Quem colocámos no lugar de Cristo?
Há qualquer coisa de profundamente irónico nesta imagem. Três personagens de animação, pregadas em três cruzes, reproduzem de imediato a imagem do Calvário: Cristo ao centro, os dois condenados de cada lado. Mas aqui já não há Cristo. Há personagens da cultura popular, há consumo, há entretenimento, há aquilo que aprendemos a reconhecer como marcas e imagens que nos acompanham desde a infância. A primeira leitura é inevitavelmente a de uma sátira à crucificação e à religião. Mas talvez a provocação seja mais profunda do que isso. Talvez a questão seja precisamente perceber o que acontece quando o sagrado e o comercial passam a ocupar o mesmo espaço simbólico.
Madonna já tinha explorado essa fronteira de forma
particularmente provocadora. Em Like a Prayer, a cruz, a igreja, a
iconografia católica, o pecado, a sexualidade e a própria ideia de redenção
eram retiradas do seu contexto religioso e colocados dentro da cultura pop. A
polémica foi enorme, mas havia uma ironia que talvez seja ainda mais
interessante: a crítica à Igreja circulava através da televisão, da música, da
publicidade, dos discos e de uma indústria cultural que transformava a
provocação em produto. A cruz que servia para questionar o poder religioso era,
simultaneamente, uma imagem vendável, tem aliás cruzes que carregamos ao peito
pagas a preço de ouro, literalmente falando. A rebeldia também podia ser uma
mercadoria.
É precisamente nessa contradição que vejo uma ligação
possível com esta obra. Se Madonna levou a religião para dentro da cultura pop,
os Chapman parecem fazer o movimento contrário: levam a cultura pop para dentro
da iconografia religiosa. A cruz torna-se um recipiente e a pergunta passa a
ser: o que colocamos hoje sobre ela? Durante séculos colocámos Cristo. Agora
podemos colocar uma personagem de animação, uma marca, uma celebridade, um
produto. E talvez a pergunta mais incómoda não seja o que aconteceu à religião,
mas aquilo e quem que colocámos no lugar dela.
Porque uma marca também constrói símbolos. Também cria
rituais. Também produz pertença. Também promete felicidade. Também nos diz o
que devemos desejar e, sobretudo, aquilo de que aparentemente precisamos para
sermos felizes. A diferença é que uma religião promete salvação e uma marca
promete satisfação. Uma fala para a alma; a outra fala para o desejo. Mas ambas
compreenderam, de formas muito diferentes, o extraordinário poder da imagem, da
repetição e da crença. Não falta quem sinta culpa por não ter o artigo da moda!
É aqui que a própria Igreja Católica se torna uma questão
interessante. Não diria simplesmente que a Igreja é uma empresa — seria uma
redução demasiado fácil e, juridicamente, errada. Mas é impossível ignorar a
dimensão institucional, económica e patrimonial de uma organização que
atravessou séculos, acumulou propriedades, administra recursos, construiu uma
estrutura internacional extraordinariamente complexa e, em muitos países,
beneficia de regimes fiscais e jurídicos próprios. Mais importante ainda, possui
aquilo que talvez seja o seu verdadeiro capital: a capacidade de produzir e
preservar uma determinada ideia de verdade.
A Igreja não vende apenas objetos ou serviços. Vende —
ou, se preferirmos, oferece — uma interpretação do mundo. Diz-nos de onde
vimos, para onde vamos, isto segundo um são qualquer, é só escolher, o que é o
pecado, o que é a culpa, o que é a redenção e o que devemos acreditar. E
durante séculos conseguiu transformar essa interpretação numa verdade
partilhada por milhões. É uma forma de poder muito mais profunda do que o poder
económico: é o poder de determinar o significado das coisas.
Por isso, talvez seja mais interessante falar de poder do
que falar simplesmente de dinheiro. Porque o verdadeiro problema começa quando
uma instituição que produz doutrina, administra património, influencia governos
e sociedades e possui uma autoridade moral (alegadamente) extraordinária se
confronta com a sua própria capacidade de se proteger enquanto instituição. Os
casos de abuso sexual cometidos por membros do clero tornaram particularmente
evidente essa dimensão. A questão deixou de ser apenas saber quem cometeu determinado
crime. Passou também a ser saber quem sabia, quem podia impedir, quem decidiu
silenciar, quem protegeu a instituição e quanto poder uma organização pode
mobilizar para preservar a sua própria imagem.
E é precisamente aqui que a cruz volta a adquirir uma
dimensão quase perturbadora. Porque a cruz é, ao mesmo tempo, símbolo de
sofrimento, de sacrifício, de redenção e de poder. É uma imagem que atravessou
séculos e que foi usada para representar a fé, para evangelizar, para construir
identidade, para legitimar autoridade e, naturalmente, para criar arte. Como os
grandes símbolos, foi também morte, guerra, crime era com uma cruz ao peito que
os cruzados fizeram isso tudo, em nome de um Deus. Mas também se tornou objeto,
mercadoria, adereço, imagem publicitária e elemento da cultura pop. A cruz
sobreviveu à própria transformação do mundo que lhe deu significado.
E talvez seja isso que os Chapman nos estão a mostrar.
Não apenas uma blasfémia, (se esquecermos todos os milhares de vítimas de
abuso), não apenas uma piada com a crucificação, mas a transformação permanente
dos símbolos. O que ontem era sagrado pode hoje ser comercial; (Fátima já
descobriu isso faz tempo, olha as santinhas que dão luz) no que ontem era
profano pode amanhã ser arte; aquilo que pretende denunciar o consumo acaba
exposto num museu e transformado ele próprio em objeto de consumo. A crítica ao
mercado entra no mercado. A crítica à religião entra numa instituição cultural.
A provocação transforma-se em catálogo, fotografia, exposição, conversa — e
agora, inevitavelmente, numa publicação nas redes sociais.
Há, portanto, uma espécie de círculo perfeito nesta
imagem. A religião criou a cruz como símbolo. A cultura ocidental transformou-a
em património. A cultura pop apropriou-se dela. A publicidade transformou-a em
imagem. A arte voltou a apropriá-la para questionar tudo isto. E nós,
espectadores, fotografamos a obra e levamo-la connosco.
Talvez seja essa a verdadeira ironia: já não
precisamos de destruir os símbolos sagrados para os profanar. Basta
transformá-los em imagens.
E talvez a pergunta que aquelas três personagens nos
fazem, pregadas nas suas pequenas cruzes, não seja propriamente se ainda
acreditamos em Deus. Talvez seja uma pergunta muito mais contemporânea e
incómoda: depois de termos transformado religião, política, arte, pessoas e
até a própria rebeldia em imagens, marcas e mercadorias, em que é que ainda
acreditamos?
Porque talvez o mais provocador naquela sala não seja ver
personagens de desenhos animados crucificadas.
Talvez seja perceber quem — ou o quê — colocámos no
lugar de Cristo.
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