Onde estão os Sérgios Godinhos, os Tordos, até os Zécas da nossa geração?
Estes dias fui assistir a uma conversa sobre cultura proferida
por Pacheco Pereira e Manuela Monteiro do Mira Galerias, e mesmo não tendo
ficado até ao final, foi durante a fala de Pacheco Pereira que me surgiu a
questão – Onde estão os Sérgios Godinhos, os Tordos, até os Zécas da nossa geração?
Poderei até estar a cometer uma injustiça, porque se
calhar alguns até existem, mas também acredito que se existissem eu teria dado
conta, se não por mim, pelas pessoas de quem sou amigo, teria com toda a
certeza postado algo de fosse revolucionário, se fosse contra corrente, se
fosse voz do povo feita letra de música. Mas se ainda não vi nada disso pelos
meus amigos de tantas lutas, então isso não existe de fato.
Dirão vossas excelências que me leem – Mas JP não estamos
a viver uma ditadura, vivemos em democracia, os dias de hoje nada tem a ver com
o passado!
E eu respondo será que não? O que é que vocês acham que é
preciso para como dizem ser como no passado?
Fiz um pequeno quadro com base em informação do INE e da
PORDATA onde retrato três itens base da sobrevivência de todos – um vencimento
para pagar as contas; um cabaz de compras nada pretensioso (o estipulado como
sendo básico) para não morrer de fome – e o custo com a habitação arrendada,
porque todos merecemos um teto, como guarda a nossa Constituição e porque
comprar meus amigos nunca esteve tão longe do bolso dessa grande massa
assalariada nacional.
Note-se que neste meu quadro simples acessível a todos,
não estou a incluir os transportes (passe social e ou combustível) – energia –
água – e depois nestas minhas pequenas pesquisas, uma coisa que dei conta, é
algo que todos sabemos e algo que apenas alguns sabem (economistas e pessoa com
atenção à finança). Todos sabemos que os preços não baixam com a inflação baixa,
um preço quando sobe não desce, apenas estagna e ou sobe mais lentamente – a
brincadeira infeliz e insultuosa dos combustíveis é um bom exemplo disso mesmo,
tiram 1 cêntimo esta semana, para subir dois ou três na semana seguinte.
Outro pormenor no meu quadro é que estamos a falar de
valor de vencimento brutos, mas quando olhamos os valores ilíquidos a coisa
fica bem mais feia, o mesmo valor de 2004 chega a casa 322,71€ num caso e no
outro 729,80€, que resulta num restante de 72€ e -147,80€ respetivamente, e se
72€ não serve para pagar o restante da despesa mensal, é mais que certo que
147,80€ negativos não paga mesmo nada – os atuais 818,80€ de salário mínimo (ilíquido)
não serve nem para pagar apenas um renda dos tais 80m2 = a T1+1 ou com esforço arquitetônico
a um T2, sendo que a renda mais baixa de mercado é algo próximo dos 1130€.
A sociedade, e em particular a classe trabalhadora ainda
não colapsou de vez, não porque está melhor, mas porque a resiliência, o hábito
feio (digo eu) do jogo de cintura das comunhões entre conjugues e ou entre pais
e filhos, tem conseguido levar esta embarcação em frente, mas vai ter um dia
que isto vai rebentar e pode não ser mesmo NADA bonito.
Por isso e tudo mais eu pergunto-me, onde estão esses seres
extraordinários que amplificam a voz do povo numa batida musical sentida
juntinho ao coração de quem trabalha, um povo que vive um guião que os tortura
todos os dias, que os coloca num sistema neo-esclavagista, e que nessa
escravidão moderna ainda continua a relegar para lugares de uma renda ainda
menor, e de uma precariedade laboral nojenta, os que não tem uma cor de pele a
condizer com a do patrão, as mulheres, os menos letrados, …?
Não é à toa que a cultura é o parente pobre de qualquer
governação que pretende subjugar, não é à toa que o sistema de ensino é
equivalente a uma linha de montagem da conserveira – um número exato de
sardinhas, uma quantidade exata de óleo e tapa, manda assim para o mercado,
seja ele qual for!
Não surpreende que desta linha de montagem os mais ansiosos, aqueles que saltam
da esteira, procurem mercados lá fora onde sejam valorizados, e deixem o país
cada vez mais com mão de obra menos especializada, menos capacitada, e assim
faça permanecer os mesmos nos lugares de comando, num comando que é viciado,
onde não se regula o volume do som, ou a intensidade da luz, ou mesmo não se
altera o cenário à décadas, é só mesmo carregar no botão verde, já gasto onde
no centro já se descobre o plástico sem cor.
A cultura é como uma horta, precisa de ser cultivada, e
esse cultivo vai da formação nas escolas desde o inicio desse percurso
formativo, é preciso estimular para evoluir, é preciso debater para inovar –
depois é preciso uma oferta de qualidade, acessível até quem sabe debatida
nesses lugares de oferta, é preciso critica consciente e de base, e é aqui
mesmo que a “porca torce o rabo”, NENHUM governo seja ele de esquerda ou de
direita, e em particular nenhum dos estremos, quer uma população com capacidade
critica, e é precisamente por isso que o ensino é o que é, e a cultura recebe
as migalhas de todo e qualquer orçamento, apenas para ser politicamente
correto, porque se fossem sérios não recebiam NADA.
Caminhamos a olhos vistos desde 2014 (pelo menos) para
uma espécie de ditadura democrática e o povo está cego e ou adormecido ou os
dois, e o nosso megafone que são os Zécas, os Godinhos ou os Tordos, parecem
não existir nesta nossa geração,… um dia destes vamos acordar com os pés molhados,
e aí salva-se quem souber nadar nesse mar revolto que sendo neo não é muito diferente
do histórico.
Salário bruto e ilíquido
920€ = 818,80€ no continente
966€ = 859,74€ nos Açores
980€ = 872,20€ na Madeira
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