
Um aviso que chegou aos interesses petrolíferos.
Um estudo
desenvolvido no California Institute of Technology (Caltech), com financiamento
de uma organização apoiada pela indústria petrolífera, identificou a
possibilidade de as alterações na concentração atmosférica de CO₂, provenientes
da utilização de carvão, petróleo e gás, virem a ter consequências
significativas para a civilização. Os resultados foram comunicados formalmente
aos representantes da indústria em março de 1955.
O que
torna este episódio particularmente relevante é a proximidade entre o
conhecimento científico e os interesses económicos envolvidos. Os riscos
começavam a ser conhecidos por quem tinha uma posição privilegiada para
compreender as consequências da utilização continuada dos combustíveis fósseis.
A partir daqui, a pergunta torna-se inevitável: até que ponto a procura do
lucro condicionou as decisões tomadas?
1957 —
Roger Revelle e Hans Suess: a atmosfera não ficaria protegida pelos oceanos.
O
oceanógrafo Roger Revelle e o químico Hans Suess publicaram um estudo que
questionava a ideia de que os oceanos absorveriam facilmente todo o CO₂
libertado pela atividade humana. Alertaram para a possibilidade de a
concentração atmosférica continuar a aumentar à medida que crescia a utilização
de combustíveis fósseis. A humanidade estava a realizar uma experiência de
enorme escala com o planeta, sem poder prever com exatidão todas as suas
consequências.
1959 —
Edward Teller: um aviso diretamente aos dirigentes da indústria petrolífera.
Num
encontro organizado para assinalar o centenário da indústria petrolífera
norte-americana, o físico Edward Teller explicou aos representantes da
indústria como a combustão de combustíveis convencionais libertava CO₂ e como
este gás contribuía para o efeito de estufa. Alertou para o risco de
aquecimento global, degelo e subida do nível do mar, com consequências
potencialmente graves para as cidades costeiras. O aviso foi feito perante um
público que incluía dirigentes da indústria e responsáveis governamentais.
Cinco
momentos. Mais de seis décadas entre o primeiro cálculo quantitativo e o alerta
direto aos dirigentes petrolíferos. E isto sem contar com os trabalhos
científicos anteriores sobre o efeito de estufa.
Durante
todo este tempo, a ciência foi acumulando conhecimento, a tecnologia foi
evoluindo e surgiram oportunidades para alterar o rumo das coisas. Não tínhamos
necessariamente todas as respostas, nem todas as soluções estavam prontas a ser
implementadas. Mas tínhamos razões suficientes para agir com prudência,
investir na mudança e, pelo menos, moderar um modelo de desenvolvimento assente
no consumo crescente de recursos finitos.
O
problema não foi apenas não termos sabido. Foi também não termos querido
abdicar daquilo que nos dava lucro.
A ganância
não inventou todos os obstáculos à transição energética, nem explica sozinha
todas as decisões tomadas ao longo destas décadas. Mas ajuda a compreender por
que razão, perante riscos conhecidos e alternativas progressivamente mais
viáveis, continuámos tantas vezes a privilegiar o benefício imediato em
detrimento das consequências a longo prazo.
Fomos
avisados, ignorámos os sinais e continuámos a ignorar quem nos alertava, até ao
limite. Entretanto, continuámos a produzir, a consumir e a esgotar recursos,
como se o planeta tivesse capacidade infinita para absorver os nossos excessos.
Nós, os
comuns dos mortais, NUNCA fomos uma verdadeira prioridade para aqueles que
juraram defender-nos, para aqueles que nos pediram o voto e que ainda hoje
nos dizem que temos de apostar nas energias limpas, enquanto alguns dos
próprios decisores continuam a beneficiar financeiramente dos combustíveis
fósseis.
Não sei
exatamente como se faz, mas sei que precisamos de trazer esta sujidade
institucional à luz do dia e de a limpar. Porque os interesses económicos de
quem toma decisões políticas não podem continuar a sobrepor-se ao futuro
coletivo.
Só nos
EUA, 100 dos 435 membros da Câmara dos Representantes serão detentores de, pelo
menos, 14 milhões de dólares em investimentos ligados às energias fósseis. Este
número, tal como está apresentado, merece confirmação quanto à fonte, à data e
ao universo de investimentos contabilizados, mas a questão que levanta
permanece pertinente: que incentivos têm os decisores para promover uma mudança
que pode desvalorizar os seus próprios investimentos?
E pergunto
eu: acham mesmo que estes indivíduos vão estar dispostos a perder esses
milhões?
É que,
quando os interesses financeiros de quem decide estão em conflito com os
interesses de quem os elege, talvez seja altura de deixarmos de acreditar nos
discursos e começarmos a olhar para aquilo que realmente importa: onde está
o dinheiro, quem beneficia com ele e quem acaba por pagar a fatura.
Porque, no
fim, a conta não será apresentada apenas a quem lucrou com o petróleo, o carvão
ou o gás. Será apresentada a todos nós, incluindo àqueles que ainda nem sequer
tiveram oportunidade de escolher o mundo em que vão viver.

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