Será que a revolução já começou?
De quando em vez eu vou até à acampada, vou só de quando em vez por questões meramente pessoais, a proximidade com o ativismo magoa-me nas memórias de pessoas que não poderei ver mais, e sobre as quais estou certo estariam na linha da frente, de quem sinto saudade, e que até hoje não encaixei a partida.
Desta última vez
que fui, juntei o útil (ir à acampada, estar presente, testemunhar e reportar),
ao agradável (fazer exercício), e por isso fiz um cálculo rápido de quanto
tempo precisava para ir de casa, (junto ao Dragão), a Prç D. João I – sai de
casa ás 18:15 e precisamente às 19hrs estava a entrar na Praça.
De imediato
comecei a gravar com o telemóvel alguns momentos, tirei algumas fotos, fiz
direto para o meu perfil do FB e continuei a absorver a energia que emanava do
burburinho, das palavras de ordem, das conversas paralelas ou perpendiculares e baixinho ou interiormente ia dizendo “Bom dia!” a rostos, cabelos, que de
longe me pareciam rostos de outros tempos – sou um tonto que acredito que por
vezes os espirito de gente que já partiu se manifesta em outras pessoas como
forma de nos dizer olá, coisas minhas, e nem uso drogas, sou uma espécie de
Obelix, caí no caldeirão da espiritualidade e da loucura nata, quando era
pequenino e fiquei assim.
Do nada surge um
rosto conhecido, não lhe vou dar nome, apenas dizer que é uma amizade que
sempre nos respeitamos, alegadamente de mundos sociais diferentes, e por vezes
de lutas comuns, mas sempre da luta, a de preservar a LIBERDADE porque
fascismo NUNCA mais – foi bom revê-lo, trazia consigo outro amigo, tinham
estado na festa do AVANTE e traziam consigo uma bandeira que eu nunca tinha
visto – conversamos longamente do passado, do presente, dos ativismos de cada
um, até chegar o momento de eles irem apoiar outro camarada.
Eu fiz mais uma
filmagem, aquela que mostra um tempo que parecia nunca acabar onde se ouvia “25
de Abril SEMPRE, fascismo NUNCA mais!”, e num tom que deixaria orgulhosos os
capitães de Abril, esse Abril que abriu as portas da LIBERDADE, que expôs a
miséria, e arrancou do povo uma mordaça já amarelada da ditadura, e tomou ao opressor
o “chicote” laminado da opressão.
Ao ler algumas
das pancartas veio-me à memória o projeto SAAL, porque é de habitação que
falamos, foi aqui no Porto que começou, o objetivo, dar habitações dignas a uma
população que sobrevivia tantas vezes, demasiadas, em condições lastimáveis – o projeto SAAL desenhou e construiu
habitações com as pessoas, para as pessoas, das pessoas, mas como tantos outros
projetos pós revolucionários rapidinho se perdeu o rumo – dava trabalho escutar
a população, dava trabalho encontrar respostas que satisfizessem quem procurava
casa, mas acima de tudo era demasiada dignidade para um povo que se quer de rédea
curta, vamos que depois de pensarem uma casa com os arquitetos envolvidos,
achassem que agora também queriam educação e saúde de graça, e assim acabou a
festa, dois anos depois (1974-1976).
No entretanto a acampada fez uma pequena marcha entre a Prç D.João I e a
Prç Humberto Delgado, espaço frente à CMP a ideia foi levar a mensagem ao poder
local, e a Pedro Duarte – e lá gritava-se em verso de canção:
“O Porto é nosso
O Porto é nosso
O Porto é nosso e ade ser
O Porto é nosso e ade ser
O Porto é nosso até morrer”
Este verso
cantado de pleno pulmão, talvez quisesse lembrar o Sr Presidente Pedro Duarte,
que o slogan “O Porto somos nós!” esqueceu, deixou de fora, quem hoje está nas ruas
a reclamar políticas de habitação justas, não de metros quadrados a 4 mil/€ -
um custo de vida que retirou os bolsos do vestuário porque neles nada á para
guardar, porque nada sobra.
Estava eu a
pensar caminhar de volta a casa, quando uma mensagem me puxou de volta à
D.JoãoI, a minha amiga Patrícia Martins estava lá, e não estava só, com ela ao
Jorge e a Beatriz, mas não só. Temos até uma foto tirada por outro amigo, o
Sérgio Aires, e que foto, uma imagem que me arranca aquela lágrima no silêncio
ensurdecedor da imagem, que grita saudade, e luta.
Mas se toda esta orgânica
de pessoas, vibrações, energias várias, música, slogans e cânticos, bem como a cara de ontem e de hoje de amizades lavradas nas lutas tornaram esta minha
visita poética, como foi a imagem que quando caminhávamos em direção à CMP, fez ecoar na minha cabeça uma voz a solo, um declamar da luta em verso – em contra
corrente, caminhando no sentido contrário à marcha que acabava de sair da Prç
D.JoãoI, três pessoas que nada teriam entre si a não ser a luta, expunham as
suas pancartas como um cartão de identidade, uma espécie de cartão de sócio
desta cooperativa popular, e ao vê-los assim lembrei o Zéca a cantar “Traz um
amigo também”.
Este tema da habitação não é novo, Mário Viegas declamou Vinícius que é de Moraes, e lhe chamou, ao verso que lutava “O Operário em Construção”, estávamos em 1956, a redação, e de lá para cá os poetas tem ficado silenciosos com os nossos artistas da canção, onde estão os Zecas de hoje, que transformam a dor do povo em letra de canção e a proclamam para qualquer plateia?
Uma coisa estou certo, não temos falta de polícia, felizmente, digo eu – nesse dia, e à hora que estive na praça, havia várias carrinhas da polícia, alguma equipada no modelo intervenção, enquanto ao mesmo tempo em volta do Dragão se estacionava em cima das sepulturas, se preciso fosse, para ficar mais perto do epicentro do jogo, mais um na casa do FCP. E ao ver tanta polícia na praça, mais os mascarados de Halloween, lembrei dos secos e molhados, lembrei dos policias a derrubar as barreiras impostas por outros policias na AR, ou da ocupação do espaço público frente ao MAI – quem prendeu esses policias que se insurgiram contra os policias? Quem bastonou os policias que se amotinaram contra os outros policias?
Senhores e senhoras policias, senhores e senhoras comissárias, nem vale dizer que isso foi antes, porque as vossas condições de trabalho de lá para cá o pouco que possam ter melhorado, essa melhoria não passa de uma máscara de Carnaval, que cai na primeira embatida.
Nem tudo é mau, parece que a consciência afinal é contagiosa, deve ser uma coisa cristã, porque aqui e ali, já se vai sabendo dos policias que se fazem de distraídos e deixam escapar um ou outro manifestante por entre os dedos, porque como disse o senhor comissário em canal público, eu partilho da vossa causa, como se não fosse dele mesmo, enquanto fala da dificuldade de os seus filhos em se emanciparem precisamente em virtude da causa que é dos outros e não dele.
Já vos deixo em
paz, afinal esta minha reflexão já vai longe, mas antes mesmo de me ir, tenho
uma questão que me tem assaltado: Será que a revolução já começou?
Talvez estejamos
a cometer o erro de esperar pela revolução sem perceber que ela já começou. Terá
começado quando demos conta que trabalhar deixa de garantir o direito a uma
casa. Quando os salários não chegam ao fim do mês, quando os jovens são
empurrados para a precariedade, quando envelhecer significa temer a pobreza e
quando o acesso à saúde, à educação e a uma vida digna se transforma,
progressivamente, num privilégio.
Começa quando
aquilo que deveria ser um direito passa a ser uma mercadoria. Quando a
habitação vale mais pelo lucro que produz do que pela vida que acolhe. Quando a
riqueza cresce, mas a segurança de quem a produz diminui. Quando cumprir
as regras da sociedade deixa de ser suficiente para viver com dignidade.
Talvez a
revolução contemporânea não comece com a tomada do poder, mas com a perda de
legitimidade de um sistema que já não consegue justificar as injustiças que
produz.
Em Portugal, a
contestação pela habitação, pelos salários e pelo custo de vida pode ser mais
do que uma sucessão de protestos. Pode ser o despertar de uma consciência
coletiva: a perceção de que problemas aparentemente individuais — não conseguir
pagar uma renda, constituir família, sair de casa dos pais ou chegar ao fim do
mês — têm raízes comuns e exigem respostas coletivas.
É aqui que a
acumulação das injustiças sociais ganha força política. Nenhuma delas,
isoladamente, determina uma revolução. Mas, quando se acumulam, se tornam
persistentes e atravessam diferentes gerações e grupos sociais, podem
transformar a resignação em indignação, a indignação em solidariedade e a
solidariedade em ação política.
Terá sido Karl
Marx a dizê-lo, que a história das sociedades é atravessada pelo conflito
entre interesses e classes sociais. Enquanto que Antonio Gramsci deixou-nos uma reflexão
particularmente pertinente para os períodos de crise: quando o velho perde a
capacidade de se impor e o novo ainda não conseguiu afirmar-se, abre-se um
tempo de instabilidade, disputa e possibilidades.
Será neste
intervalo que vivemos? Talvez. Mas a história não está escrita de antemão.
Uma revolução não
tem necessariamente de repetir as formas do passado. Pode nascer nas ruas, nas
greves, na ocupação das praças, nas redes de solidariedade e na recusa coletiva
de aceitar como inevitável aquilo que é, afinal, uma construção política e
económica. Pode não ter ainda um programa comum, um rosto ou uma direção
definida. Pode ser, por enquanto, uma multiplicidade de lutas que
começam a reconhecer-se umas às outras.
E é precisamente
aí que reside tanto a sua força como a sua incerteza: a revolta pode abrir
caminho à emancipação, mas também ser desviada para novas formas de
autoritarismo. A transformação não decorre automaticamente da injustiça;
depende da capacidade de construir alternativas.
Talvez por isso
faça sentido recuperar a advertência de Brecht: «Do rio que tudo arrasta
diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.»,
a opressão disfarçada de limites à LIBERDADE.
Durante demasiado
tempo, olhámos para a indignação como um problema de quem protesta, em vez de
olharmos para as condições que tornam o protesto necessário.
E se a
verdadeira questão já não for saber se estamos perante uma revolução, mas
perceber que revolução está a nascer, está a acontecer nas praças do nosso país?
Uma revolução que
não se mede apenas pela queda de governos, mas pela transformação daquilo que
uma sociedade considera aceitável. Que começa por exigir uma casa, um salário
digno e uma vida sem medo, mas pode acabar por questionar a própria organização
do poder, da riqueza e dos direitos.
Talvez ainda não
saibamos dar-lhe um nome. Mas quando a injustiça deixa de ser vivida como um
destino individual e passa a ser reconhecida como um problema coletivo, alguma
coisa fundamental já mudou.
E essa mudança,
mesmo antes de conquistar o poder, é já uma forma de revolução.


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