O que fazemos com aquilo que nos incomoda?
O ativismo não é bem visto em Portugal.
O vandalismo não é ativismo.
E o que fazemos com aquilo que nos incomoda?
Observei estes dois títulos num vídeo de uma rede social,
em que outros tantos surgiam como ilustração do que estavam a atentar
apresentar, mas estes dois deixaram-me alguma inquietação, e por isso decidi
aqui trazer e partilhar convosco essas minhas inquietações.
Sobre o primeiro título, o de que o ativismo social não é
bem visto em Portugal, diria que o ativismo social não é propriamente bem visto
em lado nenhum. E não é por acaso! Como a própria palavra sugere, o ativismo
implica ação, movimento, agitação. Trata-se de agitar as águas em torno de
determinada matéria, de questionar aquilo que muitos preferiam manter
inquestionável, de colocar em cima da mesa aquilo que outros preferiam manter
debaixo do tapete. E é mais do que evidente que o poder, seja ele qual for,
nunca gostou particularmente de ver as suas águas agitadas, menos ainda de as
ver contestadas.
O ativismo incomoda porque questiona. Incomoda porque
obriga a olhar. Incomoda porque interrompe a confortável rotina de quem pode
continuar a viver como se os problemas não existissem. E incomoda, sobretudo,
porque transforma aquilo que era vivido individualmente em consciência
coletiva, aquilo que era murmurado em voz alta, aquilo que era resignação em
reivindicação.
O ativismo é o resultado do pensamento crítico, da recusa
em aceitar que o mundo tem de ser exatamente como nos dizem que é. É o
despertar de consciências, ou, pelo menos, a tentativa de as despertar. E
quando alguém desperta, há sempre alguém que perde o conforto de o manter
adormecido.
Por isso, não me surpreende que o ativismo não seja bem
visto em Portugal. Surpreender-me-ia, isso sim, que fosse unanimemente bem
visto em qualquer sociedade onde existam desigualdades, interesses instalados e
relações de poder, mais ou menos vincadas.
Michel Foucault dedicou uma parte importante do seu
pensamento à forma como o poder se exerce, não apenas através da força, mas
também através das normas, dos discursos e daquilo que uma sociedade aceita
como normal. Ora, talvez uma das maiores forças do ativismo seja precisamente
essa: questionar a normalidade. Mostrar que aquilo que nos habituámos a aceitar
não é necessariamente justo, que aquilo que “sempre” existiu não tem de
continuar a existir e que aquilo que parece inevitável pode, afinal, ser
transformado.
Porque, convenhamos, se tudo estivesse bem, se todos tivessem condições dignas de vida, se a justiça funcionasse para todos, se a liberdade não fosse condicionada pela carteira, pelo código postal ou pela posição social, que necessidade haveria de agitar as águas?
(photo by: RTP)
E talvez seja precisamente por isso que o ativismo
incomoda tanto: porque obriga a sociedade a confrontar-se com as suas próprias
contradições.
Já sobre o segundo título, o de que «vandalismo não é
ativismo», tendo a concordar, mas apenas em parte. E essa parte é importante,
porque precisamos de perceber de que vandalismo estamos a falar, em que
contexto acontece, contra quem se dirige e, sobretudo, o que está na sua
origem.
Não podemos colocar todos os atos no mesmo saco,
atribuir-lhes a mesma motivação e encerrar a discussão com uma frase feita.
Isso pode ser confortável, pode até funcionar muito bem como título
jornalístico, mas está longe de ser uma análise social ou política.
Não, não estou a defender que todo o vandalismo seja
ativismo. Nem estou a dizer que todo o ato de vandalismo tem uma motivação
política. Seria intelectualmente desonesto fazê-lo. Mas também me parece
intelectualmente desonesto afirmar que nenhum ato de vandalismo pode assumir
uma dimensão política, simbólica ou reivindicativa.
A questão não é tão simples como parece. E talvez seja
precisamente essa simplificação que nos impede de compreender o fenómeno.
John Rawls, ao discutir a desobediência civil, procurou
distinguir a contestação política de outras formas de transgressão, atribuindo
particular importância ao caráter público, consciente e não violento da ação.
Mas a própria discussão filosófica contemporânea mostra que as fronteiras entre
protesto, desobediência e formas mais confrontacionais de ação política são
objeto de debate. Há investigadores que defendem que certas ações consideradas
incivis podem, ainda assim, comunicar uma mensagem política, embora isso não as
torne automaticamente legítimas ou justificáveis.
E é aqui que precisamos de separar duas questões: uma
coisa é saber se um ato é legal, moralmente aceitável ou politicamente
legítimo; outra, bastante diferente, é compreender o que o motivou e a função
que desempenha.
Compreender não é desculpar. Explicar não é absolver. E
reprovar um comportamento não nos dispensa de procurar perceber as suas causas.
Porque, se a nossa análise termina no momento em que
pronunciamos a palavra «vandalismo», então não estamos a analisar coisa
nenhuma. Estamos apenas a atribuir um rótulo.
E os rótulos têm uma vantagem extraordinária:
permitem-nos condenar o comportamento sem ter de questionar a sociedade que o
produz. (e eu aprendi com Becker e outros que não pode, nem deve
ser assim)
O Joker, ou quando o grito deixa de caber dentro da razão.
Foi numa conversa com uma amiga que encontrei uma
analogia que me parece ir mais longe do que a discussão sobre se o vandalismo
pode ou não ser considerado uma forma de ativismo. Uma analogia que nos obriga
a olhar para uma dimensão mais profunda, mais desconfortável e, talvez por isso
mesmo, mais difícil de discutir: o que acontece quando a revolta deixa de caber
dentro da razão, quando o sofrimento ultrapassa aquilo que a pessoa consegue
verbalizar, quando a ausência de tudo aquilo que nos deveria ligar aos outros
transforma a própria existência num grito desesperado?
Falo do Joker. Mais concretamente, de Arthur Fleck, a
personagem do filme Joker, de Todd Phillips, interpretada por Joaquin
Phoenix.
Não falo dele para o transformar num herói. Muito menos
para romantizar a violência ou encontrar no homicídio uma qualquer forma
superior de expressão política. Falo dele porque a personagem nos confronta com
uma pergunta que tantas vezes evitamos: o que acontece quando alguém deixa
de encontrar, na sociedade em que vive, qualquer razão para acreditar que a sua
existência tem valor para os outros?
Arthur Fleck é apresentado como alguém profundamente
isolado, marcado por experiências de sofrimento, humilhação e rejeição, cuja
relação com as instituições e com os outros se vai deteriorando. Não é apenas a
pobreza que o condiciona. Não é apenas o sofrimento psicológico. Não é apenas a
dificuldade em encontrar trabalho, afeto ou reconhecimento. É a acumulação
destas dimensões, num percurso em que os poucos pontos de apoio parecem
desaparecer, que constrói a tragédia da personagem.
E é aqui que me parece impossível não convocar Émile
Durkheim e a sua obra O Suicídio, publicada em 1897.
Durkheim demonstrou que o suicídio não pode ser
compreendido exclusivamente a partir das características individuais de quem o
pratica. É necessário olhar também para a sociedade, para os vínculos que ligam
as pessoas aos grupos a que pertencem e para as formas como a vida coletiva
lhes proporciona integração e orientação.
Na sua análise do suicídio egoísta, Durkheim associa uma
integração social insuficiente a uma maior vulnerabilidade. Quando os laços que
ligam o indivíduo à família, à comunidade e a outras estruturas coletivas
enfraquecem, a pessoa pode ficar mais isolada, menos apoiada e menos integrada
na vida social.
Não significa isto que a ausência de vínculos conduza inevitavelmente ao suicídio, nem que quem tem família, amigos ou apoio institucional esteja imune ao sofrimento. Durkheim procurava explicar padrões sociais e diferenças nas taxas de suicídio, não estabelecer um destino individual inevitável. Mas a sua reflexão oferece-nos uma chave importante para pensar aquilo que acontece quando os laços sociais falham.
E se transportarmos esta preocupação para a personagem do
Joker, encontramos uma questão que vai muito além do diagnóstico individual: que
responsabilidade tem uma sociedade na vida daqueles que deixa progressivamente
de reconhecer, proteger e integrar?
Reparemos naquilo que acontece a Arthur. Os vínculos que
poderiam oferecer-lhe segurança são frágeis ou destrutivos. As instituições que
deveriam apoiá-lo falham-lhe. A sua vulnerabilidade é exposta ao ridículo. A
sua necessidade de reconhecimento é transformada em motivo de entretenimento.
E, à medida que perde os poucos pontos de apoio que ainda possui, parece perder
também a capacidade de imaginar uma alternativa à sua própria condição.
É aqui que a personagem se aproxima daquilo que tenho
procurado discutir sobre o vandalismo e a violência nas manifestações: não
porque um manifestante que parte uma montra seja um Joker em potência, nem
porque a violência tenha sempre origem na exclusão, mas porque, em determinadas
circunstâncias, a ação destrutiva pode ser o resultado de uma rutura profunda
entre o indivíduo e a sociedade.
A ausência de vínculos não transforma automaticamente
ninguém num agente de violência. A pobreza não transforma automaticamente
ninguém num criminoso. O sofrimento psicológico não transforma automaticamente
ninguém numa ameaça. Seria profundamente errado e estigmatizante sugerir o
contrário.
Mas também seria errado ignorar que a exclusão, a
humilhação, a privação de afeto, a falta de apoio e a experiência continuada de
não ser reconhecido podem contribuir para situações de sofrimento extremo e de
rutura.
É essa possibilidade que me interessa. Não a
inevitabilidade da violência, mas o terreno social em que ela pode tornar-se
pensável para alguém.
Axel Honneth, na sua teoria da luta pelo reconhecimento,
ajuda-nos a aprofundar esta dimensão. O reconhecimento não é um luxo reservado
a quem tem a vida organizada. É uma dimensão fundamental da relação que
estabelecemos connosco próprios e com os outros. Precisamos de ser reconhecidos
nas nossas relações afetivas, nos nossos direitos e no valor social daquilo que
somos e fazemos.
Quando esse reconhecimento falha de forma persistente, o
problema não é apenas aquilo que nos falta materialmente. É também a forma como
passamos a ser vistos — e como começamos a ver-nos a nós próprios.
Arthur não procura apenas escapar à pobreza. Procura
deixar de ser invisível. Procura deixar de ser o objeto do ridículo. Procura,
de uma forma cada vez mais destrutiva, ser alguém que os outros não possam
simplesmente ignorar.
E é aqui que o Joker se transforma numa metáfora política
particularmente perturbadora: a passagem de alguém que não consegue fazer-se
ouvir a alguém que conquista a atenção pública através do medo.
Quando Arthur mata Murray Franklin em direto, não estamos
perante uma manifestação política legítima, nem perante uma forma de ativismo
que eu queira defender. Estamos perante um homicídio. Mas, no plano simbólico
da narrativa, o ato representa uma inversão radical da relação entre quem é
ridicularizado e quem controla o palco. Aquele que antes era objeto de
entretenimento passa a dominar o espetáculo. Aquele cuja voz era desvalorizada
impõe-se através de um ato que ninguém consegue ignorar.
E a pergunta que o filme nos deixa não é se o homicídio
foi justificado. Não foi. A pergunta é outra: como chegámos a uma sociedade em
que a violência se torna, para aquela personagem, a forma extrema de conquistar
visibilidade?
A distinção é essencial. Compreender a trajetória que
conduz à violência não significa legitimar a violência; significa recusar a
ideia confortável de que o ato surge sempre do nada, sem história, sem contexto
e sem qualquer relação com o mundo em que acontece.
O Joker também nos obriga a pensar no que acontece
depois. A revolta coletiva que emerge na cidade apropria-se da imagem de Arthur
e transforma-a num símbolo. A personagem deixa de controlar inteiramente o
significado dos seus próprios atos. Outros encontram nela uma representação da
sua raiva, da sua frustração e do seu ressentimento perante uma sociedade que
percecionam como injusta.
O ato individual transforma-se, assim, num símbolo
coletivo. Não porque a violência de Arthur contenha um programa político
coerente, mas porque uma sociedade marcada por tensões e desigualdades encontra
naquele gesto uma imagem capaz de concentrar sentimentos que já existiam.
E não será esta uma das questões centrais quando falamos
de vandalismo em manifestações? Um ato individual pode adquirir um significado
coletivo que ultrapassa a intenção de quem o praticou. Pode ser apresentado
como símbolo de revolta, pode atrair a atenção dos meios de comunicação, pode
ser apropriado por grupos com motivações distintas e pode acabar por
representar, aos olhos do público, uma reivindicação muito mais ampla do que
aquela que lhe deu origem.
Mas atenção: a visibilidade não é reconhecimento
verdadeiro. Ser temido não é ser respeitado. Ser notícia não é ser
compreendido. E transformar-se num símbolo não significa construir uma solução
para os problemas que esse símbolo representa.
É aqui que a figura do Joker encontra também um limite. A
violência consegue interromper o silêncio, mas não garante que aquilo que venha
depois seja mais justo, mais livre ou mais humano.
Hannah Arendt, em On Violence, distingue o poder
que nasce da capacidade de as pessoas agirem em conjunto da violência enquanto
instrumento de imposição. A violência pode destruir, intimidar e forçar a
atenção. Mas não cria, por si só, as condições necessárias para construir uma
alternativa política duradoura.
Talvez seja precisamente isso que torna o Joker tão
desconfortável: ele mostra-nos uma rutura, mas não nos oferece uma saída.
Mostra-nos alguém que passa da invisibilidade à notoriedade, mas não demonstra
que essa transformação seja emancipadora. A sua revolta torna-se espetáculo, e
o espetáculo pode ser consumido por uma sociedade que continua, no essencial,
sem resolver as condições que alimentaram aquela rutura.
O Joker não é, portanto, um modelo de ativismo. É uma advertência ficcional sobre o que pode acontecer quando a exclusão, o sofrimento e a necessidade de reconhecimento se encontram numa trajetória destrutiva.
(Photo by: Sérgio Aires)E talvez seja aqui que a nossa reflexão deva começar, não
terminar.
Porque uma sociedade que só olha para determinadas
pessoas quando estas se tornam incómodas, perigosas ou impossíveis de ignorar
está a falhar muito antes do momento em que a violência acontece.
Não significa que a sociedade seja a única responsável
pelos atos individuais. Não significa que as vítimas da violência devam
suportá-la em nome de uma explicação sociológica. Significa apenas que a
responsabilidade individual e a responsabilidade coletiva não são
necessariamente incompatíveis.
Podemos responsabilizar quem pratica um ato violento e,
simultaneamente, perguntar que falhas sociais, institucionais ou relacionais
contribuíram para a trajetória que o tornou possível.
Podemos proteger as vítimas sem abandonar a análise das
causas. Podemos condenar o crime sem transformar o criminoso numa figura sem
história. E podemos exigir segurança sem aceitar que a única resposta às
situações de exclusão seja a repressão.
Porque, se esperarmos que alguém se transforme num Joker
para começar a perguntar o que lhe aconteceu, então já chegámos demasiado tarde
para muitas das perguntas que realmente importavam.
O vandalismo como grito: entre a necessidade de ser ouvido e a destruição daquilo que é comum.
Olhemos, então, para a questão da visibilidade mediática.
Em muitos protestos, existe uma nuance que merece ser
analisada: a opção de uma parte dos manifestantes por formas de ação que
ultrapassam os limites da legalidade, incluindo atos de vandalismo. Porquê? O
que procuram? O que esperam conseguir? E por que razão, em determinados
contextos, acreditam que a ação mais disruptiva poderá produzir resultados que
a manifestação pacífica, por si só, não conseguiu alcançar?
Não há uma resposta única, nem todos os casos têm a mesma explicação. Mas há uma realidade que não podemos ignorar: a atenção mediática é um recurso político, e nem todos têm o mesmo acesso a esse recurso.
Quem dispõe de poder económico, influência institucional
ou acesso privilegiado aos meios de comunicação consegue, muitas vezes, fazer
ouvir a sua voz sem sair do gabinete. Quem não dispõe desses recursos tem de
encontrar outras formas de tornar a sua existência visível.
E é aqui que o protesto entra em conflito com a lógica
mediática. Uma reivindicação pode durar dias, semanas ou meses sem ocupar o
centro da agenda noticiosa. Um acontecimento violento, pelo contrário, pode
transformar-se no assunto dominante em poucas horas.
Não significa que a violência seja a única forma de obter
atenção, nem que seja uma estratégia eficaz a longo prazo. Significa, isso sim,
que a lógica de seleção das notícias pode acabar por premiar a rutura, o
conflito e o espetáculo em detrimento da persistência, da razão e da
reivindicação.
Pierre Bourdieu chamou a atenção para o poder dos meios
de comunicação na construção daquilo que ganha visibilidade pública. E, quando
a visibilidade se torna condição para que um problema seja reconhecido, temos
de perguntar: quem consegue ser ouvido sem fazer barulho? E quem só passa a
existir para a sociedade quando o barulho se torna impossível de ignorar?
Vejamos o caso das acampadas no Porto. Na minha leitura
do que aconteceu, quando é que o assunto passou a ocupar um lugar central nas
notícias e na discussão pública, extravasando para outras geografias?
Precisamente quando a intervenção policial sobre os manifestantes transformou o
protesto num confronto visível.
A reivindicação já existia. Os manifestantes já lá estavam. As razões que os levaram a ocupar aquele espaço não nasceram no momento da intervenção policial. Mas foi a violência dessa intervenção, tal como foi percecionada e discutida publicamente, que contribuiu para colocar a acampada no centro da atenção mediática.
(Photo by: DN)Isto não significa que todos os pormenores do
acontecimento estejam automaticamente esclarecidos, nem que a proporcionalidade
da atuação policial possa ser determinada apenas pela cobertura noticiosa.
Significa que devemos olhar para a forma como o acontecimento foi construído
publicamente e para aquilo que fez com que tantas pessoas começassem a prestar
atenção.
E aqui deixo uma pergunta incómoda: se a reivindicação só
ganha visibilidade quando surge um confronto, não estaremos perante uma
falha da própria sociedade democrática na capacidade de escutar antes de ser
obrigada a olhar?
Poderemos até discutir se determinadas formas de atuação
policial, quando injustificadas ou desproporcionais, não representam também uma
espécie de «vandalismo» institucional. Não no sentido jurídico estrito da
palavra, porque a atuação policial tem um enquadramento legal próprio, mas no
sentido político e simbólico de uma força que, em vez de proteger direitos e
garantir a ordem, acaba por destruir a confiança pública e degradar o espaço
democrático.
A imagem que me ocorre é a de uma montra: de um lado,
temos os manifestantes, expostos, visíveis, pacificas; do outro, temos uma
força que detém o poder material para intervir, dispersar e impor a sua
vontade. Se essa força destrói a montra, quem é que a sociedade vai questionar
primeiro? Quem estava a protestar ou quem tinha a capacidade de impor a força?
Hannah Arendt ajuda-nos a perceber que a capacidade de
impor fisicamente uma decisão não é, por si só, prova de legitimidade política.
E se é legítimo exigir responsabilidade a quem destrói propriedade, também é
legítimo exigir responsabilidade a quem exerce a autoridade pública na forma desproporcionada.
A farda não é uma licença para a arbitrariedade. O mandato institucional não é
uma autorização para o abuso. E a obediência a ordens não elimina a necessidade
de avaliar a legalidade e a proporcionalidade da atuação.
A democracia não pode ser exigente com os cidadãos e
indulgente com o poder. Se a lei se aplica, tem de se aplicar a todos, embora
as responsabilidades concretas sejam naturalmente diferentes, tem aliás uma
fala no filme “Tropa de Elite 2” que acho se ajusta neste pensamento: “se o
BOPE tratasse político corrupto como trata traficante, o Brasil seria um país
melhor”.
Mas voltemos ao vandalismo das montras, porque também
aqui há mais do que uma dimensão.
Pergunto: não será que, em determinados casos, o ato de
quebrar uma montra e retirar os bens que estão no interior pode revelar, para
além do dano material, uma manifestação de carência económica, de exclusão
social ou de frustração perante uma sociedade que transforma o consumo numa
medida de valor pessoal?
E repare-se: não estou a afirmar que quem rouba o faz
necessariamente por necessidade. Há oportunismo, há ganância, há criminalidade
sem qualquer motivação emancipatória. Seria absurdo ignorar isso. Mas também
seria absurdo excluir, à partida, a dimensão social e económica de determinados
comportamentos.
Vivemos numa sociedade em que o consumo não serve apenas
para satisfazer necessidades. Serve também para construir identidades,
estabelecer hierarquias e determinar, tantas vezes, quem pertence e quem fica
de fora.
Zygmunt Bauman analisou precisamente esta condição da
sociedade de consumo: uma sociedade em que o indivíduo é continuamente
convocado a consumir, a renovar, a adquirir e a demonstrar que consegue
acompanhar os padrões que lhe são apresentados. O problema é que o convite ao
consumo é universal, mas a capacidade de consumir não é.
Todos somos convidados a desejar. Nem todos temos
condições para concretizar esses desejos.
Pensemos no «puto» que nunca pôde ter aquelas sapatilhas.
Não umas sapatilhas quaisquer, mas aquelas. Aquelas que os colegas usam,
aquelas que aparecem na publicidade, aquelas que simbolizam pertença e
reconhecimento. Aquelas que lhe são cobradas pelos pares num dedo firme que
aponta, numa gargalhada ou num sorrisinho afiado.
E pensemos no que acontece quando, todos os dias, a
sociedade lhe diz que pode ter tudo aquilo com que sonha, desde que se esforce,
desde que trabalhe, desde que faça as escolhas certas. Entretanto, a realidade
encarrega-se de lhe mostrar que o esforço nem sempre chega, que o trabalho nem
sempre garante dignidade e que a igualdade de oportunidades é, uma promessa
muito mais bonita no discurso do que na vida real.
Quando a publicidade vende o sonho como se estivesse ao
alcance de todos, mas a realidade coloca esse sonho fora do alcance de muitos,
não estaremos também a produzir uma forma de violência simbólica?
Robert K. Merton, ao analisar a relação entre os
objetivos culturais promovidos por uma sociedade e os meios legítimos
disponíveis para os alcançar (Teoria da Anomia ou da Tensão), ajuda-nos a
compreender esta tensão. Uma sociedade pode estimular continuamente a ambição,
o sucesso, o prestígio e o consumo, sem garantir a todos as mesmas
possibilidades de acesso aos meios legítimos necessários para os alcançar.
Isso não significa que a privação conduza inevitavelmente
ao desvio ou ao crime. Significa que a distância entre aquilo que uma sociedade
promete e aquilo que efetivamente permite alcançar pode criar tensões sociais
que merecem ser compreendidas.
Não é uma justificação para o roubo. Não é uma desculpa
para destruir o que pertence a outros. É uma pergunta sobre as condições
sociais em que esses comportamentos se desenvolvem.
Porque, quando alguém retira um bem de uma loja, a
sociedade vê imediatamente o prejuízo, o crime e o infrator. E tem razões para
o fazer. Mas será que olha com a mesma atenção para o contexto em que a
exclusão, a humilhação e a privação se acumulam? Será que procura compreender
por que razão, para algumas pessoas, o acesso ao consumo parece representar
muito mais do que a simples aquisição de um objeto?
E há ainda outra questão: quando, pouco depois, vemos
esses mesmos artigos a serem vendidos noutros espaços, a preços atrativos, não
devemos distinguir o desespero de quem procura adquirir algo do oportunismo de
quem transforma o saque numa oportunidade de negócio?
Quem compra mais barato pode estar apenas a tentar
poupar. Quem se aproveita de bens roubados pode estar a alimentar uma cadeia de
exploração. E quem rouba para revender pode não ter qualquer preocupação com
desigualdades sociais. Mais uma vez, as aparências não bastam para explicar as
motivações.
(Photo by: G1-Globo; protestos na Albânia)
Ainda assim, fica a pergunta: que sociedade é esta em que o consumo é apresentado como uma promessa de felicidade, a pobreza é tantas vezes tratada como um fracasso individual e a exclusão social só parece merecer atenção quando se torna incómoda para os restantes?Depois, temos o outro vandalismo: aquele que destrói
mobiliário urbano, contentores do lixo, caixas de eletricidade ou outros
equipamentos que pertencem a todos.
Aqui, a questão ganha outra dimensão. Porque destruir
aquilo que é comum não significa apenas provocar um prejuízo material.
Significa transferir esse prejuízo para pessoas que, muitas vezes, já suportam
as consequências de políticas com as quais estão descontentes.
Destruir um contentor do lixo não elimina o problema que
levou alguém a protestar. Cria um novo problema para quem tem de viver com os
resíduos acumulados na rua. Destruir uma caixa de eletricidade não atinge
necessariamente quem tomou a decisão política contestada. Pode deixar famílias
sem energia, prejudicar pequenos negócios e comprometer serviços de que
dependem pessoas particularmente vulneráveis.
O mesmo acontece com a destruição de outros equipamentos
públicos: o custo da reparação sai dos recursos coletivos, os serviços ficam
comprometidos e os impostos que deveriam financiar outras necessidades acabam
desviados para reparar aquilo que foi destruído.
E, no fim, quem paga? Nós. Os mesmos cidadãos que, muitas
vezes, já estavam a reclamar por melhores condições de vida.
É por isso que tenho dificuldade em ver neste tipo de
vandalismo uma forma eficaz de contestação política. Não porque não possa
existir uma intenção política por trás do ato, mas porque a intenção não
transforma automaticamente o ato numa ação politicamente inteligente, legítima
ou justa.
Hannah Arendt ajuda-nos, de novo, a perceber que a
violência pode destruir, intimidar e impor custos, mas não cria, por si só, o
poder coletivo necessário para construir uma alternativa. Uma ação pode chamar
a atenção e, simultaneamente, destruir parte das condições necessárias para alcançar
aquilo que reivindica.
É aqui que precisamos de distinguir a revolta da
transformação. A revolta pode ser uma reação compreensível perante uma
injustiça. A transformação exige que a energia dessa revolta seja orientada
para algo que não reproduza a injustiça que pretende combater.
Porque, se o nosso protesto destrói os meios de que a
comunidade dispõe para viver, quem estamos verdadeiramente a atingir? O
Governo? O poder económico? Os responsáveis pelas decisões? Ou os nossos
próprios vizinhos, que também enfrentam dificuldades e que, provavelmente, não
têm qualquer responsabilidade direta na situação que originou o protesto?
Há uma diferença entre atacar um símbolo do poder e
destruir um recurso comum. E há uma diferença ainda maior entre causar um
incómodo a quem decide e transferir o custo desse incómodo para quem já suporta
as consequências das decisões.
(Photo by: RFI)
E, no entanto, não quero cair no extremo oposto: o de
olhar para todos estes comportamentos apenas como problemas de polícia e de
ordem pública.
Porque isso seria igualmente redutor.
Quando uma sociedade responde à revolta apenas com
repressão, sem procurar compreender as suas causas, corre o risco de
transformar um problema social num conflito permanente entre quem protesta e
quem é chamado a manter a ordem.
A polícia tem funções essenciais numa democracia. Deve
proteger pessoas, prevenir crimes, garantir a segurança e atuar dentro da lei.
Mas a sua legitimidade não resulta apenas da capacidade de usar a força.
Resulta também da legalidade, da necessidade, da proporcionalidade e da
responsabilidade com que essa força é exercida.
E o mesmo princípio deve valer para quem protesta: a
existência de uma causa não torna todos os meios aceitáveis, assim como a
existência de uma infração não elimina todos os direitos de quem a comete.
Uma democracia madura tem de conseguir sustentar estas
duas ideias ao mesmo tempo, sem se refugiar em simplificações convenientes.
É precisamente por isso que não me basta ouvir que
«vandalismo não é ativismo». Quero saber o que se entende por vandalismo, que
motivações estão em causa, que consequências foram produzidas e que resposta se
pretende dar ao problema. Quero saber se estamos perante uma ação oportunista,
uma manifestação de desespero, uma tentativa de comunicação política ou uma
mistura de fatores. E quero saber se a resposta que damos é capaz de distinguir
entre essas realidades.
A análise não substitui a responsabilização. Mas a
responsabilização, quando dispensa a análise, arrisca-se a ser apenas uma forma
de encerrar a discussão.
E termino com uma última reflexão. (Photo by: Sérgio Aires)
Talvez o problema não seja apenas o facto de o ativismo não ser bem visto. Talvez o problema seja que, em demasiadas ocasiões, só consideramos legítimo o ativismo quando ele não perturba ninguém, não interrompe nenhuma rotina, não prejudica nenhum interesse e não obriga ninguém a sair da sua zona de conforto.
Queremos que as pessoas protestem, mas sem incomodar. Que
contestem, mas sem perturbar. Que denunciem injustiças, mas sem afetar os
interesses de quem beneficia delas. Que se façam ouvir, mas sem elevar
demasiado a voz.
Queremos, em suma, um ativismo que não pareça ativismo.
Uma contestação que não incomode o poder. Uma revolta que seja suficientemente
visível para nos permitir dizer que vivemos em liberdade, mas suficientemente
inofensiva para não exigir qualquer mudança.
Ora, isso não é liberdade de protesto. É liberdade
condicionada à conveniência de quem não quer ser contestado.
E não, não voto a favor do vandalismo. Reprovo-o,
sobretudo quando atinge pessoas inocentes, destrói bens comuns ou compromete as
condições de vida de quem já vive com dificuldades. Mas a minha reprovação não
serve para justificar a ignorância sobre as suas causas, nem para transformar
todos os que protestam em suspeitos, nem para conceder ao poder uma licença
para agir sem escrutínio.
Compreender a funcionalidade de um comportamento não
significa aprová-lo. Conhecer os seus possíveis motivos não significa
desculpá-lo. E reconhecer a existência de desigualdades não significa negar a
responsabilidade individual.
Significa apenas recusar uma análise preguiçosa, que
prefere condenar o sintoma a compreender a doença.
Porque uma sociedade que apenas pergunta «quem partiu a
montra?» e nunca pergunta «que sociedade está refletida nesta montra?» pode até
conseguir reparar o vidro. Mas não terá necessariamente resolvido aquilo que
levou alguém a querer quebrá-lo.
E uma sociedade que exige ordem sem se preocupar com a
justiça pode acabar por confundir a ausência de contestação com a existência de
paz.
A paz não é o silêncio imposto a quem sofre. A ordem não
é a ausência de conflito. E a democracia não é o direito de escolher
representantes de quatro em quatro anos para, nos intervalos, ficarmos quietos
e agradecidos.
A democracia vive da participação, da contestação, do
escrutínio e da possibilidade de questionarmos quem exerce o poder. Vive também
da responsabilidade de cada um perante os outros e perante os bens comuns.
Por isso, talvez a pergunta que devêssemos fazer não
fosse apenas se o ativismo é bem visto, ou se o vandalismo é ou não ativismo.
Talvez devêssemos perguntar que tipo de sociedade
estamos a construir quando a contestação pacífica não consegue ser ouvida, a
violência se transforma em notícia, a pobreza se confunde com fracasso pessoal
e a destruição dos bens comuns se torna, para alguns, uma das poucas formas de
fazer sentir a sua revolta.
E, sobretudo, que responsabilidade temos todos nós —
cidadãos, jornalistas, políticos, instituições e forças de segurança — na
construção de uma sociedade em que seja possível protestar sem destruir,
discordar sem desumanizar e exercer o poder sem abusar dele?
Porque o verdadeiro desafio não é encontrar uma forma de
calar a revolta. É construir uma sociedade que não precise de esperar que a
revolta expluda para começar, finalmente, a escutá-la.
E talvez seja essa a lição mais desconfortável que o
Joker nos deixa: não que a violência seja inevitável, nem que possa ser
justificada pelo sofrimento, mas que a sociedade não deve esperar pelo momento
em que alguém se torna uma ameaça para começar a reconhecer a sua humanidade.
Porque, quando alguém deixa de encontrar um lugar entre
os outros, o problema não é apenas o que essa pessoa poderá vir a fazer. É
também aquilo que nós, enquanto sociedade, deixámos de fazer quando ainda havia
tempo para agir.
Referências bibliográficas
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